06 outubro 2009

Miguel Esteves Cardoso - Lorelei - 3

"Via-a sempre de longe. Nos meses em que eu não estava e nas cidades onde eu não vivi, diziam-me que a tinham visto. Viam-na os olhos dos homens que voltavam não sabiam de onde. Viam-na no efeito da música. Viam-na fechada dentro das mãos de doentes. E viam-na em janelas altas, junto às noites que caem dentro de casa, de cara escondida na escuridão e corpo dado à luz do dia. Tinha muitos sítios. Tinha muitos nomes. Mas só se chamava Lorelei.

É uma sereia, é fingida. Não fala.
Ouve-se cantar todo o dia, chorar toda a noite, cantigas de amor amargo, lágrimas de água doce. É a brincar. É só uma sereia que espera no resto de uma rocha. Não tem importância. Chama-me os dedos da mão. Chama-me pelo corpo preso, pelas mãos, pelo cabelo apanhado, pelo meu nome.

Vive nas casas que lhe dão, no tempo que tem. Tudo o que lhe dão deita fora.

Segura-se como se fosse de pedra e, como a pedra, não se mexe.
A tarde sobe no céu. Lorelei fecha os olhos ao calor. É noite do outro lado do mundo. Alguém está a sonhar com ela. É um menino-rei. É um pastor. É um pai. Ela deixa. É da sombra. A vida passa sem ela saber.

Não tem paciência para o ar. O vento não lhe obedece. Não lhe cai aos tornozelos. Não faz nada do que ela quer.

Caço-a nos meus olhos, com o meu coração empobrecido e bom. Procuro-a. Encontro-a. Apanho-a. Pelo verão, pela sombra, pelos cabelos louros. Vejo-a pelo amor de Deus. Caço-a no dia e na noite, na minha espécie de vida. Se não a vejo durante muito tempo, deixo de ver seja o que for. O mundo desaparece. A vida não calha. O mundo é só um sítio que serve para ela estar. Para eu encontrá-la e ela perder-se de mim, escondendo a cara, à beira de uma sombra de água."

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