10 agosto 2009

Why? – Eskimo Snow - 2009



A “inexplicação” de se sentir música.

Num ano que se confirma pandémico na gestação de discos soberbos, reforçando a teoria da conspiração da união de músicos que tornam ainda mais férteis, terrenos já de si portentosos: os Why?, com “Eskimo Song” são agentes que encabeçam as linhas que serão recordadas, não só no final do ano, também quando menos o esperarmos, como todas as memórias saborosas o são.

Porquê figuras de cenários improváveis como o hip-hop criarem música tão distante? Porque há loucos para tudo: para cada índice. A loucura, quando devidamente doseada com genialidade, dá resultados esplêndidos: por norma.

O avanço com que se escuta apenas uma faixa de um álbum, até aceder à totalidade das suas peças, para além de um pequena carga de ansiedade até se iniciar a sua audição integral, acrescenta ainda a esse processo um factor que pode ter dois efeitos distintos, na forma em que ela poderá ser influenciada.

O contacto com “The Blackest Purse” provocou a projecção do corpo; estilhaçado; em voo; sacudido pelo sopro da explosão.
Assim que “Eskimo Snow” sinalizou a sua disponibilidade, apenas havia que responder com a minha, em sede própria.

Que motivação poderá haver para se fugir tanto às raízes? Provavelmente, para além da nascente, existem outras ‘músicas’: percursos: que admiram. Outra razão poderá ser a vontade de mostrar que este género não é uma expressão musical menos valiosa que outras.

Então?! E porquê um resultado tão afastado do ponto de partida? Para nos convencer. A estrutura guitarra/bateria/baixo; os dedilhados; vozes encantatórias: são tudo truques para seduzir os mais cépticos.

Num lugar de eleição, a agulha digital admitiu a ignição e, os momentos posteriores e tantos outros que se seguiram não encontraram o ponto de fuga, a uma espiral de repetição que não queriam abandonar.

Vamos então por partes:

A introdução com “These Hands” que estremeceu com os seus “jogos triplos” de harmonias vocais: tracejadas por percussão longínqua e teclas omnipresentes, em crescendo até ao apaziguamento de:

“January Twenty Something” harmonias vocais 70’s a conviver com texturas electrónicas 00’s, resultam em dois minutos e meio de intemporalidade.
Boris Vian no “Arranca Corações” inventava meses: delirava com dias, esta data tudo permite.

Numa composição brilhante como “Against me”, exacerbam talento - sim estamos a falar de Why? - numa canção extraordinária, em que o factor surpresa é levado ao extremo: uma capacidade pura e simplesmente completa.
As texturas que atravessam o tema são travadas pelas membranas como única fonte de defesa, reinventam a química das operações que surgem na sequência da auscultação: rendida, onde se pensava o domino do experimentalismo.

Mas fará sentido um corte tão radical com as origens?; Não há corte radical: a forma como é dita a mensagem através da voz é a mesma, a entoação de certas sílabas é parecida, os arranjos minimais são uma característica que se mantém. Enfim, as pistas estão lá para quem as quiser perceber.

Porquê a insistência nesta luta por conquistar novos ouvidos com tantos álbuns já editados?; Porque ainda não pararam de crescer. Porque melhoram a cada álbum que passa. Porque surge sempre um cume mais alto depois de cada montanha que atravessam.

A espiral de voz com teclas e cordas aumenta ainda esse nível de surpreender, dignos de franco-atiradores quase perturbantes, a execução instrumental, proveniente de uma maturidade directamente proporcional ao rasgo, fazem de “Even The Good Wood Gone” um setentrião de sete estrelas num mar de seis.

Quando se procura refúgio para um primeiro balanço, que não passa de um mero argumento para uma tentativa de descanso, ecoa numa réplica de posteridade, a canção teimosa: não desiste de nos aprisionar, surpreendendo, sem misericórdia, até à rendição de duas questões: onde moram os armistícios? Quando surge “The Blackest Purse”?

“Into The Shadows Of My Embrace”, é avassalador, começo num pop 60’s desacarado, baixo senhor de um ritmo narcótico, vozes decalcadas não sabemos de onde, mas irrequietas: “está mesmo debaixo da língua”, levam uma volta completa, dão a partida em crescendo, para os solavancos que o percurso pelos socalcos emocionais, gerados pela depuração, em que os aditivos vêm em mudanças estonteantes, letras abismais, vozes que agora voam estagnadas.
As guitarras alucinam: donde vem inspiração deste calibre?
O final do tema? Um último minuto como se desgraçadamente fosse de facto o derradeiro.

A voz quente e a brisa da guitarra acústica, com percussões mínimais dão-nos mais uma vez a volta: completa! Sacanas!
“One Rose” - a thousand drops of blood!
Sim, há uma desconstrução absoluta: a perplexidade perante o que dão a ouvir, reserva o seu posto numa qualquer primeira fila.

Do lado oposto da ponte “On Rose Walk, Insomniac” faz-nos repetir a pergunta do final de cada música: o que é isto, uma viagem?
É impossível encostar o corpo ou o que dele sobra, num espaço confinado ao rodopiar de 120 segundos de foco ilimitado.

“Berkley By Heraseback”! Sublime! Os Why? São culpados da acusação de fornecer falta de descanso a rodos: esta canção, se não esboçarmos resistência, é ouvida incessantemente, até muito perto da insanidade: só porque quase não se acredita que possa existir um disco assim, parecido com ele próprio: abundância de pormenores num oceano de recursos ilimitados.

Eis!
“The Blackest Purse”!
Afinal pertence ao álbum! A desconfiança aprestava-se para reinar!
Como falar sobre ele agora?
Que critério seguir?
Considero-me como que abençoado pelo que puder escutar até hoje: uma canção assim tem lugar cativo na galeria das inesquecíveis.
Quanto mais se ouve, mais se sente, mais se descobrem detalhes que desafiam todas as probabilidades: agarramo-la como caçadores furtivos e, quando se abrem as mãos: nada!
Emoções em contenção que nunca explodem, relembram tempos em que se lia sobre “pedras que escapam entre os dedos”, aqui eles – não digam a ninguém - não existem.
Onde se poderá assistir a isto? Em que concerto?
Estive trinta e duas horas e meia a sonhar com a possibilidade de escrever a gritar: canção inacreditável!
E o piano a chapinhar com os pés no que resta do brilho de uns olhos deserdados?
Instrumentos a surpreenderem-se na tensão da doçura impossível.
Uma canção que se ama.
Mais que harmonias: arte de ordenar sons em desconstrução: desintegrante!
A “inexplicação” de se sentir música.

Porquê a caixa de música quase sempre presente - que não me deixa apagar a imagem da bailarina de perna levantada em piruetas intermináveis sempre que ouço o álbum?; Para nos mostrar que atrás da capa que nos faz parecer exigentes e críticos, há sempre um valente lamechas que se deixa sensibilizar por uma merda qualquer: como uma caixa de música: ou uma música que não se deixa aprisionar numa caixa.

E para o final ainda o título-tema!
“Eskimo Snow”, onde a neve faz ferver lava.
Não acreditam? Então vejam o que está entre a voz; as cordas e as teclas.
Espreitaram?
Dá vontade de berrar, certo?

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