19 janeiro 2010

Até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 20100119

a cada fim que a manhã atingia por ali voltava
quando a tarde zarpava e exercendo a preguiça se arrastava
- ali estava -
como dela nunca fosse abdicar até ser engolida pela
noite
que os braços do rio não invadiam esperando com paciência felina
a madrugada onde sempre a via retornar.

as palavras jaziam, assumindo a exaustão da escuta que
fulminavam e da atenção que não exigindo, ferozmente
provocavam como se de um movimento radicado nas profundezas
das fontes geradoras de ordens se tratasse.

tinham-se movido de um modo cadenciado sem olhar a
concessões ou manancial de aprovações, muito menos rumo
a uma satisfação de desejos em que não se queriam
envolvidas.

apenas queriam ser.

e eram tocadas, primeiro pelas mãos que as liam
mais próximas dessa forma, não negando a opressão que traziam
por de certo modo lhes atrapalharem a total liberdade
que aspiravam e a que queriam um fim, no sentimento misto,
que só o abandono e o atravessar dos dias sublinhado por uma
avidez de um olhar sabem soprar, levando ao enlear dos corpos.

aquelas palavras ao caírem no vórtice do som do choro
pelo reencontro: percussões que elevam coros; cores que preenchem
espaços de cordas e teclas que acomodam nervos e expulsam vozes
que as cantavam: às palavras dedilhadas por extremidades
que o já não eram; dedos desfeitos por golpes escondidos pela cortina
que tardava em cair, porque ela própria as queria a descoberto.

e a cada fim que a manhã atingia por ali voltava:
não permitia ao tempo outra hipótese
no campo negro a quem luz não concedia misericórdia

fendia as palavras, acorrentava-se fortemente ao ponto fixo: fulcro
de vontades sem explicação, que cada uma delas: as palavras
- sempre elas -
a faziam cair para ser entregue
ao que no fundo só poderia fazer sentido: a gesta das canções
onde a dança convive com os sonos eternos

- ontem zero10 intemporal, hoje a dispersão mitológica:
ou o acto de aproximação a um ponto e segui-lo: a vertigem há-de
descansar -

nelas: nas palavras e nas canções.



01. Gaiteiros de Lisboa - Movimentos Perpétuos - "Movimento Perpétuo" - 2003
02. The Decemberists - The Crane Wife - "Yankee Bayonet" - 2006
03. Sétima Legião - O Fogo - "Tão Só" - 1992
04. Deus - The Ideal Crash - "Instant Street" - 1999
05. The Divine Comedy - A Short Album About Love - "If ..." - 1997
06. Pearl Jam - Lisbon 040906 - "Black" - 2006
07. Tones On Tail - Pop - "Burning Skies" - 1984
08. James - I'm Your Fan - "So Long Marianne" - 1991
09. Cat Power - "The Greatest" - 2006
10. Wim Mertens - "Maximizing The Audience" - 1985
11. Zero 7 - Simple Things - "In The Waiting Line" - 2001
12. Peter Murphy - Should The World Fail To Fall Appart - "Final Solution" - 1986
13. Julee Cruise - Floating Into The Night - "Rockin Back Inside My Heart" - 1986
14. The Psychedelic Furs - World Outside - "Until She Comes" - 1991
15. The Pogues - Rum Sodomy And The Lash - "The Band Played Waltzing Matilda" - 1985
16. Clap Your Hands Say Yeah - "Upon This Tidal Wave Of Young Blood" - 2005
17. Michael Nyman - The Cook, The Thief, His Wife And Her Lover - "Memorial" - 1989

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