18 dezembro 2009

Anos 00: balanço - 2008

Spiritualized: "Songs in A&E"


A dois anos do final da década, o destaque vai quase todo para os veteranos. Fica desta forma entregue o remate dos anos 00 para quem o merece: as personagens nascidas entre 2000 e 2009. E fica explicado por quem sabe como se termina um ciclo de 10 anos ao melhor nível.

De novo, um novo ano rico em estreias:

As surpresas MGMT (“Oracular Spectacular”) e Vampire Weekend (“Vampire Weekend”), que alcançam números de respeito nas tabelas de vendas, ou a americana Santogold (“Santogold”) impressionam a crítica e conquistam imediatamente o seu espaço. Para além destes, registo para a espanhola Russian Red (“I Love Your Glasses”); Noah and the Whale (“Peaceful, the World Lays Me Down”); No Kids (“Come Into My House”); Get Well Soon (“Rest Now, Weary Head! You Will Get Well Soon”); Crystal Castles (“Crystal Castles”); Megapuss (“Surfing”); Ra Ra Riot (“The Rhumb Line”); Black Kids (“Partie Traumatic”); These New Puritans (“Beat Pyramid”); Pomegranates (“Everything Is Alive”); Airborne Toxic Event (“The Airborne Toxic Event”); e o novo projecto a solo de Bradford James Cox, Atlas Sound (“Let the Blind Those Who Can See But Cannot Feel”).

Contudo, são os três nomes seguintes que verdadeiramente impressionam: Fleet Foxes (Fleet Foxes”) que, no final do ano, atingem vendas de 100,000 cópias só em Inglaterra graças a um disco espantoso, dos melhores do ano; Guter Twins (“Saturnalia”), que nasce em 2003 a partir da união de Mark Lanegan – personagem marcante da década em curso - com Greg Dulli, materializa em 2008 a parceria num álbum de grande qualidade; e Justin Vernon (“For Emma, Forever Ago”) que se refugia durante 3 meses numa cabana isolada no Wisconsin para conceber o novo projecto denominado de Bon Iver valendo-lhe um trabalho sublime.

Ainda em relação a estreantes, duas derradeiras referências para dois projectos envolvendo nomes de bandas de referência da actualidade: Little Joy (“Little Joy”), que une Rodrigo Amarante (Los Hermanos) e Fabrizio Moretti (Strokes); e Last Shadow Puppets (“The Age of the Understatement”) que junta Alex Turner (Arctic Monkeys) a Miles Kane (Rascals) e ao compositor e produtor James Ford.

No entanto, quis o destino que 2008 fosse dos crescidos. Meia dúzia de obras-primas mostram, por quem sabe, como se faz um ano de música brilhante. De todos eles, destaco cinco (por ordem crescente de preferência):

“Accelerate”. Em 1994, os R.E.M. tentam um álbum que faz falta a qualquer mega banda com carreira acima dos dez anos de existência – como já era o caso. Em Setembro desse ano era lançado o trabalho mais cru, mais directo, enfim, mais rock dos R.E.M., "Monster". Embora bastante apreciado pela crítica e por grande parte dos fãs, o objectivo não foi totalmente alcançado revelando-se um disco bem menos cativante que a generalidade dos seus trabalhos. 14 anos mais tarde compensam a decepção com um disco forte e irresistível. As dúvidas estão definitivamente dissipadas.

“Dig, Lazarus, Dig!!!”. No ano seguinte à estreia dos Grinderman, Cave convoca o resto dos Bad Seeds e grava o seu último registo até à data. Já com 51 anos de idade e 13 álbuns anteriores a solo, “Dig, Lazarus, Dig!!!” marca a despedida de Mick Harvey e o desenvolvimento da ausência de Blixa Bargled. Mas nenhum destes acidentes afecta Nick Cave, que assina o seu melhor trabalho durante a década.

“The Hungry Saw”. Finalmente a regeneração que tanto se ansiava dos Tindersticks. Após 3 álbuns gravados entre o final da década passada e início desta que se revelaram bastante abaixo das suas capacidades, chega finalmente um álbum que, mantendo-se a menor irreverência em relação aos primeiros, ganha-lhes em maturidade. A genialidade e talento são finalmente recuperados intactos e em excelente estado de conservação.

“Third”. Os anos de silêncio sem explicação convincente acabam em Abril. Nesse mês é lançado o terceiro álbum dos Portishead. Foram onze anos de espera por novidades. “Third” desilude quem esperava por um novo “Dummy”, mas convence quem está ciente do contexto. Não apaga a saudade dos primeiros álbuns, no entanto confirma que o tempo de ausência não os enferrujou.

“Songs in A&E”. Por último, Spiritualized. Jason Pierce não aparecia há 5 anos. Esteve afastado por motivo de doença que quase lhe tirava a vida. Nunca se irá saber com rigor, mas as dificuldades para segurar a sua existência parecem ter provocado um reboot à sua criatividade. O apagado “Amazing Grace” fica assim para trás, escondido entre dois discos de referência de uma década que acaba para o génio de Pierce com distinção elevada. “Songs in A&E” é um álbum afectado pela luta pela vida, ou pela experiência de quase morte; é ainda uma obra pura, genial e honesta. E é de longe o melhor deste ano.

A juntar a estes, os enormes trabalhos dos igualmente experientes Mountain Goats (“Heretic Pride”) que atingem a impressionante marca de 16 álbuns; Cure (“4.13 Dream”) que reaparecem para cumprir o hábito de gravar de quatro em quatro anos que dura há mais de década e meia; Lambchop (“OH [Ohio]”) que se mantêm de boa saúde ao fim de 22 anos de carreira; e Bonnie ‘Prince’ Billy (“Lie Down in the Light”).

Pelo peso da sua história, importa lembrar também o regresso completamente fora de prazo dos Bauhaus a partir de uma reunião para reavivar a banda histórica ao vivo e para gravar o 5º álbum, interrompendo uma morte que durava há quase 25 anos: “Go Away White”; a longevidade desinteressante dos Cranes que editam álbum homónimo; os dEUS que duram desde 1989, embora com poucos pontos comuns a essa data, continuam com “Vantage Point”; e as Breeders que explodiram em 1993 com o seu segundo álbum Last Splash, lançam agora o apagado “Mountain Battles”;

Tricky já não gravava de 2003, reaparece com “Knowle West Boy”; Magnetic Fields havia estourado com o compêndio de música chamado “69 Love Songs” em 1999, arrastam-se no tempo com “Distortion”; os Mercury Rev, embora conquistem a crítica com “Snowflake Midnight”, não conseguem fazer diminuir a saudade de “Deserter’s Songs”; a nova Era iniciada 4 anos dos American Music Club de Mark Eitzel, após uma interrupção de 10, evoluí com “The Golden Age”; Beck lança “Modern Guilt”, o seu 11º disco, no dia em que faz 38 anos; e Aimee Mann chega ao seu 7º trabalho: “@#%&*! Smilers”. Todos eles regressam sem o fulgor do passado, contudo conseguem trabalhos aceitáveis.

A dupla Isobell Campbell e Mark Lanegan baixa em relação à estreia com “Sunday at Devil Dirt”. Tom Morello insiste no projecto Nightwatchman e lança “The Fabled City”. Os Sigur Rós entusiasmam novamente. No entanto “Með suð í eyrum við spilum endalaust” parece ser o primeiro a mostrar sinais de desgaste. Willard Grant Conspiracy consolidam o destaque que vêm adquirindo com os últimos trabalhos e apresentam “Pilgrim Road”. Os Mogwai continuam a demonstrar o seu carácter agora através de “The Hawk Is Howling”.

Outros nomes da mesma faixa etária surgem numa segunda linha de qualidade: Malcolm Middleton mantém aceitação da crítica com “Sleight of Heart”; Thee Silver Mt. Zion Memorial Tra-La-La Band (ou Thee Silver Mt. Zion) com quase 10 anos de existência, lançam “13 Blues for Thirteen Moons”; os Elbow com o apreciável “The Seldom Seen Kid”; os ingleses Clinic (“Do It!”) que mantêm a regularidade; e Calexico com o bastante aceitável “Carried to Dust”.

Dos inúmeros nomes que a década já produziu, destaco os Why? e o fantástico “Alopecia”; os Walkmen que conseguem, para mim, o seu melhor trabalho com “You & Me”; os TV on the Radio, já com 2 álbuns seguros, que lançam “Dear Science”; os Raconteurs que elevam ainda mais a fasquia com o calculista “Consolers of the Lonely”; os Postmarks que apostam num álbum de versões chamado “By the Numbers” no ano seguinte à estreia; e os Beach House que editam o aclamado “Devotion”.

Destroyer (“Trouble in Dreams”); Dears (“Missiles”); Wolf Parade (“At Mount Zoomer”); Black Mountain (“In the Future”), são nomes que, para além de terem em comum o facto de realizarem bons discos em 2008, partilham também o país de origem. Estão aqui juntos para ilustrar a importância do Canadá como força motriz da década. Facto que já foi referido diversas vezes durante este balanço.

Okkervil River (“The Stand Inns”); M83 (“Saturdays = Youth”); God Is an Astronaut (“God Is an Astronaut”); Death Cab for Cutie (“Narrow Stairs”); Kills (“Midnight Boom”); Department of Eagles (“In Ear Park”); Of Montreal (“Skeletal Lamping”); My Morning Jacket (“Evil Urges”); Brightblack Morning Light (“Motion to Rejoin”); Black Angels (“Directions to Seek a Ghost”); e Joan As Police Woman (“To Survive”) são outras referências que importa destacar.

Os Mother Mother (“O My Heart”) e Kiss the Anus of a Black Cat (“The Nebulous Dreams”) baixam em relação à estreia do ano anterior.

Woven Hand com “Ten Stones”; Sons and Daughters com “This Gift”; Micah P. Hinson com “Micah P. Hinson and the Red Empire Orchestra”; e Shearwater “Rook”: quatro que coincidem no facto de terem já realizado álbuns bem superiores. Não desiludem, mas não conseguem patentear a qualidade já demonstrada antes. À semelhança dos dois referidos no parágrafo anterior, contudo com mais tempo de actividade.

Bem aceitáveis foram “Microcastle”, o terceiro dos Deerhunter; “Only By the Night”, o sucessor de “Because of Times” dos Kings of Léon; “The Felice Brothers”, terceiro dos Felice Brothers que apenas contam com 2 anos de existência; “Made in the Dark”, terceiro dos londrinos Hot Chip; e “A Mad & Faithful Telling”, dos DeVotchKa.

Da nova geração, as principais decepções foram os Bloc Party (“Intimacy”); os Guillemots (“Red”); os Killers (Day and Age); e os Kaiser Chiefs (“Off with Their Heads”).

Este capítulo termina com a vénia a Manel Cruz. A ausência de música portuguesa neste balanço é escandalosamente evidente. Não por falta de interesse, não por falta de valor ou qualidade. Muito pelo contrário: sempre apreciei o que por cá se faz. Por motivos pessoais ou simplesmente por um constrangimento patético, não me sinto à altura de retratar a evolução da nossa Música que, sublinho, é tão ou mais valiosa que a outra. No entanto “Foge, Foge Bandido” obriga-me a contrariar esta discriminação cobarde. Tem de ser dito: trata-se de um disco simplesmente fabuloso e obrigatório para qualquer apreciador de grandes obras, seja de que lugar do mundo for.

Ver também:
Anos 00: balanço - Introdução; 2000; 2001; 2002; 2003; 2004; 2005; 2006; 2007

1 comentário:

Nuno disse...

Muito bom.
Num ano de grandes discos, memoráveis os regressos, as estreias e as surpresas.
Uma década com valor próprio a que o ano que estamos a encerrar, a vai projectar para sempre.
Vejo-os aqui praticamente todos, talvez não pela mesma ordem crescente :)
Mas isso é absolutamente secundário e relativo, fica mais um texto de elaboração exemplar e fluída.
E o destaque dado ao músico português da década, assenta-lhe mesmo bem.
Parabéns.