25 setembro 2009

O fundo da rua visto daqui de cima


- foi praticamente impossível perceber-te: quando soletraste o choro; tracejaste a voz. neste momento leio-te: a amputação do som não desenha a escuta, vacila o corpo: as lágrimas fizeram dos teatros da inquietação, colapsos interiores.
escreveste, que a música que não cessas de escutar; vinda do fumo que te envolve; nas viagens em que te levas; até lá; à perda, foi sequestrada.
e adicionaste a tudo isto o que te vejo a dizer: no máximo grau da perceptibilidade: sublinho:
- “é incrível como as mensagens se desfazem antes de emitirem para um destinatário perdido na hora nova, passeando pela casa, a acomodar sóis adormecidos: submersos, nos canais escritos.
a dimensão em que o tempo se encontra, o tempo em que eles estão, são mistérios fabulosos;
o que são as horas?”
- ignoro – solto interrompendo a leitura destas palavras tão próximas.
- “o que é tempo?
o que fazemos nele e dele?
o que manda e o que conseguimos mandar
o tudo e o nada
o presente e o ausente que encerra. ele.
o presente o passado e o futuro que se tornam tão o mesmo
- e junta e justamente, a nosso respeito, são círculos que tocam em pontos - aventuras de um mundo - que nem percepcionássemos.”
- (o nó da garganta aperta a leitura que esbraceja e se alavanca, consumindo o silêncio)
- “será que o que medimos, aprisionámos é que é o verdadeiro tempo?
a hora será emitida na figura em fuga: mera pró-forma de um incêndio não noticiado?
ela não agarra o que se julga,
quando penso em ti uma hora, sinto uma vida
quando passo contigo uma hora, sinto mais que uma vida e sinto um descendente de um centésimo de um segundo!
quando escrevo demoro uma hora mas atravesso todas as tuas e pairo sobre as minhas e sinto as nossas, as que são e as que ainda não o são.
- não consigo eleger um murmúrio: elevar um grito a pensamento. leio. ainda? desconheço como. agora percebo o que significa instinto.
- “o grau de transparência e leveza que atinjo com a tua permanência não assume descrição, é o meu próximo desafio interno.
como sou, como fico, o que estou, com aquilo que tu és, tu, e para mim e de mim.
não passam de interrogações que içam outras:
se tu morresses?
o temor| o horror |a perda| outra| a outra| a| bater no fundo que ainda vão catalogar| a falta e/ou a ausência impossível: de suportar; por não querer, não poder ser, a recusa total|loucura? talvez, certamente.| se encontrar-te , conhecer-te foi fazê-lo a mim/comigo mesmo, ser eu; se morresses, morria eu”
- assusto-me com o brilho deste dia a por em relevo sardas por baixo do que é a acção que te permite ver – brilhante - deve estar imperdível.
- “queria tratar-te essa dor, com festas e calor sobre ela, abrindo caminho ao copo de leite numa temperatura perfeita, para que o desconforto se retirasse em vénia, para o repouso pausado de um beijo retemperador, em extermínio pleno à desgarrada. desfez-se, o desagrado?”
- (os sorrisos retiram-se e dão lugar ao riso)
- “estás a rir-te com o que escrevi, não é?”
- filho da puta. como adivinhaste?
- “achas que te passava nem que fosse um bocadinho? que passava nem que fosse um só segundo dos reais, dos métricos e, uma infinidade deles, dos nossos?
nas viagens fascinam-nos os destinos:
impelem-nos o desejo de o fazermos.
sabes, és o ponto de partida deles,
que o dia voe para ti, na leveza de seres que é muito diferente de estares – são tão pobres os ingleses, que assumem o “be” como estado igual de algo tão díspar.”
- ensaio o diálogo: há que lhe chame alucinação (porque não virás ver o fundo da rua aqui de cima?)
- eu estou bem por aqui.
um dia se achar importante, vou.
está bem?
- podia dizer-te como queiras – mas preferia ter-te aqui comigo.
deixas-me dar-te a mão, neste final da noite dos teus dias?
- então?
porquê esse olhar tão assustado?
- não optei por aqui ficar.
- foi difícil – duro mesmo – deslocar-me até estas proximidades.
no entanto muito fácil entrar.
a inclinação era acentuada.
as forças diminutas.
tanta rejeição também foi ajuda.
- não acredito!
- porque sorriste?
porque me interrompeste?
não tinha lançado as respostas todas.
- Só não obtive uma.
o sorriso foi apenas um cocktail de incredulidade e carinho.
doçura se assim o quiseres.
sempre me dás a mão?
- isso pede-se?
agarra-se; depois as consequências assumem-se.
com medo estava antes de deslizar para aqui.
agora lido bem com os que me levaram a esta travessia.
não estou num porto de abrigo, nem numa pausa da viagem.
é o término.
a luminosidade a que te referes é somente do contraste do negro circundante.
- então pões a mão em fuga?
assim não vale.
vê; apanhei-a.
surpreso com a rapidez?
-talvez com a minha lentidão.
a tua vontade foi expressa e o movimento mais brusco ainda.
- não precisas de ter receio.
esse tremor não se justifica.
a protecção atemoriza-te assim tanto?
- ou a falta dela. e se for posse?
- como desejava não teres sido atropelado por essas sensações.
também já fui.
nem imaginas o quanto.
mas ergo-me por te olhar.
és tão simples.
- é-me inerente.
preencho-me quando me vejo assim.
por vezes não me é suficiente. só busco esse estado de simplicidade.
também um certo de grau de transparência.
- eu sei.
com o que agarras o movimento dos universos?
- porque queres saber?
- perguntei primeiro!
- mas se queres saber: porque gosto de ti.
com os sons que me fazem chorar e também com os que tornam essas mesmas lágrimas enxutas.
com as imagens de ramos de árvores nus – fim do preto no inicio do branco.
sonhos.
com gente que absorve a vida dos outros.
totalmente.
e ainda consegue moldá-la.
- actores?
- E escritores, músicos, pais e professores.
- e tu?
- farto-me de falar comigo, sim.
- não queres abrir-te?
- já o estou a fazer; por esta orla, caminho.
mais além podem surgir aqueles que conhecendo-nos, se vão aproveitar para nos dominar, prejudicar. os egoístas.
- e os que amam?
- não sei onde navegam.
os que assim se dizem, não o fazem.
- meu Deus.
- crês?
- sim, mas essencialmente no que representa Jesus Cristo. tu?
- nada.
cristo foi um político com o dom de não chegar ao poder: provavelmente tudo foi calculado.
- mas o recorrer à divindade foi para exclamar: perante o que disseste.
sabes: é bom estar de mão dada contigo; não queres arejar esse espaço cerrado?
iluminar o chão que pisas?
aquecer-te?
- fazes muitas perguntas.
- como conversas sem elas?
o que são para ti?
- mais um componente da resposta à tua questão dos universos em movimento.
também gosto muito de ti.
o problema é o meio da manhã dos meus dias – os nossos, sim.
a génese do que não és.
destruição onde tinha de estar o usufruto do que se sonha.
braços afastados.
olhos fugidios em desalinhamento cruel.
eles: a jorrarem porquês.
- e nós a deixarmos de o ser.