11 dezembro 2009

Anos 00: balanço - 2007

Modest Mouse: "We Were Dead Before the Ship Even Sank"

Já com o final da década à vista, realça-se o regresso dos Arcade Fire e dos Deerhunter, num ano em que Piano Magic e Unkle superam as melhores expectativas mas que foi ganho pelos Modest Mouse e pela surpresa Mother Mother.

Recomeço pelos ausentes há mais tempo: 2007 marca o regresso dos Happy Mondays ao fim de 15 anos de silêncio. Finalmente o decepcionante “Yes Please” ganha um sucessor. No entanto, “Uncle Dysfunktional” não consegue reacender a chama de uma banda que teve papel preponderante durante a corrente de madchester nos finais de 80 e inícios de 90.

“Renegades”, lançado em 2000, foi o último trabalho dos Rage Against the Machine. Entretanto, Tom Morello não pára e integra o supergrupo Audioslave, que dura até este ano de 2007. É precisamente o momento em que inicia a sua carreira, finalmente a solo, sob o nome de The Nightwatchman. Para álbum de estreia desta sua nova vida, edita o muito aconselhável “One Man Revolution”.

Kula Shaker com “Strangefolk”, Young Gods através de “Super Ready/Fragmenté” e Les Savy Fav graças a “Lets Stay Friends” são outros retornos que se saúda. Josh Haden, voz dos extintos Spain, regressa à vida num álbum a solo, o apagado “Devoted”.

Os Radiohead demoram 4 anos a dar sequência a “Hail to the Thief”. “In Rainbows”, que foi editado assumidamente através da Internet, revela-os cautelosos e com perfeccionismo consciente, de quem sabe que só uma abordagem realista, ciente dos riscos, pode evitar a saturação que se receia a cada nova criação. Transpõem com mestria o desafio.

Desde 2003 não gravavam também os Sea and Cake (“Everybody”); Kristin Hersh (“Learn to Sing Like a Star”); Besnard Lakes (“The Besnard Lakes”); José González, que finalmente dá continuidade a “Veneer”, (“In Our Nature”); e Soulsavers, que experimentam pela primeira vez a voz de Lanegan, (“It’s Not How Far You Fall, It’s the Way You Land”). Os Unkle, com “War Stories” e Cinematic Orchestra, com “Ma Fleur” são, no entanto, os maiores destaques deste conjunto de nomes. Dois trabalhos maiores que marcam regressos fortes, ambos na sequência de trabalhos anteriores modestos: “Never, Never, Land” no caso dos primeiros, “A Man With a Movie Camera” em relação aos últimos.

Os Wilco lançam “Sky Blue Sky” cimentando uma carreira já muito sólida; os Kings of Léon revelam o seu terceiro registo, “Because of the Times”, garantindo reconhecimento unânime; igualmente ao terceiro lançamento e com a mesma excelente crítica, chega “Our Love to Admire” dos também americanos Interpol. Frog Eyes (“Tears of the Valedictorian”); Blitzen Trapper (“Wild Mountain Nation”); !!! (“Myth Takes”); Stars (“In Our Bedroom After the War”); Earlies (“The Enemy Chorus”); Go! Team (“Proof of Youth”); PJ Harvey (“White Chalk”); e Rufus Wainright (“Release the Stars”) editam todos após 3 anos sem gravar originais.

No entanto são Feist (“The Reminder”), Blonde Redhead (“23”) e Iron & Wine (“The Shepherds Dog”) que, graças a 3 obras excepcionais, se destacam das restantes referências deste conjunto.

Nick Cave marca intervalo nos Bad Seeds e forma (também com músicos da sua banda de apoio) os Grinderman. Procura, com êxito, desenvolver a camaradagem criativa (ausente desde os tempos dos Birthday Party, pelo menos com esta importância) que apenas se adquire no contexto de banda. Assina, juntamente com a restante formação, uma excelente complemento ao seu currículo ímpar.

Os Arcade Fire ponderam durante três longos anos o sucessor do aclamado “Funeral”. Talvez receando aceder inconscientemente ao convite para dar um passo maior do que a perna, dedicam-se a desenhar um descendente que prescindisse de impacto semelhante, que nunca conseguiriam num segundo trabalho, mas que demonstrasse crescimento e maturidade; que definisse a personalidade que, embora aparentemente segura, é, eventualmente, vaga e frágil por depender ainda de uma só aparição em LP. “Neon Bible” é um tiro certeiro: revela a tal maturidade e crescimento, e confirma os Arcade Fire como um dos grandes talentos da década.

“We Were Dead Before the Ship Even Sank”, é o nome do regresso dos Modest Mouse, agora com a companhia da guitarra dos Simths, Johnny Marr. Tal como o anterior “Good News for People Who Loves Bad News”, também este mostra um colectivo adulto e de ideias definidas que vai elevando racionalmente o seu peso no panorama indie do nosso tempo. Chegam a 2007 reforçados na formação e em excelente forma, que lhes vale a criação do, quanto a mim, melhor álbum do ano.

O grupo de discos seguinte é, previsivelmente, o maior. São portanto os que aguardam o ciclo normal de dois anos para dar continuidade ao trabalho anterior. Para alguns é a prova de fogo; o segundo e decisivo álbum que colhe a obrigatoriedade de lançamento atempado e debaixo de compromisso de modo a evitar o esquecimento do público e o consequente desperdício de todo o prestígio conquistado. Como, por exemplo, “Our Earthly Pleasures” dos ingleses Maxïmo Park; o decepcionante “Some Loud Thunder” dos Clap Your Hands and Say Yeah de Alec Ounsworth; o regular “An End Has a Start” dos Editors; “The Bird of Music”, a reposta das Au Revoir Simone; “Sound of Silver”, o excelente regresso dos LCD Soundsystem; e “A Weekend in the City” dos Bloc Party.

Mas nenhum deles supera a volta dos Kaiser Chiefs com “Yours Truly, Angry Mob” nem “Cryptograms”, novo dos americanos Deerhunter.

Zita Swoon (“Big City”); God Is an Astronaut (“Far from Refuge”); Devendra Banhart (“Smokey Rolls Down Thunder Canyon”); Okkervil River (“The Stage Names”); Björk (“Volta”); Animal Collective (“Strawberry Jam”); White Stripes (“Icky Thump”); New Pornographers (“Challengers”) são exemplos de outros nomes não editavam desde 2005, mas de bandas mais experientes que nos habituaram a lançamentos regulares.

Destaco no entanto os terceiros álbuns de Malcolm Middleton que, com Aidan Moffat, completava o núcleo criativo dos Arab Strap, “A Brighter Beat”; CocoRosie “The Adventures of Ghosthorse and Stillborn”; e Patick Wolf com “Magic Position” que lhe dá o reconhecimento geral e o incluí no grupo dos valores seguros nascidos e criados nesta década.

Dois anos foi também o tempo que Bill Callahan demorou a abandonar a designação Smog para trazer “Woke on a Whaleheart” como seu primeiro trabalho em nome próprio. Os National fazem por manter a boa impressão causada pelo anterior e lançam o agradável “Boxer”; os Piano Magic conseguem o seu primeiro grande álbum da carreira que dura já desde 1996: “Part Monster” terá sido, quanto a mim, um dos melhores discos do ano. Ainda melhor foi “The Western Lands”, o genial quarto disco dos Gravenhurst. Os Gogol Bordello conseguem a visibilidade que desde 1999 procuravam: “Super Taranta” abanou a crítica colocando, inclusive, o excêntrico Eugene Hütz a trabalhar, pasme-se, com Madonna. Os Bright Eyes conservam a alta disponibilidade para gravar e apresentam o sétimo álbum em 9 anos: “Cassadaga”.

Andrew Bird (“Armchair Apocryoha”) fornece mais uma excelente obra; Kevin Drew (“Spirit If…”), membro dos Broken Social Scene mostra-se pela primeira vez a solo; e os Spoon (“Ga ga ga ga ga” ), ao sexto álbum, parecem não saber como parar de crescer.

Architecture in Helsinki (“Places Like This”); Angels of Light (“We Are Him”); Clientele (“God Save the Clientele”); Low (“Drums and Guns”); Of Montreal (“Hissing Fauna, Are You Destroyer?”); New Pornographers (“Challengers”); Black Rebel Motorcycle Club (“Baby 81”); e Laura Veirs (“Saltbreaker”) são outros nomes com álbum editado 2 anos antes.

Chegamos então àqueles que apresentam em 2007 lançamentos que sucedem a outros de 2006. Neste lote incluem-se “Bitter Tea” que reafirma a sede de música dos Fiery Furnaces, chegam ao sexto disco em quatro anos; “Stagelet”, de Grant-Lee Phillips, que dá sequência ao álbum de versões do ano anterior: “Nineteeneighties”; “Country Mouse, City House” de Josh Rouse; “Shelter from the Ash” dos Six Organs of Admittance; e um álbum sem título dos Liars: todos nomes experientes que vão aumentando o seu repertório a bom ritmo.

Band of Horses (“Cease to Begin”); Beirut (“The Flying Club Cup”); She Wants Revenge (“This Is Forever”); Arctic Monkeys (“Favourite Worst Nightmare”); e Felice Brothers (“Tonight at the Arizona”) conseguem todos eles editar o segundo trabalho no ano seguinte à estreia. Sendo que os Sunset Rubdown atingem a proeza de lançar o terceiro álbum, “Random Spirit Lover”, dois anos após o primeiro.

Os Two Gallants conseguem um reconfortante terceiro álbum; e Nina Nastasia, um ano após “On Leaving” junta-se a Jim White, baterista dos australianos Dirty Three, e constroem “You Follow Me”.

Finalmente, os estreantes:

2007 revelou, à partida, dois nomes incontornáveis quando se fala nos melhores desse ano: Mother Mother e Kiss the Anus of a Black Cat. “Touch Up”, estreia estrondosa dos Mother Mother, reforça o importante contributo do Canadá na década em curso: não só traz música de excelente qualidade como também, e acima de tudo, revela os projectos que mais surpreendem, à custa de uma criatividade que parece inesgotável. O segundo, o do nome repugnante – mas igualmente hilariante –, é um projecto do belga Stef Heeren que procura conjugar a agressividade e a actualidade das guitarras com ambiências medievais.

Damon Albran continua a inventar projectos: depois dos Gorillaz, decide juntar o baixo dos Clash, com uma guitarra familiar aos Verve e a bateria de Fela Kuti para dar corpo a um projecto sem nome mas com um excelente disco baptizado de “The Good, the Bad and the Queen”.

Também do Canadá, mas já com obra feita no seio da turma artística Black Mountain Army (que incluí os Pink Mountaintops e os Black Mountain), chegam os Lightning Dust. Cumprem as expectativas que trabalhos anteriores desta seita despertaram.

Repetindo o aproveitamento eficaz que os Arctic Monkeys fizeram da Internet para se promoverem ainda antes de qualquer álbum disponível, os Klaxons lançam “Myths of The Near Future”.

Twilight Sad (“Fourteen Autumns and Fifteen Winters”); Handsome Furs (“Plague Park”); Postmarks (“The Postmarks”); Begushkin (“Nightly Things”); e Kissaway Trail (“Kissaway Trail”) são as restantes estreias de um ano que abranda a qualidade em relação aos dois anteriores.

Ver também:
Anos 00: balanço - Introdução; 2000; 2001; 2002; 2003; 2004; 2005; 2006

4 comentários:

Nuno disse...

Mais uma leitura sempre abrir de um balanço num outro formato que resultou muito bem.
Perante uma acesso quase desmedido a tanta oferta um naipe de escolhas e referências superiormente equilibrado.
Aguardemos por mais sugestões :)
Quanto ao ligeiro abrandamento, penso que os dois últimos anos o vão compensar e de que maneira, certo?
Parabéns.

p disse...

tem piada que tens ali um parágrafo #dos de 2006 para 2007", que me lembro perfeitamente de no fim desse ano ter escrito uma coisa sobre 4 deles e que foram um bocadinho uma desilusão.
primeiro beirut, que me cansou, saturou-me os sentidos tipo despertador que só apetece martelar; talvez precisasse de ter saudades de o ouvir para poder gostar do álbum como deve ser.
depois band of horses, que também achei o álbum bem menor que o outro, e que felizmente não insisti, pelo que agora já gosto :)
she wants revenge é que foi uma desilusão séria, para mim tinha sido o melhor de 2006, o mais consistente e inovador de todos; e depois vi-os ao vivo e ainda mais fiquei a gostar deles (aquele homem em palco, meu deus! se isto não fosse um sítio sério até era capaz de largar já uma asneira :)). este segundo parecia o refugo do primeiro, não há nada de novo, parece-me tudo igual, detestei, e ainda hoje mal o consigo ouvir; só se estiver muito distraída.
o mesmo com os arctic monkeys, mas com menos ligação emocional, por isso mais indiferente. gostei da putalhada toda histérica no concerto, da velocidade de execução em palco que foi impressionante, do estilo teen meio atrofiado que lhes dá uma franqueza diferente na forma como tocam a música.
achei piada que os tivesses colocado todos juntos e só agora me dei conta do porquê; isto quem percebe a sério, percebe mesmo, os outros, como eu, limitam-se a apanhar bonés pelo caminho e dão-se por contentes ;)

ainda nesse ano não gostei dos metric, que depois vim a saber que o álbum tinha sido gravado em 99 e lançado com arranjos em 2007.

Joao disse...

Nuno,

Também me parece que vai haver novo impulso a empurrar o abrandamento. Já dei uma vista de olhos ao ano passado e parece de facto que sim. Como este 2009dispensa 'vistas de olhos', um final de década em grande é mesmo garantido.

P,

De facto há uma conclusão óbvia a tirar desse parágrafo. Estão juntos porque todos eles editam um sempre fulcral segundo álbum no ano seguinte à estreia.

A conclusão é que talvez seja conveniente ser mais prudente. Penso que, com a excepção dos Felice Brothers e dos Band of Horses, todos os outros cairam bastante.

O caso dos She Wants Revenge foi o que mais me custou. Adorei a estreia deles. Coisas como Interpol, Editors ou National, que gostava mas que não revelam qualquer novidade (prendiam-me sobretudo pela simpatia e gosto que tenho pelas suas referências)foram autentimente refrescadas pelos She Wants Revenge. Mostraram que é possível ser mais criativo escolhendo os mesmos pontos de referência.

No ponto oposto a estes apressados por editar novos discos temos os Arcade Fire (que demoraram 3 anos a gravar o segundo). Reparemos nas diferenças :)

Obrigado pelo elogio, talvez um pouco exagerado :)

p disse...

João, quanto ao elogio, justamente, reparemos nas diferenças ;)

Quanto ao p. o nome é pli, não me dou bem com o facto de estar a comentar-te sem nome próprio.
só não está no perfil devido a ser incomum e porque os users do blogger entram nos motores de busca do google e, nem sempre temos a liberdade que desejamos :)