30 janeiro 2010

-te


Repeti até que a exaustão de um sol ocorresse,
que esta canção não era para ti,
no entanto habitavas todos os espaços
entre cada letra: erguias a génese das palavras.

Foi bom saber-te leve – a espreitar por entre as frestas
de um muro tecido com o silêncio - depois debruçada sobre
eles; sobre a sua simbiose: após extensos períodos, em que os lábios mordidos,
a cada aproximação das lâminas; tacteavam fragmentos; unindo
metades: complementando-te; trazendo instantes: a luz de ti própria.

A cada golpe pérfido o corpo reage numa convulsão que o faz avançar ainda mais.

Debitando sangue no internato dos sentidos; quarentena emocional;
clandestinidade de sorrisos impelidos até ao limiar da implosão
do que é ser-se.

Sacudida: logo a seguir a inverterem-te o equilíbrio e distorcerem
a definição de eixo que buscavas, para que o mundo procurasse
os mapas do caminho por onde pudesse realizar a translação de um
sorriso omisso.

Sacudida: os órgãos perdendo o pé na vastidão de um espaço na
pantografia de uma nação e o seu povo, em precipitação depois do
espasmo e dominados pelo espanto; deflagração da dança -
da convicção abalada perante o domínio dos passos sem retorno.

A doçura por vezes troca de linha e caminha por outra paralela e,
com demasiada frequência nem no infinito se tocam.

Perante espelhos em desregulação estática, que não devolvem a tua
imagem; ampliam o que és pelos céus que atravessas.

Ao não poderes estar: lá, nesse lugar: ou noutras fracções de um
tempo absurdamente redutor, há uma parte de ti que por aí pairará:
há brilho remanescente dos movimentos perpétuos de uma pequenina
que se move única, por um beijo viajado.

3 comentários:

Anónimo disse...

Apaixonante.
Quando for grande quero ser isso.

Anónimo disse...

Tudo isso.
Só isso.

Nuno disse...

Nada mais do que isso.