24 novembro 2009

Anos 00: balanço - 2005

Sufjan Stevens - "Illinois"

Neste texto, o ano termina no dia 4 de Novembro, data que assinala o lançamento de “The Sunset Tree” dos Mountain Goats: álbum profundo e intimista que explora a infância difícil do mentor do projecto, John Darnielle. Para trás estende-se um ano onde os Arcade Fire são a personagem que atrai as luzes e as faz apontar para o Canadá, tornando mais nítido o relevo deste país no contexto indie dos anos 00.


No mês anterior duas estreias relevantes: as Au Revoir Simone apresentam “Verses of Confort, Assurance and Salvation”; e o novo projecto do veterano David Sylvian: “Snow Bourne Sorrow”, título escolhido para a manifestação dos Band of Horses. A juntar a estas duas novidades, duas confirmações esclarecedoras: Broken Social Scene com álbum homónimo e My Morning Jacket com”Z” que impõem imediatamente a rendição do público.

Ainda em Outubro, os Animal Collective lançam a fundamental obra de amor, “Feels”; os escoceses Arab Strap despedem-se com “The Last Romance”; o par de irmãos Fiery Furnaces convida a avó Olga Sarantos que inspira e proporciona uma nuance particular à personalidade do seu quarto trabalho, “Rehearsing My Choir”; Franz Ferdinand desenvolvem para “You Could Have It Be Much Better”; e os Gravenhurst apresentam “Fires in Distant Buildings”.

No nono mês do ano regista-se a estreia em forma de banda do projecto Why? de Jonathan "Yoni" Wolf com o promissor “Elephant Eyelash”. Pela mesma altura os Elbow dão continuidade ao seu estado de graça com “Leaders of the Free World; Devendra Banhart sublinha o seu bom momento com o magnífico “Cripple Crow”; e “Noah’s Ark” marca abrandamento acentuado das promissoras CocoRosie.

Para além da estreia dos Clap Your Hands and Say Yeah, que aproveitam o fenómeno que se expande a partir dos já citados Arcade Fire, os destaques vão também para o novo disco da Fiona Apple: “Extraordinary Machine; a nova banda de Spencer Krug, Wolf Parade, com o bastante competente “Apologies to the Queen Mary”; mas sobretudo para Sigúr Rós que oferecem “Takk…”, nova obra graciosa que esclarece que a fórmula está ainda longe de esgotar.

Clientele (“Strange Geometry”); Death Cab for Cutie, que não editavam desde 1998: (“Plans”); Black Rebel Motorcycle Club (“Howl”); e Walkabouts (“Acetylene”) compõem parte do mês de Agosto com trabalhos apreciáveis. Destaque positivo para New Pornographers com o enorme “Twin Cinema”; e negativo para Goldfrapp que parecem irremediavelmente atirados para os discos medíocres com “Super Nature”, no entanto conseguem manter inexplicavelmente os aplausos da crítica. Pelo meio, os Echo and the Bunnymen insistem em sobreviver nesta sua frágil segunda vida: “Siberia” chegou a ser considerado o melhor depois de “Ocean Rain” – obra que, quanto a mim, não merece uma associação deste nível. Laura Veirs chega ao 5º registo (“Year of Meteors”), mas ao primeiro recebido com entusiasmo.

Estacionados na falta de inspiração, os Tindersticks libertam por momentos a sua voz. Stuart Staples inicia uma carreira a solo através de “Lucky Dog Recordings 03-04”.

Antes, os Editors apresentam-se a 25 de Julho seguindo a ideia antes lançada pelos Interpol: “Back Room” revelou-se uma excelente estreia arremessando-os imediatamente para o sucesso.

Quatro dias depois de completar 30 anos, Sufjan Stevens oferece o disco que viria a ser o seu maior êxito até ao momento. 5 de Julho é o dia escolhido para o lançamento de mais um capítulo da celebração dos estados que formam os EUA. Depois de “Greetings from Michigan” em 2003, irrompe “Illinois”: uma colecção de composições grandiosas decoradas por adornos distintos que atestam uma sonoridade final com recheio soberbo e que coloca a nu toda a genialidade deste compositor americano. Com este trabalho, outros, que surgiram antes e depois, revelam com melhor visibilidade o crescimento de uma nova geração de cantautores. “Illinois” viria a dar uma ajuda preciosa no reconhecimento e afirmação de muitos novos talentos.

Julho traz outros dois estreantes: os Magic Numbers surpreendem com um álbum sem nome e os Sons and Daughters com “The Repulsion Box” – outros dois dos melhores álbuns do ano. No início do mesmo mês, White Stripes mostram “Get Behind Me Satan” arriscando uma tentativa auspiciosa de renovação baixando a densidade garage rock, que sempre se afirmou como imagem de marca, incluindo piano e guitarra acústica como elementos que ajustam a sonoridade do trabalho.

31 de Maio assinala aquele que viria a ser o último disco de Bill Callahan sob a designação de Smog: “A River Ain’t Too Much to Love”. Os Gorillaz, com “Demon Days”, regressam revelando mais preocupações mediáticas do que empenho em atingir uma qualidade compatível com o antecessor. Na primeira metade do mesmo mês, Aimee Mann lança o aclamado “The Forgotten Arm” e os Nine Inch Nails marcam pela primeira vez presença na década: “With Teeth”. Os Spoon ultrapassam com mestria o elevado êxito alcançado com o anterior “Kill the Moonlight” e apresentam a reconfirmação chamada “Gimme Fiction”. Maxïmo Park, com a estreia “A Certain Trigger”, completam os lançamentos a reter deste período.

Mantendo-se o rewind no percurso de 2005, Richard Swift comparece de forma inédita usando este nome e logo em relançamento duplo de álbuns anteriormente gravados, conseguindo aquilo que terá sido o principal objectivo: reconhecimento internacional de “The Novelist” e “Walking Without Effort”. Os Cloud Room lançam-se durante o mês de Abril acompanhados do seu primeiro álbum; os Piano Magic conseguem mais um bom disco – “Disaffected” - que juntam à sua discografia de qualidade irregular e onde assinalam o regresso à editora Darla.

Depois de dois álbuns que não se sentiram, os National atingem a fama com “Alligator”, aproveitando a moda Interpol, a mesma que serviria mais tarde para realçar a estreia já referida dos Editors.

Os Madrugada evoluem para “The Deep End” num mesmo mês que nasceu ao som dos Architecture in Helsinki (“In Case We Die”) e Okkervil River (“Black Sheep Boy”).

Março fecha com “Guero”, novo trabalho de uma carreira longa e constante de Beck. Uma semana antes, os Decemberists surgem com “Picaresque” conservando um crescimento de maturidade lento mas seguro. No dia anterior, Queens of the Stone Age impressionam ainda mais do que em 2002, desta vez com “Lullabies to Paralyze”.

A Silver Mt. Zion., que mudam de nome da banda ao ritmo de lançamentos de discos, apresentam o reconhecido “Horses in the Sky”. Mas, mais uma vez, são as estreias que marcam o mês: Kaiser Chiefs com “Employment” (existem desde 1997, apesar de tudo) e Bravery com “The Bravery”: dois projectos que procuram igualmente tirar partido dos gostos em vigor.

Quase a chegar ao início do ano (ou se preferirem, ao fim do texto), salienta-se a ovação conseguida por Antony and the Johnsons, que conta com a contribuição dos seus ídolos Lou Reed e Boy George, para além de Rufus Wainright e Joan Wasser, em “I Am a Bird Now”; o segundo e bem cotado trabalho de Patrick Wolf (“Wind and the Wires”); e a estreia prometedora de Bloc Party (“Silent Alarm”).

Andrew Bird reaparece com o esplendoroso “The Mysterious Production of Eggs”; Josh Rouse alcança o quinto trabalho: “Nashville”; os Kills regressam à boleia de “No Wow”; e os Doves, que alcançam o número um em Inglaterra com “Some Cities”.

Fevereiro teve ainda tempo para o novo projecto de Owen Pallett, Final Fantasy (“Has a Good Home”).

25 de Janeiro é sublinhado por uma avalanche de bons trabalhos. Bonnie ‘Prince’ Billy, juntamente com Matt Sweney, lança “SuperWolf”; os Bright Eyes apresentam-se em dose dupla com os apreciáveis “Digital Ash in a Digital Urn” e “I’m Wide Wake, It’s Morning”; os Low marcam a estreia pela Sub Pop com”The Great Destroyer”; e Six Organs of Admittance chamam a atenção da crítica com “School of the Flower”.

No dia anterior outros quatro lançamentos: o melhor até ao momento dos …And You Will Know Us By the Trail of Dead (“Worlds Apart”); a estreia de LCD Soundsystem (“LCD Soundsystem”); o terceiro dos franceses M83 (“Before the Dawn Heals Us”); e Mercury Rev com o delicioso “The Secret Migration”.

Antes há ainda o aparecimento dos Black Mountain num ano em que o Canadá impõe uma relevância que já vinha reclamando há anos; o primeiro de dois álbuns no mesmo ano dos Fiery Furnaces (“LP”); e a estreia numa major dos We Are Scientists que lhe vale um autêntico êxito nas vendas (“With Love and Squalor”).

Ver também:

Anos 00: balanço - Introdução; 2000; 2001; 2002; 2003; 2004

7 comentários:

Nuno disse...

Uma saga saborosa, um ano escrito a desnascer, em mais um texto rumo a si próprio. Muito bom.

p disse...

Tu sabes muito de música, muito. E neste teu balanço, concordo com quase tudo. yeap, Goldfrapp uma desilusão apesar de terem passado finalmente para o mainstream; My Morning Jacket que também passaram para a ribalta com o Z, muito por causa da presença numa música dos Bright Eyes, apesar de eu preferir de longe o anterior At Dawn. Mas para mim nesse ano faltariam aí uns quantos que me lembro de ouvir, embora, talvez não tão decisivos para o panorama musical :
Grandaddy com o Excerpts From The Diary Of Todd Zilla.
Ryan Adams, 29; consagradíssimo fora dos The Cardinals, que não gosto muito de nenhum dos dois, mas que rodou que nem roleta durante 2005, rodou.
Silver Jews - Tanglewood Numbers para mim imperdível por todos os lados.
Stephen Malkmus (que apenas participa numa das músicas do álbum dos Silver Jews, abandonando-os )– Face The Truth, que foi considerado o álbum mais esquisito dele, especialmente depois do surpreendente Pig Lib mas, que eu gosto muito ainda assim.
E o que considero quase uma heresia não estar aqui nestes balanços (só se não li bem, é uma hipótese, porque realmente é muita informação) os The Beta Band, que terminam em dezembro de 2004, lançam um último álbum de compilação a pedido e para os fãs em 2005 –The Best Of The Beta Band, igualmente um filme. Uma das melhores bandas de sempre, inimitável, que deviam ter sido proibidos de ter acabado para bem de pessoas como eu :)
Estes posts que escreves são muito bons, e gosto muito de os ler.

telheiro disse...

Tinha quase a certeza que ias eleger Illinoise como o álbum de 2005, era um feeling ;)
Para mim Takk é o álbum do ano, ainda por cima quando em Novembro desse ano arrasaram o Coliseu do Porto pela segunda vez...Lembraste? Acho também que I am Bird Now do Antony merecia mais destaque... para mim é um dos melhores da década, sem dúvida.
O único reparo que faço - mas sei que não é do teu gosto, por isso te desculpo - foi o bom regresso dos Depeche Mode com Playing the Angel, ao invés do que fizeram este ano...

Já agora olha para a lista da Times para álbuns da década:
10 – The Seldom Seen Kid; Elbow
9 – Raising Sand; Robert Plant & Alison Krauss
8 – Elephant; The White Stripes
7 – Coles Corner; Richard Hawley
6 – Is This It; The Strokes
5 – Blackout; Britney Spears
4 – Speakerboxxx/The Love Below; Outkast
3 – In Rainbows; Radiohead
2 – Back To Black; Amy Winehouse
1 – Kid A; Radiohead

Mais que a presença da Brita o que mais me surpreende é a inclusão do último dos Elbow!!! Em grande e bem merecido.
A NME elege como álbum da década Is This It, dos Strokes.

Abraço

Joao disse...

Nuno,

Obrigado, mais uma vez: pela motivação, pela ajuda e pelos elogios :)

Abraço

Joao disse...

P.,

Obrigado pelo elogios :)

Quanto às propostas: algumas conheço outros trabalhos (Ryan Adams, Grandaddy, Stephen Malkmus), outros conheço só de nome ou muito pouco (Silver Jews e Beta Band). Fica prometido audição mais atenta para estas propostas todas.

Joao disse...

Claro que me lembro desse concerto: impossível esquecer.

Quem são os Depeche Mode? :D

As listas sabem-me sempre a injustiça, esta não foge à regra.

Abraço

Nuno disse...

Sigur na 2ª passagem pelo Porto não foi um concerto: foi um ritual assombroso, onde tudo o que se tentasse mover se desintegrava, perante canções subidas do antigo elemento do silêncio: devastadoras; onde apenas no caos das linhas se escuta a música na sua essência: a pulsar, onde nunca mais se saberá a distância de uma palavra à outra.
E aquele final, dedicado à intimidade dos deuses convocados, como apenas os Sigur lhes sabem fazer cair a cortina, num fractal próximo do choque das placas contraídas que a morfologia ainda não aprendeu a desenhar, nos ventos que se aventuram, abandonando a precaução dos ângulos arredondados.