29 novembro 2009

Rodrigo Leão @ Coliseu do Porto - 28.11.2009

A noite de todos os triunfos

Rodrigo Leão é um músico que nos faz percorrer muitos dos caminhos antológicos, desse campo, que merecem ser calcorreados.
Com uma carreira construída por fracções de bons predicados, atingiu já um ponto superior da escala evolutiva que destaca os sons que levam a um número inteiro.

Após a pedra basilar que era, se ter deslocado da assombrosa Sétima Legião para a uns Madredeus que foram marcantes enquanto contaram com a sua colaboração, iniciou uma viagem por uma musica de câmara portátil contemporânea, no sentido em que de forma incrível sob o manto da simplicidade, uniu composições em latim, português, espanhol, francês, inglês e russo e acima de tudo na universalidade de movimento que é a música.
E Rodrigo Leão consegue fazê-lo com um talento ímpar: compõe exemplarmente: gera canções memoráveis: é um nome marcante da História da Música Portuguesa (e não só).

Perante passos em falso e erros cometidos, por muito boas intenções que possam estar na sua origem, há quem possua a inteligência de avaliar como pode ser dolorosa a experiência de querer mostrar algo que tanto gosta. Num misto de afectividade e satisfação plena pelo que foi produzido, apresentou no mês passado em Lisboa, “This Light Holds So Many Colours” sob a voz de Pedro Oliveira, para não a deixar guardada, e a critica terá feito desse momento desastroso o elemento absorvente de um concerto.

O que se pode assistir no Porto foi precisamente o oposto: uma noite de eleição.
Rodrigo Leão é um “chosen one”: preparou um alinhamento ao mais pequeno detalhe e apresentou um conjunto de músicos sob um som cristalino, desenvolvendo em sintonia, pedaços de beleza extrema com o formato de canções ou instrumentais que o não são menos.

A música foi praticamente a única luz contraposta à penumbra de uma sala que acolhe de forma única, quem se apresenta a rasgar o que é.
Perante a qualidade o Coliseu do Porto não se poupa a demonstrações sinceras de um estado cheio pelo que escuta.

Para um desfile quase absoluto do trabalho deste ano “A Mãe”, interpolou com mestria temas instrumentais com outros em que a voz de Ana Vieira maravilhosamente se excedeu.
Em tempos, sobre o facto das fantásticas colaborações que de forma sublime sabe escolher, Rodrigo Leão referiu que muitas senão todas as composições são pensadas para a voz de Ana: daí o encaixe em palco: absolutamente notável.

As texturas; ambiências ou forma de respirar das peças da obra de Rodrigo Leão, são um manancial de beleza: os pesos da fatalidade de uma visão latina da perda, que encontram tronco comum num ramo anglo-saxónico, que o terá iniciado na descoberta da música, como forma única de tornar - de um modo pura e simplesmente incrível – leves um conjunto de sentimentos que trazem tanto de encontro como levam de procura.

Se “Voltar” e “A corda” anunciaram uma prestação inesquecível de Ana Vieira e num nível similar, quer técnico quer de inspiração de todos os elementos que tornaram cinematográfica a teatralidade da exposição dos sentidos, “Lonely Carousel” em instrumental relembrou uma silhueta de Beth Gibbons, afinal tão perceptível no seu silêncio.

Após o agradecimento pela presença que queria recompensada por uma noite agradável, a constatação de um Coliseu do Porto, esgotado pela primeira vez, que tão bem, ao longo de hora e meia aqueles músicos souberam por fazer merecer.

Entrecortada por mais dois temas instrumentais de uma suspensão transparentemente deliciosa, uma “Rosa” ligeiramente mais baça, pelo esplendor deste tema, em que uma letra em chamas, baralha perda, ausência e dor com beleza.

“Vida tão estranha” é um tema onde a voz voa, com muito mais valor que o de uma composição onde se perdeu o rasgo e a letra é um ponto baixo da obra de Rodrigo Leão, contudo, musicalmente o momento foi excelente e a resposta do público não se fez rogada em aceitação.

Onde eventualmente Ana Vieira atingiu o cume foi em “Sleepless Heart”!
Talvez sonhada para ela, esta canção e acima de tudo a perfeição que atingiu em palco, alojou-se no domínio dos deuses.
Néctar.
Puro.

Uma surpresa sem limites de classificação foi a prestação de Gomo.
A “Cathy” dada a conhecer pela voz do enorme Neil Hannon, que é de facto uma grande canção, atingiu uma depuração na escuridão da sala, sob a interpretação do músico convidado, que se tornou num dos outros grandes momentos da noite.

Onde Ana Vieira não se cansava de brilhar.
Oferecendo a voz aos temas que de facto lhe assentam no limite de todas as medidas.
Do salto vertical em castelhano de “Canciones Negras”, e o rigor das palavras em francês desta vez para “Solitude”: acolhedor, a lançar um final para “La fête”.

Regresso ao palco com um “No Sè Nada” planador, depois de mais uma instrumental a crescer sobre os sons de vozes em procura, pré-gravadas, como no início da apresentação.
Com um Coliseu rendido, recompensado e recompensador – gratificante ver os rostos, também eles cheios dos músicos – o preenchimento estava nomeado.
Espaço para “Passion” pela voz de Celina da Piedade.

Perante a exigência de um segundo regresso, Rodrigo Leão não arriscou e homenageou: sublinhando quem deu dimensão esplendorosa a canções de devoção.
Bis para Gomo, como repetido foi o altíssimo nível alcançado.

O fecho duplo para Ana Vieira, portentosa em “Lonely Carrousel” – sim, a silhueta foi decalcada – e a repetição para uma “Corda” que nos amarrou a uma prestação inesquecível de uma cantora em estado de graça, a corporizar um colectivo numa forma esplêndida, com os temas de “A Mãe”, vistos pela primeira vez, a terem dimensão; nervo; rasgo: elevando-os.

Triunfo: “ensemble” para Rodrigo Leão, Ana Vieira, Celina da Piedade, Viviena Toupikova, Marco Pereira, Bruno Silva, Luís Aires e Luís San Payo.
E Gomo.
Ou uma forma de encantamento presenciado.

2 comentários:

Anónimo disse...

Também lá estive :)
Foi, de facto, uma noite única, não só pela qualidade que referes, como por ter marcado o meu regresso à música: a da excelência.

Um aparte: nota-se a frequência, a maturidade e a intensidade simples da arte da escrita. Estás lá, onde sempre soube de onde vinhas.

Nuno disse...

Não se regressa onde não se saiu.
Noite gloriosa, de facto.

E obrigado pelo aparte, prof!