18 outubro 2009

Anos 00: balanço - 2001

Spiritualized - “Let It Come Down”

Num ano de vários regressos aguardados com elevada expectativa, 2001 revela-se discreto e sem o fulgor do ano transacto. Por entre necessárias continuidades de “Desert’s Songs” e “Come On Die Young”, o destaque chega dos Spirtitualized e a surpresa dos Divine Comedy.

Decididamente, não é um ano que inspire muitas memórias. A soma de álbuns de efectivo valor é pouco considerável. Por outro lado, é repleto de desilusões.

Gente diversa, muita dela de quem se esperava que garantisse um ano grande – ou, pelo menos bom -, foram decepcionantes.

Só para citar alguns desses exemplos: os Pulp não conseguiram dar o justo seguimento a “Different Class”s e “This Is Hardcore”, lançam o desinteressante “We Love Life”; os Tindesticks continuam a travessia no deserto iniciada com “Simple Plesure”, “Can Our Love…” não é mais do que a imagem pálida de um conjunto que foi capaz das proezas mais surpreendentes – apesar de (poucos) temas que permanecem importantes na sua história, como “Dying Slowly “ou “No Man in the World”, terem nascido deste registo; finalmente os Lamb: depois de dois excelentes discos, não conseguiram melhor que “What Sound”.

Spain despedem-se com “I Believe”. Álbum correcto mas afastado do fulgor de outros tempos. Ouve-se falar numa reunião consumada em 2007 e novo trabalho quase a sair. Aguardemos então.

Mas não só de más notícias se fez o ano. Os texanos Shearwater estreiam-se em estilo com “The Dissolving Room”. Nascem como projecto paralelo de Okkervil River.

Low (“Things We Lost in Fire”), Arab Strap (“The Red Thread”), Czars (“The Ugly People vs. The Beautiful People”), Mark Lanegan (“Field Songs”), Anja Garbarek (“Smiling & Waving”), Madrugada (“The Nightly Desease”), Explosions in the Sky (“Those Who Tell the Truth Shall Die, Those Who Tell the Truth Shall Live Forever”) e Destroyer (“Streethawk: a Seduction”) conseguem, todos eles, trabalhos bastante apreciáveis.

Os Radiohead, contagiados pelo êxito de vendas de “Kid A” e ainda a aproveitar a motivação causada pelo reconhecimento de “OK Computer”, lançam o que não coube na criação do ano transacto. Contudo, “Amnesiac”, que paga o facto de ter ido a uma nascente anteriormente aproveitada, ressente-se na qualidade. Conseguem um ano positivo, apesar de tudo. Devido, também, à edição de um álbum ao vivo que retrata a digressão de promoção dos dois últimos trabalhos.

“Virgin Suicides” tinha-se revelado como uma sequência agradável de “Moon Safari” em 2000. No entanto, um disco novo, fora do contexto de banda sonora, faz os Air cair consideravelmente. “10.000 Hz Legend” ficou bastante abaixo das expectativas.

Kristin Hersh, já distante da fase dourada das Throwing Muses e do pico criativo a solo de “Hips and Makers”, edita o bastante agradável “Sunny Border Blue”.

Divine Comedy apresentam-se verdadeiramente alterados. Não propriamente regenerados, já que apesar da mudança de rumo, não foram capazes de manter o nível de “Fin de Siécle”. Mas “Regenaration” é a metamorfose necessária, o rejuvenescimento que se impunha num modelo que ameaçava esgotar-se.

Ed Harcourt apresenta-se com o promissor “Here Be Monsters”. Zita Swoon, apesar de não compensar devidamente o álbum anterior, revela o gracioso “Life = A Sexy Sanctuary”. Kings of Convenience, depois de estreia discreta e quase sem registo, surgem com “Quiet Is the New Loud” que os faz subir bons degraus.

Clinic editam o seu segundo registo em dois anos e aproveitam a pujança revelada antes: “Walking With Thee”. Não se descompõem mas também não engrandecem.

O ingleses Bows projectam o último trabalho da sua curta carreira: o recomendável “Cassidy”.

“Poses” é a consagração de Rufus Wainright. Trabalho superiormente elaborado valendo-lhe o reconhecimento à segunda tentativa.

Bill Callahan continua sem vontade de abrandar: coloca parênteses a flanquear o nome do seu projecto - Smog - e edita “Rain on Lens”. Eleva a regularidade das suas criações para 9 em 11 anos.

Mais difícil é a tarefa de Mogawi e Mercury Rev. Dar a devida continuidade a “Come On Die Young” e “Desert's Song”, respectivamente, não é um desafio que se possa pedir a qualquer um. É certo que tanto “Rock Action” como “All Is Dream” não atingem a dimensão de antes, mas também não se afastam o suficiente para merecer indiferença.

A meio do trajecto até ao topo desta classificação surge Gorillaz. A primeira banda virtual sobressalta o mundo apresentando 2D, Murdoc, Noodle e Russel. É o início de uma empolgante emancipação de Damon Albran fora dos Blur.

Depois de variadas colaborações de alto nível e oito anos após estreia a solo, Anita Lane edita “Sex O’Clock” e mantém em bom patamar a carreira em nome próprio iniciada com “Dirty Pearl”.

Por cá, os Mão Morta chegam ao nono capítulo: “Primavera de Destroços” é o responsável por títulos como “Cão de Morte” ou “Tu Disseste” que fazem avolumar o seu já admirável historial.

Elbow estreia-se de forma arrasadora com “Asleep in the Back” e desassossegam a crítica. Assim como “The Shins” com “Oh, Inverted World”. Apesar de existir um registo anterior sob a designação de Flake Music, é em 2001 que lançam o primeiro LP com o nome que mantêm até hoje.

Neste percurso de qualidade crescente, chegamos ao momento de duas referências salientes: Appliance mostra um excelente Imperial “Metric” e Björk consegue a aprovação unânime, como habitualmente, com “Vespertine”.

Muse, à segunda aparição, espetam com “Origins of Symetry” e escancaram toda a sua enorme competência. Esgotando-a, mesmo. Mas isso é conversa para mais lá para a frente.

Arrebatadora foi a estreia de Black Rebel Motorcycle Club com o seu álbum homónimo. A rebeldia em contexto garage rock começa a ressair. E explode mesmo 4 meses depois com “Is This It” dos Strokes. Registo que viria a ter papel preponderante na década, tal como se sabe. Irá ser lembrado aqui lá mais para a frente. Ainda, para reforçar uma tendência que começava a destacar-se, os White Stripes lançam “White Blood Cells”, aproveitando a ocasião para superar com mestria a divulgação de um terceiro e sempre decisivo disco.

Eels tentam, com êxito, surpreender: o som límpido e cristalino próprio de passado recente, transforma-se num álbum rock repleto de guitarras e distorção. Para isso, John Parish e Koool G. Murder são convocados para “Souljacker”.

Anywhen, de quem pouco se sabe, exibem o magnífico “The Opiates”.

De França, arrebatam os Gotan Project. Tango misturado com electrónica resulta, num primeiro ensaio, no apreciado “La Revancha Del Tango”.

Sparklehorse faz a sua primeira obra-prima: “It’s a Wonderful Life” exibe um imenso Mark Linkous, iniciando a cisma de chamar gente grande para o ajudar. Neste teve como colaboradores nomes do calibre de Tom Waits, Vic Chesnutt, Dave Fridman, P.J. Harvey e John Parish.

Nick Cave começa uma nova era: mais intimista e dando protagonismo destacado ao piano em detrimento das guitarras. “No More Shall We Part” abre espaço para a total exposição da magnífica qualidade de composição de Cave. No fundo, trata-se de uma mudança de rumo que “Boatman’s Call” e mesmo “Murder Ballads” já ameaçavam.

Chegados aos 3 primeiros na classificação, a partir do último lugar do pódio:

Zero 7 e o magnificamente belo “Simple Things”. O trip-hop, que parecia moribundo (Portishead viviam escondidos há anos, Morcheeba já longe de cativar, Massive Attack em silêncio desde 98), renasce pela mão de dois engenheiros de som, Henry Binns e Sam Hardaker, que convidam um excelente naipe de ilustres desconhecidos para dar forma às suas concepções.

Imediatamente antes do grande eleito, Red House Painters. Vítimas de negócios entre editoras, só conseguem lançar “Old Ramon” três anos depois do previsto. Felizmente é editado e abre assim a oportunidade de conhecer toda a sua excelência. Cumprido o objectivo da devida divulgação da obra que quase se perdeu, a banda pôde acabar em paz neste mesmo ano de 2001

Para maior destaque, reservo Spiritualized. É certo que não pode ser considerado ao nível de “Ladies and Gentleman We Are Floating in Space”, sem discussão a esse respeito. Mas, inesperadamente, o ambiente space-rock com guitarras repletas de efeitos perde relevância face às orquestrações. Com isto, aproveitando o momento de grande inspiração que vive desde o álbum anterior, Pierce ganha mais destaque e versatilidade de arranjos para as suas sublimes composições, antes frequentemente encobertas pela electricidade. Toda a concepção deste trabalho tem, como princípio fundamental, a pretensão de encontrar a perfeição. Quando esta arrogância atinge gente desta, o resultado arrisca-se a ser próximo de um “Let It Come Down”.


Ver também:
Anos 00: balanço - Introdução; 2000

2 comentários:

telheiro disse...

Muito bem esmiúçado o ano de 2001mas... mas desta vez não tenho nada a acrescentar, pelo menos não estou a ver nada que esteja em falta.
Pessoalmente, os três primeiros não seriam esses mas antes: 1) Bjork; 2) Strokes; 3) Eels e menções muito honrosas para Muse, Zero 7, Spiritualized, Gotan Project e Zita Swoon...
Abraço

Joao disse...

Pois não tens [nada a acrescentar]. Até pus alguns só para evitar que viesses para aqui resmungar.

Estou na tanga, foram todos escolhidos sem pressões externas.

Por acaso até falta: Migala, Arde. Mais uma vez fui avisado com a devida antecedência e depois escapou-me.

Mas carago! Se não é por me esquecer de alguns é pelo raio da ordem! :)

Obrigado pelo comentário. :)

Abraço