25 fevereiro 2010

anche le società più primitive ammettono la loro folle (by google tradutor)

veneno.doc (a propósito de um desafio - texto com a palavra em causa; um fuckin' eleven de 26.10.06)
os desafios ou como não se pode viver sem eles
as canções escondem-se(?) no destaque da palvara
A

Nunca tinha imaginado, na velocidade estonteante a que rolou por aquele túnel “espiraldescendente”, que não parasse somente nas entranhas da Terra.
E assim não foi.
Após a experiência alucinante, o impacto numa plataforma tão agreste, de rochas nuas e gélidas, percorridas pelo tilintar de um liquido viscoso que o inundou de desagrado, abandonado ao detectar que não estava só e muitos menos onde o pesadelo lhe indicou o destino.
Luz.
Seria possível? Sim. Primeiro fugidia. Depois em crescendo, archote por archote, como poderiam ali ter aparecido?
Erguidos por outros dez companheiros de degredo.
Renegados.
Por uma ordem que criaram, por uma ordem que os dominou, após o controlo que pensaram eterno, possuir uma escorregadia independência.
Sabiam descortinar a eternidade da situação em que se encontravam.
O facto de serem druidas ajudava.
Muito.
Tinham plena convicção que ali terminariam os dias.
Por muitos que faltassem.
Como conheciam os níveis dos seus poderes.
Por mais alto que subissem, a saída não seria devolvida.
Pelo que fizeram, pelas causas, a que deveriam ter recusado o abraço.
Como atingiram, nos olhares trocados, o que poderiam obter daquele liquido viscoso que não parava de os galgar, numa lentidão tão aliada.
Iriam partir para a sua última criação: um veneno.
A base da destruição - daquilo que os encarcerou.
O preço que pagariam.
Todos.
Um por um.
Como dessa forma, tocaram aquela água que o tinha sido, agora cada vez menos abundante, cada vez mais evaporada, embrulhada num cheiro nauseabundo que os tolhia, fazendo com que, a queda individual se fosse tornado colectiva, num estertor, fulminante mas ainda assim a gerar agonia.
Apenas teve tempo de beijar a pequeníssima tampa e colocá-la no seu devido lugar, daquele objecto que toda a vida o acompanhou.
Mais leve que o ar tremendamente rarefeito, a fuga em direcção à saída teve o seu inicio, na exacta medida em que todos, jazendo, ainda largavam os seus ícones.
O sorriso assustador que tinham desenhado em cada ruga que possuíam, contrastava em absoluto, no brilho de um olhar a que a poeira concedeu um último desejo.
Ver rolar pelo chão a sua pequena ânfora, que lhe fora depositada na palma das mãos por quem lhe transmitiu o maior dos conhecimentos.
Feliz.
Muito.
Como nunca sonhou.

B

Abraçaram-se como há muito não o faziam.
Olharam-se no infinito que eram.
E que sentiam tocar.
Buscavam as suas mãos como se estivessem na maior das trevas - e, se o dia estava claro e brilhante.
A respiração em suspenso a que se permitiam parecia não ter fim.
Donde vinha aquele som?
Não era da canção que sempre os acompanhou.
Nem do vento que ela personificava.
Por mais esforço que fizessem, não conseguiam uma identificação positiva.
Apelaram à intuição, às memórias do belo, ao terror dos sonhos negros.
Nada.
Entregaram-se como nunca o tinham feito.
A fusão de corpos incandescentes que tanto escreveram.
O calor de um sangue em ebulição nas veias, desviadas para um encontro mútuo nos limites de cada um deles.
Único.
Tudo parecia agitar-se.
Nada parecia mexer-se.
O solo tocou o céu e, este desceu aos subterrâneos do primeiro.
Sem se sentirem tocados.
Por cada beijo trocado, cada poro exultava.
Sorriam abrindo os olhos.
Levitavam ao fechá-los.
Como poderia ter fim o que sentiam?
Todavia, teria.
Aquele veneno exalava o que era por onde passava.
Não escapariam, como não escapou nada que por ele tivesse sido bafejado.
Antes da sua chegada porém tinha-lhes sido concedido algo que nunca tinham sonhado.
Quando eram um só, por toda a brutalidade que tivesse sido atingida, nunca o rasaram.
Mas agora estavam perante a destruição.
O mal.
O horror.
Onde haviam corpos unos, existiam cadáveres.
Onde estava a nudez, transparência e verdade, reinava um opaco e obtuso exemplar de sentimento: sem memória; rumo à fadiga emcoional.
Porquê?
O aroma horrível que inalaram assim o exigiu.
O silêncio ensurdecedor - não o das pausas: magnificas.
As trevas.
As manchas.
A assombrar o que nem necessitava de sol, porque já o era.
Agora, perante a extinção.
Atroz.

C

Brincar.
É tão bom, pensou.
Sozinho.
Sem brinquedos.
Com.
Todos os que conhecia.
Estava totalmente entregue àquele desfrute que só imaginava sem fim: fora de alcance.
Ao ar livre ou em qualquer lado.
Só que aquele ar iria ser tudo menos isso.
A fragrância volatilizada que o compunha, estava a ser substituída lenta e tenuemente pelo nefasto odor encapotado de um veneno, que vindo na dissimulação tremenda do mal que representava.
A sua diversão aproximava-se inexoravelmente do seu término.
Que lindo sorriso, era impossível que o mundo não pudesse voltar a entrar em contacto com ele.
Olhou o que o rodeava no mais completo aproveitamento de que era ainda capaz.
Terrível.

D

Era um amado de Imperador.
Pelo povo.
Que tinha finalmente o líder que tinha sonhado.
Vivia na vaidade, no excesso a que todos os Imperadores têm direito.
Mas o povo estava feliz.
O seu trabalho não era em vão.
E o Imperador acrescentava elementos ao seu vasto espólio.
Cada vez mais países.
Cada vez mais gente feliz.
Por não verem a tirania.
Padeciam de alguns males, é certo.
Mas ela era só Imperador.
E por o ser, também julgava que o que tinha alcançado não seria ameaçado.
Engano, puro, Sua Majestade Imperial.
A dor aproximava-se.
O pequeno infinito que governava estava a ser invadido pelo veneno ancestralmente produzido e, até um Império assim, iria soçobrar.
Por todas as Armadas, por todos os Exércitos e hordas de Gladiadores, que impotentes, perante um inimigo invisível nada podiam fazer.
Nem sequer chorar a sua divindade, que por incrível que pareça sorria, não pela sua linhagem, mas porque o seu povo, ainda sentiria a felicidade do agora outrora.

E

O que te preenche?
Ver-te
O que te unifica?
Tu
O que te faz vibrar?
Saber-te feliz
O que te faz feliz?
Dar-te
O que te faz correr?
Descobrir
O que queres descobrir?
Tudo
O que te assusta?
A exaustão
Até onde vais?
Até ela: à exaustão
O que te move?
Amar
De que tens medo?
Do veneno
Com o que sonhas?
Com o antídoto

F

Ao ler as estrelas o feiticeiro da tribo estremeceu.
Como iria transmitir à sua comunidade tamanha tragédia?
Como lhes iria explicar que todos seriam chamados pelos espíritos que os protegem e que com eles caminham?
O veneno viria.
Pronto.
Pela madrugada menos esperada.
Mas não seria ele a despertá-los para a eternidade.
Essa era a sua missão, não o de uma pestilência que substituiria os deuses.
Reuniu a tribo para a cerimónia festiva que jamais juraram ir presenciar.
Água de fogo, paus de fogo, à volta do fogo.
Pinturas de paz.
Com a tinta que os faria adormecer.
Antes da chegada de quem não tinhas direitos.
O seu fechar de olhos, o último da aldeia, antecedeu o cerrar da tenda.
Que bela caçada faria naquela manhã!
Com todos os antepassados.
G

A cedência iria acontecer.
Ia ter sexo sem amar.
Não ultrapassou o abraço não o sentindo.
O beijo foi custoso, mas foi-se tornando hábito.
Que diferença!
Nem se aproximou dos eventuais nas festas ocasionais.
Muitos menos das tardes de verdades e consequências e de quedas no poço de todos os desejos.
Que corpo era aquele?
Que avançava maquinalmente?
O seu não estava diferente.
Não disfarçava o peso, nem o inerte em que se encontrava.
O olhar que procurava não existia.
Nem o calor.
Só frio, só.
Solidão de mão dada.
Queima-roupa sem ela.
Nada.
Movimentos industriais.
Monótonos, repetitivos.
Intermináveis.
Os olhos fechados e só o interminável som mecânico.
As lágrimas.
Exaustão emocional.
O veneno alí residia.
Não procurou a cura.
O vírus que cumprisse o seu papel.
Ele não o tinha feito.
Castigo?
Apenas uma antecipação de uma realidade.

H

Gustavo, pela última vez, podes descer?
Era realmente a quinta vez que o chamava.
Estaria com os auscultadores?
Estaria a ouvir aquela música infernal.
Satânica.
A julgar pelas fotografias dos discos e, da forma como se começou a vestir se não era, andava lá perto.
Tinha sido uma criança tão feliz e, agora aquelas companhias…
Cosme, podes chamar o teu irmão?
Subiu as escadas em espiral que levavam ao sótão que lhes servia de quarto.
As horas de estudo, os dias de namoro, os meses de conversas, os anos de brincadeira com todos os que apareciam.
Tinham perdido alguns pelo caminho.
Malditas overdoses.
Malditas mudanças de emprego dos pais.
Malditas mudanças de escolas.
A porta afinal nem estava encostada.
Cabiam dois braços, lado a lado.
A luz não existia.
Estranho.
O cheiro a cera queimada era mais ainda.
O corpo no chão.
Tocado.
Gelado.
Não!
O frasco estava vazio.
O estômago não.
Os comprimidos estavam lá, abraçados ao álcool, não lhes faltava nada para ser veneno.
À morte também não.
O Gustavo nunca mais foi o mesmo.
Nós também não.
E o Cosme?

I

Onde está ele?
Nas cobras.
Nos estômagos intoxicados.
Nas aranhas.
Nas traqueias implodidas.
Nos escorpiões.
No cérebro derretido.
Nas entranhas do demónio, e nos seres que eles libertam.
Nos olhos ensanguentados, jorrando.
Nas línguas.
Das víboras?
Dos humanos.
De todos
Não, quase todos.
Porquê?
Porque está na natureza deles.
Mas não devia
Pois não, mas está.
E que fazemos?
Buscamos o nosso refúgio.
E porque é que o usam?
Porque é a essência deles.
Mas faz tanto mal
Eles é que se importam.
Porque existe?
Porque o criaram.
Porquê?
Porque são assim, amam destruir
Mas isso é odiar
E eles é que se importam.
O que acaba com ele?
O amor.
Ele pode ser bom?
Só se for por desafio.
Quem é ele?
É o veneno.

J

Já não reunia os amigos na sua casa de praia há tanto tempo.
Olhava o pôr-do-sol com a garrafa na mão.
Desabituou-se dos copos.
Após um gole intenso a que os olhos fechados emprestaram um toque de prazer em versão revista e aumentada, rodou o corpo para abarcar todo o cenário que idealizara.
Todos reunidos!
Continuava a não achar razão para o facto do Cosme ali estar.
Sempre lhe viu um negrume num olhar que nunca percebeu.
Será medo, será gente?
O que raio estava ele ali a fazer?
Estiveram de relações cortadas. Todos os outros intercederam.
Merecia uma segunda oportunidade, certo?
Em quantas segundas ia?
Os pensamentos que queria, não os obtinha.
Apenas a sensação de inexplicável que a noite não começaria.
Bebeu mais uma cerveja.
Enquanto preparavam o jantar, todos, apercebeu-se da excepção.
Porque procurava o Cosme, o vazio, com aquele olhar.
Razões para o desaparecimento do Gustavo?
Porque teria estado ele junto dos molhos tanto tempo.
Quando todos os provaram e iniciaram o sofrimento curto, incisivo, ao menos isso, muitos nem se aperceberam que tinham entrado em contacto daquela forma com a morte, de encontro não acertado para aquele dia.
Afinal o Cosme era o seu veículo.
Do veneno.

K

O seu último desejo!
Passear sobre o mar.
Caminhar pontapeando as ondas, que se aproximavam com carinho, apenas para lhe lamber as feridas.
As de todas as espécies que julgava exterminadas.
Num acto desesperado, uma vez que seria o último iniciou uma corrida veloz, com todas as forças.
A sensação era completamente indescritível.
O quase voar sobre a água.
O seu ressalto em direcção à sua face.
Todo o tronco encharcado.
Sorriso gaiato.
A caminho do fim.
Ao acaso.
Que se atravessaria no seu último percurso.
Junto a um pé direito possuidor de uma bota que sobreviveu a todas as saliências pontiagudas que calcou até a ali chegar.
Que sentia agora o conforto, do ultimo dos sobreviventes.
O mar.
Vasto.
Cobrindo a morte.
Afogando os medos.
Que tudo tinha devolvido às praias do mundo.
E que o veneno que nele navegava, tudo tinha dizimado.
Mas ele ainda corria!
Cada vez mais exausto.
Cada vez mais veloz.
E aquela pequena ânfora, que naquela onda procurava rumo, que a tudo tinha resistido, por todo o lado tinha escapado incólume, foi ao seu encontro.
O espantoso de tudo isto é que tinha pensado em saltar.
A exaustão não lho permitiu.
Acabou por proporcionar o mais intenso dos choques.
Frontal.
Como todos os choques saborosos.
E fundamentais.
Os estilhaços tornaram-se estridentes.
Num silvo estranhamente doce.
Aquele beijo mantinha ainda aquele infinito poder.
Os seres daquele mundo iam voltar a entrar em contacto, com o que existia, antes de tal moléstia lhes ter asfixiado letalmente a existência.
As palavras iriam voltar a ser soletradas.
Florescer.
Colorir.
Brilhar.

2 comentários:

AR disse...

Wow...que alfabeto mais dark!
Serei capaz de exigir tamanha densidade emocional?

Nuno disse...

o alfabeto é uma "alias".
podia ser numeração romana ou a mais concisa - congeminada nas pulsações maometanas. passadas estas calendas brotaram as onze canções de forma tão espontânea quanto aleatória: ao contrário do veneno: que com elas nestes ciclos se interligou.

sim, a densidade emocional também pode ser exigida.