07 fevereiro 2010

Até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 20100207

Sobre contrastes; descobertas; recordações, colheita de canções que se depuram sobre si mesmas; cumplicidades; partilhas de mapas e segredos resguardados; definições impossíveis: teorias incríveis; sons inebriantes; elevatórios; sons desconcertantes; regeneradores; sons atirados para um rio que cresce; ritmos incomuns: preenchendo-se ciclicamente: feito de tudo isso, para que "até as sociedades mais primitivas admitam os seus loucos", hoje. Canções vastas "para minorias esclarecidas": gente com música dentro: que sente e rouba tão bem: envoltos.



Na sequência, Cinematic Orchestra num registo da banda sonora de um documentário sobre a vida dos flamingos, para a Disney, a fazerem-nos sair da casa onde nos levaram.
Lisa Hannigan num sussurro, que se agita, em frente ao mar, no alpendre desenhado e erguido pela Cinematic Orchestra.
Bill Callahan num roubo tremendo a declarar-se culpado, como se tal fosse necessário.
Os Kraftwerk, que construíram os sentidos com base na electrónica: o lado orgânico dos sintetizadores de botões de pele.
Mark Lanegan a suspender sons que ainda vogam por todos os olhares encontrados.
Headless Heroes ou a desconstrução de um ícone criado de forma soberba pelos Jesus and Mary Chain, de um modo sensitivamente cru.
E o acaso da busca do trabalho de 2010 de Joanna Newsom: a mostrar uma canção sem título contida numa apresentação recente em Sidney, que nos deixa em polvorosa perante o que aí vem, a tudo querer conter, sem hesitações.
Uma versão imensa dos Shearwater, em sessão radiofónica, onde ela, a rádio, ainda é assim, da brilhante “The Snow Leopard".
A recorrência aos Get Well Soon, que assinam no início deste ano uma canção para todas as décadas que assim decidirmos.
Pela: a relembrar como o Verão pode ser de perdas e acima de tudo de reencontros: noites rasgadas aos dias, num tema de energia transbordante.
P J Harvey num belíssimo exemplar demasiado escondido.
Os Seabear numa das várias excelentes canções de que o seu álbum está repleto.
Lisa Germano porque sim.
Bauhaus, e porque não? – canções que vivem todos os dias.
Shonen Knife personificando a leveza e simplicidade pop.
Fiona Apple num roubo à voz armada, tornado sem asas nas suas mãos.
Mirah para que se relembre que a clandestinidade a que pode ser votada uma canção devia ser considerada crime da, e contra a humanidade.
E finalmente os Pink Mountaintops, de forma a que o voo de encerramento se confunda com o mergulho do começo.
Boas escutas.

01. The Cinematic Orchestra - Les Ailes Pourpres - Exodus - 2009
02. Lisa Hannigan - Sea Sew - Teeth - 2009
03. Bill Callahan - The Breeze / My Baby Cries - (Kath Bloom Cover) - 2009
04. Kraftwerk – The Man Machine - “The Model” - 1978
05. Mark Lanegan - Field Songs - Pill Hill Serenade - 2001
06. Headless Heroes - The Silence of Love - Just Like Honey - ( Jesus and Mary Chain Cover ) - 2008
07. Joanna Newsom - live at the Sydney Opera House 18-01-2010 – “Untitled” - 2010
08. Shearwater - The Snow Leopard Radio Sessions - The Snow Leopard - 2008
09. Get Well Soon – Vexations – “That Love” - 2010
10. Pela - ATG Masters - Present - 2007
11. P J Harvey - B Sides - Zaz Turn Blue – 1997
12. Seabear – We Built A Fire – “In Winters Eyes” - 2010
13. Lisa Germano – Lullaby From The Liquid Pig - “From a Shell” – 2003
14. Bauhaus – The Sky’s Gone Out – “All We Ever Wanted Is Everything” - 1982
15. Shonen Knife - Let's Knife – “Bear Up Bison” - 1992
16. Fiona Apple - Pleasentville OST – “Across the Universe” - (Beatles Cover) - 1998
17. Mirah - (A)aspera – “The Forest” - 2009
18. Pink Mountaintops - Outside Love – “Closer to Heaven” - 2009

2 comentários:

p disse...

gostei muito, não só da viagem mas de ouvir cada música através destas tuas pequenas sinopses.
o contágio dos sentidos desperta-nos para um estado de libertação interior.

Nuno disse...

obrigado pela escuta e pelas palavras: quando as canções provocam tudo isso estão a cumprir a sua missão.