17 fevereiro 2010

Smog . I Break Horses












Pelos vistos as mixpods deixaram de funcionar - pelo menos por aqui.
Um dos exemplos refere-se a uma canção gloriosa.
Datado de Set/09, repito o texto e a imagem: desta vez com outra possibilidade de escuta e também com um formato numa versão mais crua.
A maravilhosa arte do complemento :)
Enjoy.
Já agora: falta muito para 2010.02.26 @ Sta. Maria da Feira?





Uma canção pode ser uma partícula de nós.
Na exacta medida em que ao ser escutada, vai ficar sob a pele: acompanhar-nos-á.
Estaremos com ela quando menos pensarmos que tal vai acontecer e, iremos procurá-la numa busca incessante assim que somos fulminados pela memória do que é.

Há canções que se confundem com aquilo que somos, com tudo o que sabemos de quem nos toca.
O seu impacto abre o álbum das imagens para onde nos transportou, de quem nos trouxe, sob a sua escuta de olhos fechados e levou, ao cerrarmos os dentes com a partida.

Embarcámos por rios, apenas com elas, embutidos num som que nos abraça, tragámos vinho a espreitá-las, agarrámo-las com ambas as mãos e com aquelas que nelas se entrelaçaram, numa adição simbiótica.

No empedrado de ruas geladas ou nos trilhos íngremes, em que por vezes se transfiguram os nossos dias, quando a pele estala; rasga e convoca as novas camadas que vão compor o manto que se rende ao núcleo, que nos arrasta, exigindo sermos mais o que temos de ser.

O número de vezes que uma conversa com uma canção é começada ou finalizada é um mero detalhe do que ela representa: independentemente da sequência repetitiva no espaço de uma hora, ou intervalada por anos, quando se trata verdadeiramente de uma canção esse número é desprezível: em absoluto.

Mais do que procurarmos a canção perfeita ou encontrar a que sorrimos quando nos assalta o desejo de a termos escrito; composto; guardado, para mostrar a quem elegemos, é de uma interacção quântica de sensações, espalhadas numa tela, que nos ocorre descrever, essa fórmula de sons: um todo muito maior que a soma das partes.

Quando o pesadelo de fracções de tempo sem a sua companhia se abate, é incrível como a partir daí se gera o contacto com pedaços de música que pensávamos já não ser possível: haverá capacidade para desenhar, o arrebatamento provocado pela ocupação de um lugar julgado livre para sempre, por uma canção inverosímil?

Em ritmos avassaladores ou em suspensão de silêncios inexpugnáveis, solitária de guitarra em punho, ou em piano abandonado, ou ainda com as cordas chamadas, ou em fase de lua, com todas e todos à sua volta, o seu movimento é próprio, com uma identidade de uma exactidão comburente.

Sentados com os antebraços sobre os joelhos, olhando o mar através dos ventos, fechando os olhos e chamando o sol ou acelerando a sua queda.
Perante vastas planícies ou inclinados sobre as descidas de montes que unem céus a corpos estendidos sob o alcance dos dedos: elas, as canções estão lá, mesmo quando ninguém as vê.

Há tantas canções imensas: ao tentar arrumá-las num pensamento lento, ou desprotegê-las num alinhamento atirado por outro vertiginoso, a fileira fica sem fim à vista: a muralha oculta o espaço.
Por isso é custoso ou tremendamente injusto nomear a que encabeça o genoma humano onde ainda ousamos querer ser incluídos.

Contudo, nos momentos que circundam a alucinação do toque das membranas solares, por vezes erguemos a tábua, onde um titulo foi esculpido por lágrimas, beijos, olhares alinhados ou perdidos, abraços ocultados ou cabelos tocados por faces que já não são nossas.

Há canções que nos fazem vento.
Que nos ensinam a ler mapas para abandonar um abismo e outras que nos acendem a vontade de lá nos encolhermos.
Há canções que nos fazem cuspir sangue com dentes implodidos, outras que nos desfazem o estômago e a quem recusamos uma intervenção milagrosa.
E não esquecemos as que, viajando sós, tornam impossivel realizar o percurso sozinhos.

E aquelas que depois de sentidas, é de desintegração; redenção; devoção, que falamos?

“I Break Horses” é transversal a todas estas sensações: trespassa-nos: traceja-nos: mais que aportar até às nossas noites, acompanha escaladas submersas até à nossa ilha favorita.
Acende sinais, sublinha gritos e inventa sentidos.

A redescoberta de uma enciclopédia emocional de canções imensas, tem muitas vezes como exemplo, o minimalismo sensorial que permite, deixa-nos as mãos dormentes depois de sermos desfeitos sem contemplações pelas ondas ténues que faz mover no seu percurso; rumo a nós próprios: em tudo o que somos.

“I Break Horses” é uma partícula de nós que tem a forma de uma canção.

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