26 outubro 2009

Anos 00: balanço - 2002

Interpol - "Turn on the Bright Lights"

O ano é marcado pelo aparecimento de uma banda que viria a condicionar a década: Interpol. Enquanto isso, Lambchop vai mostrando como se fazem grandes projectos e Woven Hand revela-se como a última invenção certeira de gente experiente. Já agora, Joanna Newsom e Decemberists acabam de chegar.

Tradicionalmente, é nas ilhas britânicas e nos Estados Unidos que nasce a quase totalidade dos discos aqui retratados. Beneficiam da sua língua oficial – a mais comum na cultura ocidental – e da proximidade física ao poder da indústria discográfica, tirando proveito ainda da centralização da imprensa de referência na área que lhes facilita a promoção.

Num momento de globalização crescente, naturalmente vão surgindo obras de interesse fora das fronteiras destes dois gigantes da música pop ocidental. Lembro mesmo os anos 70 e o contributo alemão para na evolução do rock progressivo. Não é, portanto, de hoje que o mercado internacional absorve matéria de países improváveis.

Estes outsiders vão sendo vulgares mas de influência efémera no panorama global. Por dificuldades várias, não vão tendo continuidade. Refiro-me aos que procuram um som reconhecível e atractivo ao público mais ligado à cultura, que aqui se vai falando e, seleccionando dela os subjectivamente melhores. Os outros, os que admiravelmente vão insistindo nas suas raízes procurando provar que não necessitam de ajudas imperialistas, são relegados imediatamente para a família dos “etnográficos”. É – e foi – possível encontrar quem tentasse ligar os dois: já neste século temos o exemplo dos Gotan Project, mas poderia referir-se os Dead Can Dance para demonstrar que não se trata de uma atitude propriamente nova.

Indiferente a estas especificidades, o tempo não pára e mais um ano nasce. Agora estamos em 2002, no período, em que cá, nos equipámos de máquinas calculadoras para evitar que nos passem (ainda mais) a perna na conversão do Escudo para o Euro.

Proponho, desta vez, uma viagem com início nos Estados Unidos. E logo saltam à vista duas cidades que marcam o ano:

Primeiro, Nova Iorque. Presenteia-nos com trabalhos de nomes já feitos: Sonic Youth lança “Murray Street” e apresenta o quinto elemento da banda: Jim O’Rourke; Jon Spencer Blues Explosion edita “Plastic Fang” no rescaldo de “ACME”; a afirmação dos Radio 4 com “Gotham”; e o segundo trabalho de Nina Nastasia: “The Blackened Air”. Mas foi nas novidades que a Big Apple arrasou: The Walkmen com “Everyone Who Pretended to Like Me Is Gone”, não sendo toda a banda de Nova Iorque, existem ligações de alguns membros; e, sobretudo, Interpol que atirou, de forma determinante para o resto da década, reminiscências invariavelmente deliciosas, ansiosas por serem exploradas. “Turn on the Bright Lights”consegue ser, porventura, o melhor álbum do ano. Também da mesma cidade aparecia muito discretamente e sem ninguém dar por isso uns tais de TV on the Radio (“OK Calculator”).

Depois, Austin, no Texas. Os Okervil River editam, ao fim de quatro anos, o seu primeiro álbum logo em Janeiro: “Don't Fall in Love With Everyone You See”; Com Jonathan Meibrug como denominador comum com a referência anterior, os Shearwater lançam o seu segundo registo em Outubro: “Everybody Makes Mistakes”; “Source Tags & Codes”, terceiro disco dos … And You Will Know Us the Trail of the Dead, arrasa a crítica e tornam-se nos grandes representantes locais juntamente com Spoon, que apresentam “Kill the Moonlight”; ainda sem sair de Austin, registo para a estreia de Iron & Wine: “The Creek Drank the Cradle”.

Mas os Estados Unidos não são duas cidades. Para além de todo o contributo já relembrado, os Woven Hand estreiam-se. A voz de 16 Horsepower, David Eugene Edwards, aventura-se num projecto paralelo e assina um álbum que entra sem dificuldade no top 5 dos melhores do ano. O trabalho não tem título (ou “Woven Hand”, se preferirem) e o resultado é verdadeiramente assombroso. Para os mais cépticos, uma sugestão: faixa 9, “Your Russia”.

Os Low voltam à carga um ano depois com “Trust”; Beck traz “Sea Change” reinventando-se com mestria; os Wilco regressam da parceria com Billy Bragg e respondem ao aclamado “Summerteeth” com “Yankee Hotel Foxtrot”; Twinemen mostra-se na tentativa de continuar a vida pós-Morphine, mas a estreia não convenceu, seguindo relegados para uma carreira sem visibilidade; os Flaming Lips lançam o sucessor de “Soft Bulletin”: “Yoshimi Battles the Pink Robots”; Josh Rouse apresenta um regular 4º registo, “Under cold blue stars”; Mountain Goats estreiam-se pela editora 4AD revelando o bastante apreciável “Tallahassee”.

Ainda livre de contrato com editora, Joanna Newsom grava o segundo LP de edição própria: “Walnut Whales”.

Quatro referências ainda, antes de deixar os Estados Unidos:

Os Queens of the Stone Age mantêm a colaboração de Mark Lanegan e chamam Dave Grohl para apresentar o poderoso “Songs for the Deaf”.

A estreia de Decemberists: “Castaways and Cutouts” não é uma obra-prima mas é suficiente para denunciar todo o potencial que ali espreita; Tom Waits que, ao assinalar 30 anos de carreira, lança em dose dupla: “Alice” e “Blood Money”; Finalmente Lambchop. Se “Nixon” foi a voz a berrar por ‘presente’, “Is a Woman” é o atestado de competência que os acomoda na vitrina dos melhores, tal como merecem. De caras um dos melhores discos do ano.

Ainda no mesmo continente, o Canadá, um país de relevância crescente no panorama musical: 2002 deu-nos “This Night” dos Destroyer, “Yanqui U.X.O.” dos Godspeed You! Black Emperor e “You Forgot It in People” dos Broken Social Scene.

Hora de saltar para o outro lado do Atlântico.

Aterrando na Inglaterra, verifica-se que a sua contribuição foi, como previsível, fundamental. Os Portishead - ou parte deles - davam notícias. Beth Gibbons e o baixista dos Talk Talk com o novo nome de Rustin Man lançam “Out of Season”; “You All Look the Same to Me”, terceiro álbum dos Archive, reforça um currículo que já pedia mais atenção; Piano Magic apresentam o seu segundo disco pela editora já atrás referida 4AD (sexto contando com a fase anterior à 4AD): “Writers Without Homes”. Lamentavelmente, voltam a não conseguir o reconhecimento que haviam ganho antes da mudança; John Parish faz a sua segunda tentativa a solo: “How Animals Move”; Gomez iniciam uma curva que os faz descer a pique com “In Our Gun”; Os veteranos Billy Bragg, David Bowie e Barry Adamson apresentam, respectivamente, “England, Half English”, “Heathen” e “King of Nothing Hill”.

Os Doves, de quem se esperava muito depois de “Lost Souls”, editam “The Last Broadcast”. Apesar da qualidade evidenciada, este trabalho não evita um passo atrás na ainda curta carreira deste grupo de Manchester.

“Every Day” é a consagração dos Cinematic Orchestra. Depois de estreia discreta, um álbum que faz jus às intenções expressas pela banda em “Motion”, de 99; Peter Murphy lança o surpreendente “Dust”. O risco de convidar músicos árabes funcionou na perfeição. Assinou o melhor trabalho, talvez, desde “Love Hysteria”; De Nothingam, os Six by Seven chegam ao terceiro capítulo. “The Way I Fell Today” não é o seguimento justo do grande “The Closer You Get”, lançado 2 anos antes (indesculpavelmente, este álbum não é referido na retrospectiva de 2000).

Badly Drawn Boy desfruta do sucesso que nasceu no mesmo instante da sua estreia no ano anterior. Edita uma banda sonora (“About a Boy”) e um novo de originais (“Have You Fed the Fish?”).

Na vizinha Irlanda, dois registos apenas:

God Is an Astronaut, “The End of the Beginning”, e Damien Rice, “0”, lançam os seus primeiros álbuns.

No resto da Europa os tais nomes avulsos:

De Espanha os Migala. Depois de “Arde”, os “Restos de un Incendio”. Não surpreenderam desta vez. Mas fica aqui o merecido registo.

Da Alemanha, a crítica lembra-se dos Notwist e consagra-os ao 5º álbum: “Neon Golden”.

Da Noruega regressam os Madrugada. Depois de “The Nighly Disease” de 2001, surge o muito agradável “Grit”.

Finalmente a Islândia, onde o cenário começa a ser um caso diferente dos restantes europeus excluindo o Reino Unido. Depois de muitos anos a massajar o ego à custa do êxito de Björk, surgiam neste país os Sigúr Rós por volta de 2000, qual iceberg, a denunciar que há muito mais do que se imaginava. Procurando usar a banda de Reiquiavique para iniciar uma moda, a editora Fat Cat, que já havia sido responsável pela exportação de “Ágaetis Byrjun”, apresenta “Finally We Are No One” dos Múm. Os próprios Sigur Rós editam o impronunciável “( )”. Não desilude, o que à partida só por si parece facto inacreditável dada a radical qualidade do álbum anterior, mas também volta a surpreender. Resposta ao mais alto nível a uma prova de fogo de dimensão transcendente. Na altura podia pensar-se que este país estaria a iniciar um fenómeno parecido com o da Bélgica na segunda metade de 90, catapultado pelos dEUS. Mas, apesar da insistência ainda distante do fim, isso não viria a verificar-se.

Outros países, que habitualmente nos oferecem registos dignos de distinção, como a Austrália, o Brasil ou o Japão, este ano não apareceram.
Ver também:
Anos 00: balanço - Introdução; 2000; 2001

4 comentários:

telheiro disse...

Mais um vez na mouche!
No ano capicua desta década escolho como melhores álbums o dos Flaming Lips e dos Sigur Ros - não sei qual o melhor - mas acho que o dos Interpol também é muito bem escolhido.

Abraço!

PS: Piano Magic e Patrick Watson por 20 euros!!! Uma excelente prenda de Natal antecipada...

Joao disse...

Já ouviste o Ovations?

Abraço

1entre1000's disse...

MUITO BEM!!!

Joao disse...

1entre1000's,

Obrigado :)