04 outubro 2009

Anos 00: balanço - Introdução

Os anos 00 – primeiro decénio do novo milénio – estão a poucos meses de findar. Impõe-se portanto um balanço musical da década.

Seria no entanto interessante nesta primeira abordagem recuar uns anos, aos já distantes 90.

Se 60 teve a revolução hippie, 70 a revolução punk e 80 a explosão criativa decorrente das transformações anteriores testando-se todos os limites admissíveis e inadmissíveis, 90 é a década da apropriação ponderada de tudo isto.

Os anos noventa foram os da resignação, da domesticação das massas. Os aspectos mais radicais próprios das juventudes deixaram de ser desaprovados para serem aceites pacificamente. Em troca exigia-se obediência às regras que as marcas ditavam. A sociedade passou a ter lugar para todos, sendo que todos formavam o mercado. O CD substitui definitivamente (pensava-se na altura) o vinil: a opção pela comodidade prevaleceu sobre a qualidade. Ou terá sido outra obediência?

E com isto a Música ressentiu-se: a imagem associada à música através dos videoclips banalizou-se; os mega-concertos com produções grandiosas passaram a ser frequentes; a tecnologia em crescimento galopante implantava-se também na indústria discográfica ultrapassando, muitas vezes, a composição, técnica ou qualidade da escrita; a figura de produtor deixa de ser ofício para se transformar numa arte. Ao mesmo tempo procurava-se o equilíbrio entre todo o radicalismo de décadas passadas. Quem ganharia com isto? Quem exige a obediência, claro está.

Neste cenário as revoluções deixam de ter espaço. Apenas correntes esporádicas como o grunge deram o ar da sua graça. Claro, sem colocar muitas questões ou ameaças que não pudessem ser controladas.

Era neste cenário que os vários projectos musicais seguiam a sua vida.

Os que sobreviviam da piela de 80 assumiam-se previsivelmente como os detentores em actividade da experiência e referências em potência para a década que evoluía: Sonic Youth, R.E.M., Nick Cave, Cure (todos com trabalhos excelentes na década passada). Mas também nomes anterirores, como Nick Drake ou Scott Walker, passam a ser mais vezes identificados como influências de novas bandas: Belle & Sebastian, Divine Comedy, Tindersticks, Walkabouts, Lambchop.

A pop comercial britânica bebia muito de Manchester de finais de 80 (Stone Roses, Happy Mondays, House of Love), destancando-se Oasis, Blur, Radiohead ou James. A americana, por Smashing Pumpkins, Nirvana, Pearl Jam, dava o normal seguimento às ideias de Sonic Youth ou Pixies.

O shoegazing afirmava-se e implementava-se definitivamente. Jesus and the Mary Chain, Spacemen 3 ou Galaxie 500 multiplicavam-se em Spiritualized (renascidos dos Spacemen 3) Lush, Slowdive, Luna (Galaxie 500), Ride ou Mogwai; o trip-hop nascia e apresentava representantes que consquistavam público pouco dado, de início, a estas tendências (Portishead, Tricky, Morcheeba, Massive Attack); fora dos tradicionais circuitos anglo-americanos, brotavam bandas como dEUS (Bélgica), Björk das cinzas dos Sugarcubes (Islândia) ou Air e Kid Loco (França).

Mercury Rev, Morphine, Smog, Gomez, Spain, Eels, Flaming Lips ou Calexico eram outros nomes que viriam a ser importantes para os anos seguintes. Irão ser retratados convenientemente em próximos textos. No entanto, todos eles com obra marcante durante os anos 90.

No que toca ao sistema que sustenta o negócio, aí as transformações foram mais radicais.

Os principais divulgadores de projectos musicais alternativos, as rádios, são entregues ao total domínio das editoras. Mais do que nunca, a promoção passa a ser negociada por grandes empresas que, entre elas, definem o que devemos ouvir segundo critérios comerciais.

Esta limitação na difusão de projectos desapegados destes interesses só é quebrada com a popularização da Internet e o livre acesso à música através dos downloads e de plataformas revolucionárias como o myspace ou o youtube.

Ironicamente, esta evolução ameaça a monopolização das editoras que logo reagiram hipocritamente, diga-se, em nome dos artistas denunciando a apropriação ilegal da sua (deles) arte. O que estava na realidade em causa era o comércio da venda de discos que, como se sabe, gera receitas quase exclusivas para as empresas que os representam.

Hoje, estas companhias vivem em estado de agonia. Não mostram capacidade de adaptação, insistindo numa luta sem hipótese de vitória.

A Internet representa assim um importante progresso na democratização desta arte, e todos, forçosamente, terão de aprender a conviver com ela.

Mais coisa menos coisa, é neste contexto que iniciamos e vivemos os anos 00: a década dos álbuns virtuais; do MP3; da enxurrada de festivais (no caso português, lá fora vem de antes); do myspace, da globalização, do livre acesso e divulgação. De forma imprevisível, estão criadas as condições para que definitivamente seja o público a escolher quem merece o sucesso disputado, cada vez mais, em igualdade de circunstâncias para todos. Naturalmente que a recompensa para quem cria boa música nunca estará em causa: sem falsos moralismos, é nas apresentações ao vivo, tanto hoje como no passado, que se paga o valor das bandas.

Haverá forma mais eficaz e leal para conquistar público do que a Internet?

Será que esta década de especificidades inovadoras foi relevante no campo da nova música popular? Terão sido lançadas as pistas necessárias para fazer antever um futuro risonho? Ou, dada a eventual escassez, será necessária nova reviravolta? É a estas questões que se pretenderá responder em jeito de balanço em capítulos seguintes.

2 comentários:

Pedro Russo disse...

Escrita com rigor, criatividade e elevação é a impressão que fica quando se mergulha pela primeira vez no mar superior...

Apontando directamente à retrospectiva agora iniciada, resta desejar que surjam, tão breve quanto possível, novas "ondas", novas "marés".

Joao disse...

Grande sócio! Obrigado pelo ilustre e revigorante comentário :)