28 outubro 2009

Miguel Esteves Cardoso - Lorelei - 6

"Cada vez que a vejo, os meus olhos esquecem-se, esquecem que podem ver. Os meus olhos fecham-se. Os meus olhos desperdiçam-se. Vez, após vez, perdem-se pela primeira vez. Esquecem-se que já a viram antes.
Cada vez que a vejo, põe-me os olhos a arder. E assim se passa o meu amor constantemente para um lugar onde não chega, como quem se apaixona por alguém que ainda não apareceu, como quem vê o seu amor a nascer.

Deixa-se parar num tempo dela, como se tivesse frio, medo, seis anos de idade.
Parada, guardada em quem a olha, protegida de quem a toca, impedida de envelhecer.
Pedra quente, fogo frio. De repente, a vida vê-se.
A tua pele chega à minha, o teu cabelo cai no meu. Adivinho a chegada e a caída do teu corpo. Atiro a minha sombra contra a tua e os meus olhos fecham ao mesmo tempo que os teus.

Erguida, espreguiçada, menina muito crescida a deixar-se ver. Pedra quente, fogo frio.
Depois deita-se, tão desejada que não precisa de desejar. Parada, deixa-se amar.
Não se mexe, deixa-se mexer. Não se dá, vicia-se em receber."

Sem comentários: