05 novembro 2009

Manuel Gusmão

(Prémio Pen Club 2008)

"As mãos, os dedos; labaredas
minuciosas
aplainam e afagam a mesa
o seu amor de mesa ou a sua dedicação
não servil a essa forma nua
em que foi sonhada.

Foi a intrínseca madeira das florestas
quem a imaginou nas mãos do artífice;
e agora abre-se
na sala da casa como um pássaro preso
que prometesse voo.

Em certas mesas que habitam o mundo
tal como o amamos
há esse pássaro esse
escravo que voa no interior das mesas
sonhando-as como se fossem grutas
junto a esse mesmo mar que as invade
e faz soar
- põe as mãos na mesa; as mesas
no mar; o mar nas grutas e aí o som anterior:
o longínquo rumor da mesa sonhando os mundos."


"e tu vês estas estranhas aves que são nomes velozes
e, desferidas, cicatrizam no corpo da terra o céu aberto
e a demais matéria do tempo que não cessa.

Outrora seriam rios e montanhas; florestas e deserto

foram depois estaleiros e refinarias desafectadas;
ou esses rebanhos de gruas vermelhas que consigo
traziam a tempestade e deslocavam a cidade.

As paisagens mudavam de lugar e perdidos eram
os lugares e as gentes com quem nasceras"

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