05 fevereiro 2010

Tindersticks @ Guimarães - Centro Cultural Vila Flor - 2010.02.04


Guimarães, Centro Cultural Vila Flor, 22:08 – 23.32 de 2009-02-04
Sala com lotação quase esgotada.

Escrever sobre um concerto dos Tindersticks tem uma enorme carga emocional: um dos motivos que muito contribui para isso, é facto do fabuloso espectáculo que proporcionaram no ano passado, em Lisboa, no Coliseu, ter provocado o primeiro texto deste espaço.

Se as expectativas para este regresso, intercalada pela aparição de Stuart Staples em pleno Casino Estoril a realçar a colaboração com Rodrigo Leão, eram diametralmente opostas às de há um ano, a vontade férrea de estar presente, essa, era decalcada.

The Hungry Saw” tinha provocado a “re-ignição” da chama do colectivo, sendo um dos seus melhores e mais qualitativamente equilibrados trabalhos e, um dos discos que partilhou os lugares de enorme referência do ano de 2008.
O que fez da viagem a Lisboa, o plano B para assistir a um concerto que superou o inicialmente previsto, dando uma força muito maior para que o mesmo não fosse apenas um revisitar de matéria – excelente – dada.

Em contraponto “Falling Down A Mountain” não tinha conseguido mostrar sequer, um punhado de canções capazes de provocar audições ininterruptas.

Perante um calendário com tantas prestações espalhadas de Norte a Centro, afastado dos grandes centros tradicionais da realização de concertos, a maldição da impossibilidade de estar presente - nem que fosse pelo menos em uma delas - ameaçou mais uma vez fazer das suas.
Depois de um primeiro apontar a Sintra e, de uma rectificação de mira com a hipótese Estarreja desmoronar, acabou por ser Guimarães o alvo trespassado por uma âncora, como só os Tindersticks sabem ser.
Atingir cada base do percurso Caldas da Rainha, Guimarães, Sintra, Guarda, Estarreja, tinha sido um desafio fabuloso de modo a fazer o pleno, que outras guerras impediram.

Perante tudo isto, viagens à queima, até um auditório ainda desconhecido: fantástico por sinal.

Visão adjacente de um palco ao alcance da mão.

Luzes apagadas e o início de mais uma noite memorável.

Falling Down a Mountain” a abrir, tal como no disco: ambiências díspares da onda que serve de matriz, executada de forma irrepreensível e envolvente, a lançar “Keep You Beatiful” – Tindersticks sob uma onda de leveza e aparentemente a darem-se muito bem com isso.

A primeira grande surpresa no alinhamento, que provocou os primeiros “eis” e “tchs”: “Marbles”! – um momento para história dos concertos que assisti até hoje: um componente de um álbum que anda sempre no bolso, mostrado de alma aberta.

De “Simple Pleasures” chegou “If She’s Torn” com uma intensidade impressionante.
Uma banda em estado inclassificável começava a não deixar pedra sobre pedra, na bela cidade de granito.

O regresso a “Falling Down A Mountain”, para dois dos seus melhores temas: “Peanuts” sem Mary Margaret O’Hara e “She Rodes Me”: o primeiro um momento absolutamente brilhante, o segundo um carrossel de sensações muito boas, depois de um feedback - considerado no ponto por alguém na escuridão da sala - na ligação da guitarra canhota, ambos, sob uma execução técnica tremenda, a mostrar que os temas do mais recente registo, mais do que estarem muito bem preparados, cresceram muito e resultam de forma magnifica ao vivo.
E a voz de Stuart Staples está numa forma excelente.

Dying Slowly” tema enorme de um álbum menor, já apresentado há um ano, deu a sequência perfeita a uma actuação que não se cansava de evoluir, com um nível altíssimo que se desafiava e, ganhava com a facilidade cada palmo de terreno que ainda se conseguia pisar – a levitação começava a marcar o seu território.

Com a incursão a “The Hungry Saw”, ao seu título-tema e ao portentoso “Mother Dear”, surge a confirmação da promessa com um ano de vida: de este ser um disco para a galeria dos maiores dos Tindersticks.
Na primeira canção, Stuart Staples lembrou-se de se esquecer da letra, na armadilha que é a segunda ponte de lançamento do tema: implodiu-a.
Músicos deliciosamente à deriva: hesitações a estenderem-se ao limite do possível de um corpo suspenso, até surgir a voz de comando: decisão de recomeço do tema.
Um “Can We Start Again” levado à letra!
Fantástico.
Aplausos motivadores e cúmplices, que subiram de tom no preciso momento onde antes o arredondamento tendeu para o infinito e agora faz aportar a canção.
O recomeço permitiu assistir novamente ao diálogo dos objectos de percussão que lançam um tema de eleição.
Tudo lhes é perdoado.
Sentimo-nos num ambiente que só uma sala de ensaios permite e eles ter-se-ão sentido em casa: daquela forma em que estamos lá, tão longe, sem de aí ter saído.
E sim, há um ano atrás vislumbrou-se um álbum que o tempo provou ser um clássico.

Triplo avanço para o disco deste ano: “Black Smoke”, “No Place So Alone” e o estrondoso “Factory Girls”.
A confirmação dos melhores temas deste trabalho, a ganharem forma, e a tornarem este corpo estranho à sua obra, de alguma modo por ser mediano, envolvido com os outros temas imensos, agigantando-se, por serem escolhidos a dedo e alinhadas como só “quem a sabe toda”o faz.

No primeiro dos temas soltou-se o cabo de amplificação da guitarra de um dos mais recentes elementos, David Kitt – o outro é o baterista Earl Harvin e o homem dos sete instrumentos, com o saxofone nas unhas ainda tentou mesmo assim “conectá-lo” de volta, até o “roadie” muito à rasca - porque o homem estava embalado, concluir a tarefa.
“No Place So Alone” teve um impacto muito bom e “Factory Girls” entrou para o domínio das inesquecíveis: com imagens leves de fundo, piano, guitarra e baixo a proporcionarem uma parte instrumental que conviveu com o silêncio, a quem a voz – insuperável - deu uma dimensão quase absurda: ao nível dos insubstituíveis: soberba.

“A Night In” do segundo álbum, proporcionou um momento mágico: tons verdes e brancos a abrilhantar uma canção de eleição, mostrada num grau de transparência completamente fora do normal: bravo.

O fecho ficou para a leve e solta “Harmony Around My Table” com “lálálás” e muito energia de uma onda apelativa que atingiu totalmente os seus propósitos.

Uma hora e dez minutos depois, o processo de imploração pelo retorno dava os seus primeiros passos.

E no regresso, os homens lembram-se de partir a louça toda: exacto – “City Sickness” e “Raindrops”.

Excelentes escolhas, talvez por menos óbvias, permitiram-me a escuta em palco pela primeira vez, com arranjos absolutamente espantosos.

Épico.

Os Tindersticks continuam a soar em salas repletas de fumo, com cortinas que sobrevivem ao peso dos dias.
Têm no entanto, definitivamente as janelas abertas, depois do ensaio sobre o arejamento, com vista para jardins contidos por pradarias sem ângulos.

O silêncio é tratado com deferência, através da alquimia de quem o sabe invadir, não para o conquistar, mas para lhe dar amplitude: confundindo-lhe a existência, coabitando sem lugares marcados e imposições destruidoras de equilíbrios suspensos, torcendo-lhe a génese, onde os instrumentos são pontos a unir, a traço leve, de forma a obter a silhueta da beleza tocada de forma única, por mãos de fumo.

Numa sala com excelentes condições, som de qualidade extrema, com figuras repetitivas projectadas, com o negro a dominar caleidoscópico, sobre fundos verdes: escurecidas para depois brilharem.

Saída sob ovação em pé, para voltarem para o fecho definitivo: seis estrelas: “All the Love”.
A permitir a escuta e a visão de algo sem explicação possível.
Brilhantismo tornou-se pequeno para abarcar, descrevendo, o que se assistiu.

Desintegrante.

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10 comentários:

telheiro disse...

Abre o apetite para o concerto de Estarreja no Domingo! Lá estarei...

Nuno disse...

A não perder!
Que seja melhor ainda que ontem!
Abraço

Tindergirl disse...

Silence is here again tonight :)
Espero que eles toquem a Raindrops hoje.
Muito obrigada pela excelente descrição repleta de emoção...

Nuno disse...

Obrigado pela leitura e comentário.
Bom concerto.

Tindergirl disse...

Pois é. Acho que em Guimarães deve ter sido melhor...
Gostei mais do concerto de 13 de Fevereiro de 2009.

Nuno disse...

O concerto de 13.02.09 não serve de comparação: foi um momento daqueles irrepetíveis.

telheiro disse...

Que grande concerto o de Estarreja! Estão em grande forma, principalmente o Stuart Staples. Acho que nunca o vi tão solto em palco. Foi o melhor concerto que vi deles desde o 1º no Coliseu do Porto (1997, julgo eu).
O alinhamento foi basicamente o mesmo: trocaram If She´s Torn por Bath Time; o Running Wild por Hubbard Hills e a surpresa da noite foi Blood, embora no alinhamento estivesse previsto Hey Don´t You Cry. Grandioso!

Nuno disse...

Excelente saber disso, Telheiro.
Ainda bem que assististe a uma noite assim.
Bem me parecia que Guimarães não era obra do acaso, como Lisboa o ano passado, sendo um momento de eleição, podia deixar descendência, sempre que rasgarem o silêncio, com canções que rasgam.

Luisa Fonseca disse...

Adorei ler o texto! É tão bom sentir que esta paixão/empatia pelos Tindersticks e pela maravilha que são os seus concertos, a sua música, é partilhada por muitos (atrever-me-ia a dizer corações sensíveis e ouvidos de excepção).

Nuno disse...

Obrigado pela leitura, comentário e por teres gostado.
Quanto ao atrevimento entre ( ) tudo se torna reactivamente natural perante o contacto, com concertos cheios de canções assim, colocadas daquela forma: não há plateia, nem assistência: apenas uma palco imenso onde quem faz a música, sentindo-a, torna tudo imperceptivel a quem a escuta.