05 novembro 2009

Miguel Esteves Cardoso - Lorelei - 7

"Acordo dentro dela, como se acordasse dentro de água quente.Mexo-me. Ela mexe-se. Mexo-lhe. Ela mexe-me.E é sempre no meio da noite, no meio de uma noite, que é sempre a mesma, sem princípio e sem fim, onde não há lembrança de ter anoitecido, nem ideia de que vá amanhecer.Ela acorda sempre dentro de mim, entre o sonho e o susto que, no amor, são as coisas de todos os dias.Que tamanho tens? Que natureza tens? Que idade tens?Tens o tamanho que eu quiser, a natureza que tiveres e a idade das perguntas que faço.Lorelei, menina mais mulher. Tão olhada que já não olha para ninguém. Tão deitada!…Por não poder parar, o homem pára o que se passa na pedra. Pega num escropo ou numa máquina ou numa caneta e pára o que se passa na pedra, na película, no papel. Mata o que tem vida. Dá vida ao que morreu.Passa para a pedra como quem muda de pele. Troca o corpo com o coração. Confunde as coisas todas, sobretudo, a vida com a verdade. Uma mulher é sempre muitas. Quem ama uma só mulher perde-se numa multidão.Confundo-me. A pele lisa como a pedra, a pedra lisa como a pele. O papel liso como a película, a película lisa como o papel. Faz-me bem!"

Sem comentários: