23 dezembro 2009

Anos 00: balanço - 2009

The Decemberists: "The Hazards of Love"


A década desagua num ano perfeitamente expressivo e pleno de qualidade. A enorme quantidade de destaques implica um retrato breve dos mais importantes, para tentar não omitir nenhum.

A viagem retrospectiva pelos 10 últimos anos está agora perto do fim. Para o derradeiro capítulo, opto por uma ordenação que obedece aos subgrupos a que a minha mente recorre para fixar e arrumar a música que ouço. Não que seja defensor de rótulos e etiquetas, até porque penso que essas qualificações inferiorizam as bandas, limitam-nas, generalizando a criatividade e a própria identidade. Por outro lado, é uma ordenação subjectiva, já que a forma como a disponho pode ser baseada em referências ou pontos que só eu considero comuns, como ouvinte particular, diferente de todos os outros. Correndo o risco de ignorar outros pontos de contacto que não sou capaz de captar e que podem ser evidentes a todos.

Apesar de todas as desvantagens, foi este o caminho escolhido: pela falta de alternativas e pela necessidade de estruturar um número enorme de obras obrigatórias que corriam o risco de perder destaque por falta de organização.

Se 2008 foi fortemente valorizado pelos crescidos, em 2009 a lição parece ser devidamente apreendida pelos mais novos, proporcionando um ano notável em todas as vertentes da nova música independente.

Se olharmos, para começar, para o lado mais pop da música indie, 2009 trouxe a obra-prima “Dark Night of the Soul” interpretada por um naipe luxuoso de artistas escolhidos pela dupla Danger Mouse e Sparklehorse, que culmina num disco que celebra uma colaboração iniciada por altura de “Dreamt for Light Years in the Belly of a Mountain”.

Para além deste, há as estreias altamente positivas de Fanfarlo (“Reservoir”) e Temper Trap (“Conditions”), a que se junta o novo projecto de Stuart Murdoch, voz dos Belle & Sebastian, agora vestindo a capa de God Help the Girl, que apresenta um disco com o mesmo nome.

Clientele (“Bonfires on the Heath”); Camera Obscura (“My Maudlin Career”); Eels (“Hombre Lobo”) são outros nomes com registos dignos de nota. E até os Madness cabem aqui graças ao gracioso “The Liberty of Norton Folgate”.

Mas são os singer-songwriters que verdadeiramente se destacam. Uma tendência, aliás, já patente nos anos anteriores. A década formou, por um lado, uma série de vultos celebrizados por obra assinada em nome próprio e, por outro, consagrou alguns que já vinham de trás.

Antony and the Johnsons (“The Crying Light”); Devenda Banhart (“What Will We Be”); Patrick Watson (“Wooden Arms”); e Andrew Bird (“Noble Beast”): todos eles foram responsáveis por novas criações sublimes. A que se juntam os agradáveis “The Bachelor” de Patrick Wolf; “Sometimes I Wish We Were an Eagle” de Bill Callahan; “Waxing Gibbous” de Malcolm Middleton; "Catacombs" de Cass McCombs; “Years of Refusal” de Morrissey; “Hold Time” de M. Ward; “There Is an Ocean that Divides” de Scott Matthew; “Elvis Perkins in Dearland” de Elvis Perkins; “At the Cut” de Vic Chesnutt; "Beware" de Bonnie ‘Prince’ Billy; "The BQE" de Sufjan Stevens; “Little Moon” de Grant-Lee Phillips; “Further Complications” de Jarvis Cocker; e “Klamath” de Mark Eitzel. As senhoras Neko Case com “Middle Cyclone”; Shannon Wright com “Honeybee Girls”; Hope Sandoval com “Trough the Devil Softly”; P.J. Harvey junto a John Parish com "A Woman a Man Walked By"; Mirah com "(a)spera"; Laura Gibson com “Beasts of Seasons”; Lisa Germano com “Magic Neighbor”; e Nancy Elizabeth com “Wrought Iron” dão contributo de peso com obras de elevado valor.

A estes associa-se o estreante Julian Plenti, que altera o nome conhecido como membro dos Interpol para lançar “Julian Plenti Is… Skycraper”. Assim como Julian Casablancas e Alec Ounsworth, que interrompem a carreira nos Strokes e nos Clap Your Hands Say Yeah para editar “Phrazes for the Young” e “Mo Beauty” respectivamente. Com menos tempo de carreira, estreiam-se também Doveman e o excelente “The Conformist”; Florence and the Machine igualmente em destaque com “Lungs”; e Emmy the Great com o magnífico “First Love”. Mas a novidade com maior brilho dos novos cantautores vai sem dúvida para o espantoso álbum “Up from Below” de Edward Sharpe and the Magnetic Zeros.

Deste grupo, deixei para o fim dois nomes que dedicaram o ano a discos de versões: primeiro Joan As A Police Woman, que lança o competente “Cover”; depois, Micah P. Hinson, que edita o histórico “All Dressed Up and Smelling of Strangers”. Sem medo, Micah pega nos maiores monstros, desencaixa as peças e molda-as com a sua personalidade e voz para as juntar novamente e torná-las, não melhores, mas igualmente assombrosas, sem nada ficar a dever aos intocáveis originais.

2009 foi um ano quase tão forte para a ala mais folk – tendência igualmente de destaque na década, inspiradora de inúmeros prodígios da música indie durante os últimos anos.

Regressam os Kings of Convenience (“Declaration of Dependence”); os Hidden Cameras (“Origin: Orphans); os Mountain Goats (“The Life of the World to Come”); e os Gomez (A New Tide”).

No entanto, ninguém regressou melhor que os Decemberists. Depois de diversas ameaças, através de um crescimento marcado a cada novo trabalho, é com “The Hazards of Love” que finalmente atingem o cume reservado aos melhores. Para os Decemberists, a década 00 é de enriquecimento paulatino, que culmina no merecido álbum do ano.

Wilco (“Wilco (The Album)”); Noah and the Whale (“The First Days of Spring”); Avett Brothers (“I and Love and You”); Antlers (“Hospice”); e Vetiver (Tight Knit”) conseguem todos superar os registos anteriores oferencendo, também eles, excelentes discos. Willard Grant Conspiracy continua a solidificar curriculo, agora com “Paper Covers Stone” e Swell Season cresce com “Strict Joy”.

A estreia apagada do novo projecto de Neil Hannon, Duckworth Lewis Method, contrasta com a valia de álbuns como “Monsters of Folk” do novo supergrupo com o mesmo novo. Mas são as novidade “Sigh No More” dos Mumford and Sons e “Oh My God, Charlie Darwin” dos Low Anthem que valorizam mais este lote de estreantes.

Na vertente mais rock, que regressou forte durante a década com projectos como os Strokes, os Franz Ferdinand, que neste ano editam “Tonight: Franz Ferdinand”, os Arctic Monkeys que, apesar de tudo, cumprem com “Humbug”, ou mesmo os Yeah Yeah Yeahs, que constroem “It’s Blitz!”, não encontram a mesma disponibilidade e energia do público para consumir a sua música como há dois pares de anos atrás. Vão-se registando alguns desvios como Cymbals Eat Guitars (“Why There Are Mountains”); Girls (“Album”); Felice Brothers (“Yonder Is the Clock”); e Heartless Bastards (The Mountain”) que refrescam a corrente. Para além destes, cumprem outros mais antigos, por exemplo: Sonic Youth (“The Eternal”); Iggy Pop (“Préliminaires”); ou mesmo Kasabian que, dando ideia pela passado recente de não ter já muito a acrescentar, apresentam o positivo “West Ryder Pauper Lunatic Asylum”; e até Dead Weather que, apesar da designação recente, ostenta nomes todos eles já feitos, encabeçados por Jack White, sempre disponível para novos projectos de interesse, desta vez para “Horehound”.

No entanto, previsivelmente destaca-se …And You Will Know Us by the Train of Dead de quem se esperava a todo o momento a obra que os consagrasse; chegou com o sensacional “The Century of Self”.

Igualmente previsível foi o competente “Kicks” dos 1990s. Assim como Bravery que, sem surpresa, arrastam-se pela mediocridade de “Stir the Blood”.

Isto num ano que ainda teve espaço para novo dos Maxïmo Park (“Quicken the Heart”); para a nova ideia de Frank Black de dar vida a Grand Duchy que se estreia com o desinteressante “Petits Fours”; e para o novo contributo para a moda dos supergrupos com Them Crooked Vultures.

Num outro contexto que incluí o uso de teclados e ambiente dream pop, referência positiva para o duplo lançamento de Asobi Seksu (“Hush” e “Rewolf”); para a estreia de Fever Ray com álbum homónimo; para novo de originais dos Postmarks (“Memoirs at the End of the World”); e para a confirmação das Au Revoir Simone (“Still Night, Still Light”).

Bat for Lashes surge com “Two Suns” e Elysian Fields reaparece com “The Afterlife”. Bem mais apagados, de novo Air com “Love 2”; e Zero 7 com “Yeah Ghost”.

No entanto, apesar do incremento de sofisticação e informatização da palete de sons que vai afectando o aspecto da nova Música, os anos 00 aproveitam os recursos com maior história abrindo novos caminhos possíveis para ambientes onde a guitarra adquire papel mais relevante. Desde o denominado shoegazing mais carregado até ao recente revivalismo post-punk, tudo foi explorado, resultando daí diversas obras de eleição. 2009 foi exemplificativo, amplificando mesmo o peso destas abordagens.

Lightning Dust, Pink Mountaintos e Soulsavers conseguem os seus melhores trabalhos, respectivamente “Infinite Light”, “Outside Love” e “Broken”. São 3 obras de excelência que muito enriquece um ano com aspecto de melhor da década.

Os próprios Doves renascem com o apreciável “Kingdom of Rust”; e tanto os Piano Magic como os Archive sobrevivem com habilidade aos categóricos “Part-Monster” e “Lights” editados anos antes. Os Archive trazem “Controlling Crowds” e os Piano Magic “Ovations”.

Isto para além das estreias, também obrigatórias neste balanço. A começar pelos Pains of Being Pure at Heart com um prometedor álbum sem nome, passando pelo excelente “A Brief History of Love” dos Big Pink e culminando em “Checkmate Savage” dos Phantom Band.
Six Organs of Admittance ("Luminous Night"); Black Heart Procession ("Six"); Mono ("Hymn to the Immortal Wind"); Echo and the Bunnymen ("The Fountain") conseguem todos novo trabalho altamente satisfatório.

A terminar esta secção, referência para o discreto segundo dos Handsome Furs (“Face Control”); e o decepcionante “In This Light and On This Evening” dos Editors.

Por último, a fatia mais experimental, aquela onde o arrojo, seja a nível da composição ou da própria textura e produção, é mais posto à prova. Vertente que, para não fugir à regra do ano, expôs discos memoráveis.

A arrancar pela estreia estrondosa dos xx (“xx”), a que se acrescenta a também novidade Passion Pit com “Manners”.

“Veckatimest” veio confirmar os Grizzly Bear como projecto de peso da década e os Why? excedem o grande “Alopecia” com o ainda melhor “Eskimo Snow”. Ainda com grande destaque pela elevada qualidade, Harlem Shakes ("Technicolor Health"); Miles Benjamin Anthony Robinson ("Summer of Fear"); Mount Eerie ("Wind’s Poem"); e Twilight Sad ("Forget the Night Ahead")

No mesmo cenário, os Animal Collective reforçam o seu peso no panorama indie com “Merriweather Post Pavilion”. Fiery Furnaces não arranjam forma de abrandar e regressam com dois: “I’m Going Away” e “Take Me Round Again”. Os Califone exibem o magnífico “All My Friends Are Funeral Singers”.

Flaming Lips (“Embryonic”); Pomegranates (“Everybody Come Outside”); Sunset Rubdown (“Dragonslayer”); Yo La Tengo (“Popular Songs”); Swan Lake (“Enemy Mine”) apresentam registos regulares e esperados.

Quase no final deste capítulo, os Dirty Projectors arremessam “Bitte Orca”. Fuck Buttons com “Tarot Sport”; Atlas Sound com “Logos”; e Tortoise, mais antigos, com “Beacons of Ancestorship” completam as últimas referências dignas de um ano ímpar.
Apesar de, ao longo destes textos, não haver referências a compilações que reunem contribuições de várias bandas ou artistas a solo, não é possível deixar de lembrar o grande lançamento da editora 4AD ("Dark Was the Night") que conseguiu reunir um naipe de nomes de relevo incontestável no panorama indie da década. A sua audição é obrigatória para alguém que deseje compreender melhor ouvindo o que estes resumos tentaram explicar por palavras.

Tudo isto floresceu num ano de eleição em que os inúmeros pontos altos resultam no texto mais longo deste balanço, que termina durante a próxima semana com a respectiva conclusão.

Ver também:
Anos 00: balanço - Introdução; 2000; 2001; 2002; 2003; 2004; 2005; 2006; 2007; 2008



13 comentários:

Nuno disse...

Um ano repleto de sons inesqueciveis, concertos memoraveis e com criatividade exacerbada.
Um texto longo que se torna infimo no final da leitura: muito bom.
E com 2010 a mostrar já trabalhos de potência incontrolável, que tal termos por aqui palavras sobre o que sobressaiu mensalmente? Temos desafio? I'm in :)

telheiro disse...

Que grande ano em termos de música! Fiquei surpreendido com a tua escolha para melhor do ano...

A minha lista é enorme por isso coloco os que para mim foram os 5 melhores do ano:
1. Florence and the Machine - Lungs
2. Andrew Bird - Noble Beast
3. Kasabian - The West Rider Pauper Lunatic Asylum
4. Patrick Wolf - The Bachelor
5. Morrisey - Years of Refusal

Como já te tinha dito acho que em 2009 merece ser destacado o trabalho da Flor Caveira, por tudo o que deu à música portuguesa

Joao disse...

Um ano tão bom que tive de esticar o texto para caber tudo que queria.

E 2010 já a exibir-se, sim senhor.

Já temos aí Yeasayer, Bech House (que desapareceu daqui graças à tua prespicácia) e Eels em grande.

Quanto ao desafio: vamos ver. Não parece má ideia.

Joao disse...

Boas, Telheiro!

Surpreendido?! Fartei-me de elogiar o The Hazards of Love. Estava mais que visto.

Já agora, qual pensavas que ia ser?

E a lista, carago! São tantos que só chegaste até aos cinco melhores :D Podias aumentar essa lista um pouco mais :)

Abraço

Joao disse...

Já agora aproveito para corrigir o erro medonho que está lá em cima: perspicácia, assim é que é.

pli disse...

eu também voto na cena mensal :)

pensei que este ano tinha sido meio rechemenga a nível de música e, agora, vou ter que imprimir o texto para ver se (ainda) me oriento.

telheiro disse...

Então e essas rabanadas, estavam boas?

Quanto à extensão da lista, não ia acrescentar nada aquilo que tu escreveste. Já para ordenar estes 5foi dificil.

Quanto a 2010, já rodam por aí o Dark Side of The Moon pelos Flaming Lips, o esperado álbum dos Delphic e - com esta não contava - o novo dos Get Well Soon.

Nuno disse...

a cena mensal a ganhar adeptos, assim como 2010, com mais estas pistas acrescentadas.
Quanto a rabandas: com queijo da serra por cima, está-se: na Twillight Zone.

Joao disse...

Pli,

Se não conheces bem alguns dos discos que elogio, corre já para eles. Tenho a certeza que num instante mudas de opinião. Até te dou lista de prioridades se quiseres, é só dizeres o que não conheces daí.

Joao disse...

Telheiro,

Ainda ando a tenter descobrir a surpresa dos Decemberists.

Quanto a este ano: Eels, já ouviste? É genial!

Os Get Well Soon ouvi hoje, ainda carece de audição mais atenta. Mas pareceu fixe.

Joao disse...

Nuno,

Ainda não percebi essa da cena mensal: escreve um à vez em cada mês ou andas a incentivar alguém com palmas? :D

Rabanadas com queijo da serra?! É com cada uma :S

telheiro disse...

João,

quanto aos Decemberists, estava à espera de outra coisa, até porque como já falamos anteriormente eu tendo a colocar este álbum como do ano passado. Mas pelo que fui falando contigo ao longo destes 12 meses, estava à espera And You Will Know Us by the Trail of Dead, Edward Sharpe,Dark Night Was The Soul.

Quanto aos Eels tenho de voltar a ouvir porque à primeira audição não me pareceu nada de especial... tenho de o ouvir melhor.

Neste momento estou a ouvir pela primeira vez o novo de Get Well Soon. Deixo a opinião para mais tarde :)... mas dá para ver que mantém o mesmo registo: música "bem recheada", ao estilo de Divine Comedy e de Spiritualized.

p disse...

João, obrigada pela oferta, mas são mesmo muitos :)
e eu sou um bocado mono-coisa, oiço só uma coisa de cada vez até esgotar. por isso, vou seguir o teu entusiasmo nas palavras. acho que deve bastar :)