01 novembro 2009

José Mário Branco; Sérgio Godinho; Fausto @ Coliseu do Porto – 31.10.2009

No país de todos os embustes “é tão bom uma amizade assim”: poder assistir a momentos, que a noite de Sábado tornou tão simples de suceder, depois de difícil montagem de um alinhamento para um espectáculo sem dimensão.

“Estou tão contente!” – referiu José Mário Branco, no primeiro conjunto de palavras dirigido a um público devotado - e então nós?! Espero que os muitos aplausos contidos em ovações em pé, tenham demonstrado isso mesmo.

Coliseu a abarrotar, para assistir ao desfilar de canções da História Mundial da Música Popular.
Depois de Lisboa, o Porto acolhia três dos expoentes da arte, nesse domínio.
Numa missão de alto risco: encaixar, uma fase da vida – porque é disso mesmo que se trata – relativa a 40 anos, numa apresentação.
E, de uma forma tão própria: deslumbrante: autêntica - de fazer da composição e da interpretação musical, um percurso nobre, ali foi assistido.

Se já não precisavam de dar provas da sua grandeza, mais enormes se tornaram na concepção deste espectáculo: para além do rigor técnico, da fabulosa orquestra de que se rodearam, de uma entrega sem limites, a escolha da sequência de temas foi demonstrativa dos riscos que ainda sorriem ao corrê-los.

Tinha sido extremamente fácil, ao jeito de um “best of” apresentar o que mais linear pudesse ser imaginado de ser escutado.
A coerência de quem sempre soube surpreender atingiu aqui o seu ponto alto: quer nas escolhas “menos obvias” chamemos-lhes assim, quer nas versões apresentadas, de que “Primeiro Dia” foi um exemplo brilhante, mas onde “Que Força É Essa” foi o mais marcante: rasgo; talento: impressionante e arrebatador.

Em trio; dueto ou individualmente, com saídas e regressos que nem se notavam ocorrer tal a vontade de aplaudir a cada sacudidela com que éramos acossados a cada canção.

Som irrepreensível, a acompanhar cada tema que se tornou de cada um dos três elementos que ocupavam o centro do palco, numa divisão de resto zero – tal o absoluto rigor com os tempos de presença, execução e partilha de um espólio que é afinal de todos nós: José Mário Branco, referiu-o e reforçou para “contarmos com isso e para o resto” e, nem pestanejámos a hesitar: de um homem assim não se duvida de uma única palavra.

As palavras – neles – são a base de canções inesquecíveis e, como as trouxeram!
Duas horas e meia cheiinhas delas: avassaladoras com José Mário Branco, mágicas no seu movimento de troca estonteante de posições, no caso de Sérgio Godinho, acarinhadas e sublinhadas por Fausto.

Sim, pudemos escutar um início assombroso e um final inverosímil, nos extremos de uma viagem que conteve “Guerra e Paz”, “Como um Sonho Acordado”, “O Primeiro Dia”, “Ser Solidário”, “Eu Vi Este Povo a Lutar”, “Que Força É Essa”, “Maré Alta”, “Mudam-se Os Tempos Mudam-se As Vontades”, Se Tu Fores Ver o Mar (Rosalinda)”, “Casimiro”, “Eis Aqui o Agiota”, “O Velho Samurai”, “Não Canto Porque Sonho”, “O Charlatão”, “A Barca Dos Amantes”, um inédito “Faz Parte – ou o retorno das audácias” ,a memória de Zeca Afonso em “De Não Saber O Que Se Espera” e o tal fecho com "Na Ponta do Cabo".

Canções atiradas para choros e risos, silêncios sepulcrais ou entusiasmo desmedido.
Com o palco repleto ou apenas o trio - em jogos vocais tremendos sobre guitarras gémeas, sob canções fabulosas - o sentimento de assitir a um concerto histórico depressa vincou a sua pressença.

A preparação de meses destes pouquíssimos espectáculos não evitou deslizes no início de temas, mas os grandes sabem voltar esses acontecimentos a seu favor!
Como com Sérgio Godinho a antecipar-se na introdução de um tema, mas a perguntar se ainda estávamos acordados para ouvir a história que tinha para contar, ou na demora da extinção da interferência na amplificação de uma guitarra, que Fausto procurou entreter com “a gaitarola” que esteve presente em “Charlatão” e a que Sérgio Godinho não augurou grande futuro, antes “ordenando”: "vamos mas é trabalhar!"

A disposição de todos os músicos em palco foi criteriosa: as percussões na retaguarda com os sopros à frente, as teclas e acordeão no extremo direito do palco a espreitar os três homens sentados de guitarra na mão, que tinham à sua esquerda o baixo e as guitarras eléctricas, espreitadas pelo coro que tanta força deu ao conjunto.

Na história que Sérgio Godinho contou, em tempos, tanto ele como José Mário Branco – nados no Porto e Fausto “como se fosse”, estavam impedidos de actuar, no palco que queriam ocupar.
Antigamente.
Agora estavam ali.
A ditadura derrubada deu lugar à da formatação dos gostos e omissão de valores.
E esta é parte em que músicos assim, que não renegam o que viveram, se eleva: apesar de todas as barreiras dos impedimentos, de uma falta de divulgação impiedosa dos meios de comunicação – principalmente da televisão – enchem espaços que até poderiam receber segundas levas e ventos espalhados por mais cidades do país, que de certeza anseiam por os receber.

Fausto, “só” gravou, por exemplo “Por Este Rio Acima” e tem uma obra, para todos os efeitos na clandestinidade, indevidamente divulgada, dada a sua dimensão.
Sérgio Godinho é o que tem mais exposição mediática e o que mais activo se mostra até nas colaborações com outros campos.
José Mário Branco está “metido” nos grandes trabalhos musicais que pudemos conhecer.
Foi saboroso, vê-lo: a agitar o corpo no decurso de alguns temas, mais que ouvir a sua voz, vê-la a marcar o ritmo da existência das palavras.
Escutar aqueles temas que os nosso dias, como são guiados por quem manda, cada vez são mais actuais, nesta democracia de "rigorosos inquéritos" e de "matérias que não me posso pronunciar".
Gatunos de papel passado que adiam um país inteiro.
Ver o seu esgar após o pedido de “FMI” - esse grande compêndio de música em carne viva, de cicatrizes indomáveis, enciclopédia de geografia emocional – mas que não era para ali chamado.
José Mário Branco tem uma coerência no seu percurso de vida que se torna emocionante. Será talvez o grande compositor “indie” da história da nossa Música: editou em nome próprio quando ninguém o fazia, colaborou com projectos teatrais, produziu e orquestrou trabalhos de uma diversidade incrível e, mantém um discurso que não entra em facilitismos, cedências e se regenera de lucidez como quem respira, mantendo-se à margem da mediocridade que grassa.
Coerência, já ouviram falar?

No Sábado senti-me um privilegiado: e estes senhores foram os culpados.

5 comentários:

Joao disse...

Um espectáculo que conjugou iluminados como esses, e ainda por cima com tanto empenho na preparação, só podia resultar num texto tão inspirado e honesto como esse.

Ai se o arrependimento matasse!

imagemdosom disse...

Muito bom.

Gostava bastamte de deixar um linhk para o artigo, na reportagem fotográfica do concerto, na Imagem do Som.
Será possivel?
Abraço

AR disse...

Ei...eu conheço essa escrita! É de quem escreve com paixão! =)

Parabéns pelo artigo! Não estive lá mas foi como se estivesse! Escreves (ou devo tratá-lo por Sr.?) espectacularmente bem!

Arrepiei-me quando li "esse grande compêndio de música em carne viva, de cicatrizes indomáveis, enciclopédia de geografia emocional"

!!! ***

Nuno disse...

Já vi a "ligação".
Muito boas a fotos.
Obrigado.

Nuno disse...

AR: obrigado pela leitura, apreciação, reacção e comentário.
Sem Sr. - definitivamente.