31 janeiro 2010

foste

os pulsos apresentam-se extenuados,
tentaram agarrar a solidão que soava
na intermitência que o vento não preenchia:
entre a guitarra espúria e a bateria que
lhe larga a mão - na exacta forma que me
arremessaste
dessa vez os lábios, contra os meus, que incrédulos,
aos teus não mediram cada sulco que provavam,
na vertigem adiada.

meios de acção tolhidos por esse espaço
- desenhado e depois jurado -
estreito e cavado que não travava a inundação
das gentes que partilharam o brilho que soltas,
através do movimento desagregador de troncos que se queriam
como linhas e superfícies que cortam outras.
os braços,
abandonam o labirinto para que eu finalmente te saiba
e as tuas fontes me conheçam os dedos curvados,
elevando o peito, na viagem que os graves da voz de bowie
fazem rumo aos agudos que agora me sussuras e mordo.

nunca vamos ter uma canção: pelo medo que sentiste ao encontrares
o que buscavas; por causa da chuva que não transportou impurezas
do peso das horas;
pela impossibilidade que me amaldiçoa os dias
de te obter as mãos para que o teu voo nasça a partir delas, contidas
no compêndio de vontades que edito com os teus olhos, alinhados
no mergulho que os meus não esquecem: sim, estás-me sob a pele
como tudo o que me inebriou até ao momento que passo as
memórias para as páginas que nunca lerás e espalhaste sobre o teu
movimento estendido e o vento beijado.

doença não é verbo nem o silêncio é seu emissário,
a perturbação surpreende o embaraço, pretere a sua visibilidade
e pede aos sinos que ecoem sobre a noite insensível face à
imobilidade reencontrada de um espírito atónito: a assumpção
das coisas reais.

prometeste a ternura; restou o gelo de um desencanto exorcizado
ao sabor de um corpo dobrado, gritando o desespero por não te
escutar.
tenho decalcado sobre cada poro o encantamento que sentias
a sorrir sobre a decisão repentina de surgires no meu regresso
ao ponto de onde não devia ter partido e nem sequer ter voltado.
não estás no barco do som, que se torna o meio de propagação
do naufrágio de mim.
sempre sorri à dor como o resistente condenado por algo imperceptível
como se tornava teu corpo que retinha e sentia caminhar sobreposto.

foste.

e vislumbro-te a cada palavra que tem as letras da invenção do
sentido
nas nuvens
que te ocultam.

a morte nunca passou de mais uma forma de vida,
e a dor sempre ocupou todas as suas extremidades.

devagar, submerjo sabendo ser definitivo.
os tímpanos estouram os olhos recusam fechar-se
o som chega-me através da dança que empreendes
tão leve como assim me torna.

adivinho-te.

1 comentário:

Anónimo disse...

Bem...
Como diriam duas pessoas em conversa que eu cá sei: pó caralho!