
(imagem de Joana Espírito Santo)
- a propósito de sintonias -
Espreito.
Redesenho o espaço entre os dedos, não obedecendo à amplitude que exigem; cedendo ao movimento fulminante do cérebro que estagnou a voz nas cordas, na contemplação do movimento nos domínios da imperceptibilidade.
Olho-te e declinam os pensamentos onde ninguém os ancora: o mundo é para ser sentido e as perguntas para serem repetidas: repercutidas: ignorando intervalos na composição do tempo.
A intensidade com que a distância entre a pele e a teia de vasos comunicantes que rendilham o caminho, onde o sangue, alado, é disparado pelo sopro cósmico que me varre quando me chamas, torna tudo tão frágil: as ruas iluminadas, as lâminas que araram um corpo, cultivaram abraços e deflagraram nas mãos os espelhos tecidos nas conversas em que o amor se rasgou, dando ao silêncio a viagem onde selávamos o fecho do dia, com o beijo que trazia a beleza do teu rosto: escorava a fragilidade exibida pelo desassossego depois de conquistado e o tornava mais perfeito.
O mundo é um lugar onde os (entre) tantos se tecem ao som de outros olhos: escondo-me – quero-me desconhecido e a ignorarem que percorro o tempo fragmentando os enigmas que espalhavas num percurso de sentimentos unicelulares, unindo-se após a propagação de ondas magnéticas dos teus passos a apelar à dança em que os ventos se perdiam numa equação afinal repleta de simplicidade: os segredos recuam; cessam perante a integralidade de encanto que se apodera de ti.
Ao apelo do som dos teus olhos estáticos querendo espasmos, respondia-te com a canção em que os tormentos se desvaneciam, por sonhar com frutos roubados à Natureza que nos convidava a deitar na relva onde tudo ameaçava partir contigo.
O exercício dos sentidos dilacera-se na astucia e a implosão das regras com que o manto da memória te naufraga os desejos; te encontra a caminhar fora de mim; classifica a existência como maldição: sufraga combustões; convoca a doçura em que apenas a rendição é permitida.
Retornas.
Na alquimia do som da condensação de um olhar, desaparecem fronteiras entre lentidão e ignição que não se estanca: apenas a vertigem ecoa, no mundo que teces e habita no intervalo inverosímil dos dedos a que agora cedes a intersecção.
1 Explosions In The Sky - Last Known Surroundings
2 Jesse Sykes And The Sweet Hereafter - Marble Son
3 Trespassers William - Right You Are
4 FleetFoxes - Helplessness Blues
5 Wovenhand - White Bird
6 Jack the Ripper - Old Stars
7 Blonde Redhead - 23
8 Low - Try To Sleep
9 King Creosote & Jon Hopkins - Your Own Spell





