01 dezembro 2009

Anos 00: balanço - 2006

Joanna Newsom - "Ys"

2006 é ano de fartura. Muita. Mas de qualidade aproximada. Ou seja, os melhores estão relativamente próximos da média que rege a fatia da indústria discográfica que conta para este balanço e as desilusões são pouco significativas. Ainda assim, 4 confirmações categóricas – Joanna Newsom, Micah P. Hinson, TV on the Radio e Killers – , três estreias saborosas – Alexi Murdoch, She Wants Revenge e Raconteurs – e uma combinação que tem tanto de improvável como de apaixonante – Isobel Campbell e Mark Lanegan.

Antes de mais, a breve errata que se impõe:

No texto anterior, referi-me erradamente a “Plans” dos Death Cab for Cutie como o primeiro álbum desde 98 ignorando os 3 discos editados entretanto. E destaquei os Band of Horses pelo seu trabalho “Snow Bourne Sorrow” que afinal é de 2006.

Ficam, portanto, registados aqui os lapsos alertados de forma simpática por leitores atentos e feitas as respectivas correcções. Um pedido de desculpa a todos que induzi em erro e um obrigado para quem se prestou a corrigir-me.

Posto isto, mergulhemos então no ano que interessa.

Em Dezembro de 2006, desafiados – eu e todos os outros interessados - por um blog de um grupo de amigos meus para eleger os 10 melhores álbuns do ano, escrevi o seguinte:

1. Isobel Campbell & Mark Lanegan: “Ballad of the Broken Seas”
2. Micah P. Hinson: “Micah P. Hinson and the Opera Circuit”
3. TV on the Radio: “Return to Cookie Mountain”
4. Sparklehorse: “Dreamt for Light Years in the Belly of a Mountain”
5. The Killers: “Sam’s Town”
6. She Wants Revenge: “She Wants Revenge”
7. The Raconteurs: “Broken Boy Soldiers”
8. Guillemots: “Through the Windowpane”
9. The Flaming Lips: “At War with the Mystics”
10. Hot Chip: “Warning”

Para além destes, destacava The Decemberists (“The Crane Wife”); Cat Power (“The Greatest”); Peeping Tom (“Peeping Tom”); e Calexico (“Garden Ruin”) como outros lançamentos que não podem ser ignorados em qualquer reflexão sobre os melhores desse ano.

Ao olhar para esta lista, saltam à vista omissões perfeitamente imperdoáveis. Descuido na sua preparação (perdoem-me os companheiros de blog) e falta de dedicação são os motivos para um top 10 tão injusto. A leitura das várias classificações anuais ordenadas pelas publicações da especialidade e a troca de opiniões em jeito de rescaldo despertaram-me curiosidade por trabalhos que, por falta de empenho da minha parte, só os conheci tardiamente.

A ausência principal é, quanto a mim, Joanna Newsom, que, numa nova versão revista e actualizada que este balanço me proporciona, a elegeria como responsável pelo melhor álbum do ano. “Ys” é, sem margem de dúvida, uma relíquia sagrada em forma de música oferecida por esta harpista e pianista americana. Os 5 temas que preenchem os quase 56 minutos são de uma excelência ímpar complementada por uma voz única que, com este disco, se eleva ao patamar máximo. As orquestrações de Van Dyke Parks enfeitam de forma sublime este segundo álbum oficial de uma Joanna Newsom perfeitamente emancipada e reconhecida como uma das principais compositoras da actualidade.

Os Destroyer, também esquecidos na lista precipitada, alcançam o seu ponto mais alto com “Destroyer’s Rubies”. Daniel Bejar expõe todo o enorme talento que possui potenciando o maior protagonismo que os Destroyer lhe proporcionam em relação ao seu projecto paralelo, os New Pornographers.

Só depois surgiria “Ballad of the Broken Seas”. Trabalho dividido entre a bela e doce voz de Isobel Campbell e o monstro Mark Lanegan com passado por Screaming Trees e Gutter Twins, além de várias outras participações das quais se destaca o trabalho com os Queens of the Stone Age. Um álbum de contrastes perturbantes ao nível das vozes que engrandecem composições bastante consistentes da autoria, na sua maioria, de Campbell.

O rumo escolhido em direcção a Micah P. Hinson parece-me correcto: “Micah P. Hinson and the Opera Circuit” é o progresso perfeito. Álbum de ideias mais claras e amadurecidas em relação à estreia, mas conservando o elevado talento. Por entre estes dois lançamentos do já muito relevante Micah, nasceu um álbum em 2005 que reuniu criações mais antigas: “The Baby and the Satellite”.

“Return to Cookie Mountain” foi a gestão perfeita das expectativas criadas pelo êxito alcançado dois anos antes com “Desperate Youth, Blood Thirst”. Os TV on the Radio crescem à custa de um trabalho mais ponderado, equilibrado e coeso. Mostram, para além de tudo isto, que sabem como aproveitar os pontos fortes que fizeram do anterior um disco surpreendente.

Sparklehorse faz, igualmente, por merecer destaque. Ausente há 5 anos, a banda de Mark Linkous reaparece com o velho hábito de brindar a sua chegada com temas eloquentes como os que preenchem “Dreamt for Light in the Belly of Mountain”.

Neste ponto, abriria espaço para Alexi Murdoch – que apenas conheci no início de 2007 – com o excelente “Time Without Sequence”. Consegue uma estreia triunfante: para além do reconhecimento conquistado, vê ainda temas do seu álbum serem solicitados para várias séries televisivas com audiências de top. «Inesquecível o argumento com que Mahone “empurrou” Haywire para o voo sob o som de “Home”», repetiu o mesmo gajo pela enésima vez, fartinho de saber que eu não seguia o Prison Break.

Desta forma, os Killers desceriam para a oitava posição. “Sam’s Town” é, tal como no caso de “Return to Cookie Mountain”, uma óptima resposta aos que, de ouvidos bem abertos, tentam ser os primeiros a detectar fracassos e a justificar os êxitos anteriores como obras do acaso.

As duas estreias vistosas dos She Wants Revenge e Raconteurs são excelentes pretextos para rematar uma lista dos 10 melhores do ano. No caso dos primeiros, o álbum homónimo trouxe uma nova perspectiva ao revivalismo post-punk derivando a sonoridade para uma dimensão mais electrónica. Os segundos formam-se a partir de gente já conceituada. Liderados por Jack White, este projecto traz frescura ao garage-rock da moda que mostra já sinais de saturação.

Infelizmente, não caberiam nesta lista os excelentes “Through the Windowpane” dos Guillemots, “At War with the Mystics” dos Flaming Lips, nem “Warning”, o segundo álbum dos Hot Chip.

Mas, tal como estes, outros merecem referências pela excelência dos seus trabalhos em 2006, ficando igualmente à porta do espaço já lotado dos melhores. O melhor álbum até ao momento dos Shearwater, “Palo Santo” é sem dúvida um deles. Como também Early Years com um maravilhoso álbum sem título; Tom Yorke, “The Eraser”; Grizzly Bear, “Yellow House”; Archive, “Lights”; God Is an Astronaut, “All Is Violent, All Is Bright”; ou Arctic Monkeys, “Whatever People Say I Am, That's What I'm Not” são outros exemplos esclarecedores.

Os destaques que referia no final da lista são oportunos e justos. Os Decemberists continuam o crescimento cadenciado com “The Crane Wife”, já muito próximos de atingir o topo; Cat Power revela o esplendoroso “The Greatest”; Peeping Tom mostra um Mike Patton ainda em forma; e os Calexico apresentam o agradável “Garden Ruin”. Mas são menções sempre incompletas se não se juntarem a estes nomes como Beirut (“Gulag Orkestar”); Howling Bells (“Howling Bells”); Patrick Watson (“Close to Paradise”); Bonnie ‘Prince’ Billy (“The Letting Go”); Asobi Seksu (“Citrus”); Tortoise and Bonnie ‘Prince’ Billy (“The Brave and the Sold”); Tom Waits (“Orphans”); Nina Nastasia (“On Leaving”); Six Organs of Admittance (“The Sun Awakens”); e Pink Mountaintops (“Axis of Evol”).

2006 é, como se constata, um ano valioso pelos referidos até este momento. Mas que continua a enriquecer num balanço que pretende ser mais global e abranger mais do que alguns devaneios em redor das possíveis escolhas para a sempre difícil e invariavelmente injusta lista dos 10 melhores.

Torna-se impossível ignorar trabalhos enormes como “What the Toll Tells” dos Two Gallants; o aclamado “Ringleader of the Tormentors” de Morrissey; o bastante apreciado 5º álbum dos Mogwai, “Mr. Beast”; “So Divided” dos …And You Will Know Us by the Trail of Dead; “Damaged” dos Lambchop; “Beautiful Lie” de Ed Harcourt”; Sonic Youth, “Rather Ripped”; Eagles of Death Metal, “Death by Sexy”; Badly Drawn Boy, “Born in the UK”; ou “Post-War” de M. Ward.

E o impulso para continuar as menções, numa luta – que se sabe perdida à partida – para não cometer a injúria de omitir discos importantes, segue à mesma velocidade e com a mesma determinação com que se contam carneiros sem fim em noites de insónia: Neko Case lança “Fox Confessor Brings the Flood”; Final Fantasy regressa com “He Poos Clouds” na bagagem; Scott Mathew estreia-se em estilo com “Passing Stranger”; The Shins exibem “Wincing the Night Away”; Lisa Germano volta na companhia de “In the Maybe World”; Damien Rice escolhe, depois de “0”, o algarismo 9 para baptizar o mais recente trabalho; os Clinic mostram-se vivos e de boa saúde através de “Visitations”; Grant-Lee Phillips oferece um excelente álbum de versões chamado “Nineteeneighties” celebrando com requintado gosto o período a que o título do álbum alude num só fôlego.

Outros nomes, que aumentam uma lista que parece infinita, surgem já longe dos melhores mas ainda dignos de citação: Sunset Rubdown (“Shut Up I Am Dreaming”); Camera Obscura (“Lets Get Out of This Country”); Walkmen (“A Hundred Miles Off”); Yo La Tengo (“I’m Not Afraid of You and I Will Beat Your Ass”); Strokes (“First Impressions of Hearth”); Barry Adamson (“Stranger on the Sofá”); Magic Numbers (“Thos the Brokes”); Josh Rouse (“Subtitulo”); e Willard Grant Conspiracy (“Let It Roll”).

Num ano com enorme quantidade de bons álbuns, mas com poucos de qualidade transcendente, assinalo como desilusões os Muse (“Black Holes and Other Revelations”); Gomez (“How We Operate”); Kasabian (“Empire”); Zero 7 (“The Garden”); Snow Patrol (“Eyes Open”); Gotan Project (“Lunático”); Divine Comedy (“Victory for the Comic Muse”); e Radio 4 (“Enemies Like This”).

Finalmente, e para não acabar 2006 com as más notícias, um derradeiro parágrafo para assinalar a estreia bem disposta da big band I’m From Barcelona, “Let Me Introduce My Friends”; a aparição de um Jarvis Cocker promissor fora dos Pulp com “Jarvis”; o regresso agradável dos Yeah Yeah Yeahs, “Show Your Bones”; o contributo dos Woven Hand através de “Mosaic”; a presença regular de Beck, desta vez mostrando “The Information”; e a novidade White Rose Movement com “Kick”.

Ver também:

Anos 00: balanço - Introdução; 2000; 2001; 2002; 2003; 2004; 2005

7 comentários:

Nuno disse...

Que ano!

e um texto voador que o torna tão presente, seja lá o que isso represente: o tempo é cada vez menos uma estrutura em que se possa confiar :)

quanto às escolhas de Joanna Newsom, há que referir o brutal "The Ys Street Band" EP que continha "Clam, crab, cockie, cowrie" e "Colleen" - que podem aceder aqui no blog, mas longe, muito, do que pôde ser acedido no Theatro Circo, num dos mais desintegrantes concertos a que pude assistir.

Quanto a Dan Bejar, acedi nessa altura a um registo da Radio 3, com temas deste álbum estrondoso, que prometo deixar por aqui em breve.

E digam lá que o João não perdeu um momento incrível: http://www.youtube.com/watch?v=tR7k-XqRvfY&feature=related Home escuta-se ao fundo :)

Quanto ao resto, as reacções que se façam sentir!

joao disse...

Esse EP, parece-me, é de 2007. Depois d confirmar isso ainda ponderei referi-lo mesmo assim. Ainda bem que não o fiz: a referência aqui fica bem melhor.

Quanto ao concerto: não existem palavras para o descrever. Daqui a dez anos, Joanna Newsom vai ser do tamanho de uma Lisa Gerrard. Só lhe falta mais discos do mesmo nível para que isso acontença.

Aguardo a promessa relativa aos Destroyer.

p disse...

estes posts são fenomenais. e, quando se nota que "falta" alguma coisa é por isso mesmo: eles são tão completos, levam-nos tão até lá pela mão, que nos permitem identificar exactamente os pormenores que escapam sempre a tamanha grandeza. e a incompletude é coisa boa :)
gosto muito.

Joao disse...

Obrigado :)

telheiro disse...

Boas!
Lá arranjei uma pequena aberta para escrever sobre a tua review de2006 :)
No tal blogue que referiste, na altura votei:
The Dears - Gang of Losers
Flaming Lips - At War with the Mystics
The Strokes - First Impressions Of Earth
The Killers - Sam´s Town
TV On The Radio - Return to The Cookie Mountain
Guillemots - Through The Windowpane
She Wants Revenge - She Wants Revenge
Band Of Horses - Everything All The Time
The Raconteurs - Broken Boy Soldiers
Arctic Monkeys - Whatever People Say I Am, That's What I'm Not

Acho que o álbum dos Band of Horses não é o Snow Bourne Sorrow mas sim Everything All The Time.Ou querias falar dos Nine Horses?
Não referes os muito injustiçados The Dears - Gang of Losers -, que para mim foi o álbum de 2006.
Da lista dessa altura, hoje em dia só acrescentava o Patrick Watson, com o genial Close to Paradise.

De resto nada a apontar...

Joao disse...

Eu sei. Foi uma tremenda confusão.
Nine Horses, Band of Horses... chiça! Juntavam os dois e fazim a Band of Nine Horses, seria bem mais simples.

Ainda vou ficar maluco por causa disto.

Valha-me a simpática P.

telheiro disse...

Band of Nine Horses??? Essa está boa...
Agora também "só" te falta 2007,2008, o de 2009 e o resumo da década...ehehe Depois tens 10 anos para descansares :)

Ando a ouvir uma "bolacha" porreira: Pearl and The Beard.