19 março 2010

Beach House @ Guimarães - CCVF - 2010.03.18

Ao terceiro disco, a terceira passagem por Portugal e a dar-se a adopção de mais um projecto musical, que como alguns outros, por vezes de forma tão estranha, se entranha numa característica tão peculiar, que de certo modo acabámos, por cá, por sentir a música, de alguns autores, como se fosse nossa - ao escutá-la.

Num cenário negro, iluminado por barras verticais cobertas por uma espécie de pelo branco e, que se coloriam à passagem do movimento sonoro.

Victoria Legrand, na voz e a preceder um teclado, também ele decorado, como os referidos objectos, Alex Scally entregue à sua guitarra e ao lançamento no início de cada tema, das batidas programadas, que conviveram em perfeição com a bateria do elemento que os acompanhou e que projectou as canções para uma densidade sonora assinalável.

Um concerto de relativa curta duração, com um regresso ao palco e com outro que fica em dívida, para uma próxima passagem que acontecerá com toda a certeza, tal a dimensão da relação que começam a construir, com quem os escuta por aqui.

Depois do registo de estreia, da excelente sequência dada através de Devotion, com Teen Dream, os Beach House, elevaram fasquias, adocicaram ainda mais as influências que absorveram – vide Young Marble Giants – e acompanham sem esforço aparente, a passada dos trabalhos que iniciam o desfile deste ano, com maior nível de qualidade.

Uma voz que se torna permanente e que comanda o curso de um som que se constrói robusto e solto, assumindo a frequência com que se exige a sua (re-)escuta, tornando-se familiar, num registo cadenciado.

Em Guimarães cumpriram a execução de praticamente todas as faixas do álbum e socorreram-se de algumas (poucas) de trabalhos anteriores.

Com Alex Scally a levantar-se e sentar-se ao longo da mudança das canções, Victoria Legrand sem largar o teclado, sempre comunicativos numa onda de simpatia: agradecimentos e referências elogiosas a quem os ouve e que caiem sempre bem, como referir o berço da nacionalidade, evidenciar o quanto é gratificante ter uma audiência assim, naquele caso a assemelhar-se a vê-la como se estivesse numa nave espacial e, a notificar que poderiam ser efectuados pedidos de preferências ao departamento que Victoria Legrand dava corpo.

As canções de Teen Dream, assim como Gila e Astronaut - repescadas esta noite - são plantações de labirintos para evitar a época das descobertas, hipóteses velocitadas na mesma dimensão de um toque, que leva à queda em músicas dos sons do envolvimento: texturas de simplicidade como Zebra, 10 Mile Stereo, Used To Be, Norway, Silver Soul ou Walk In The Park, permitem a transversalidade de ambiências: urbanas; frente-de-mar; rio exterior; noites alvejadas: dia a nascer perdido e onde por todos caminhos se encontram vigor; hipnose; massa bruta densa-narcótica-transparente; liquefacção de vozes, a iniciar noites de dança debaixo de canções assim.

À semelhança das restantes, Better Times, Real Love e Take Care, são feitas de uma mesma linhagem: a da pungente suportação do brilhantismo, arranjos onde os predicados são decalcados, na estrada das referências fundamentais onde se escreve a música dos anos recentes e que não possuem limites temporais.

Numa sala com uma qualidade acústica impressionante, a voz de Victoria Legrand esteve pura e simplesmente excelente, sob e sobre a sobriedade da percussão e a guitarra que se interiorizava ou se desinibia num percurso tão volátil quanto cerrado.

Teen Dream é um álbum crú com voz acoplada a malhas tecidas numa volumetria desenvolvida na movimentação que serpenteia pelas memórias cravadas nas tréguas das noites.
Perante um auditório quase esgotado, o transporte sonoro de corpos arredios à depuração desse mesmo som, sem estar sujeito a demasiado sujidade que o tornasse agreste e, aqui mais uma vez a voz é um elemento fulcral em tudo isto: límpida na exacta medida em que por vezes, a rouquidão doce a conduz, sem excessos a reencontrar esse mesmo som: onde o Sol está a um metro e vinte de altura e a outro tanto de profundidade - claustrofobia luminosa; leve? possível? - em absoluto.

A execução instrumental, lança a evolução da voz, espalhando-a, como pedras “indimensionais” por praias onde as rochas recolheram areias depois da aterragem das ondas.

Ao anunciar a “last song” que Take Care não se viria a tornar, estaríamos ainda longe de pensar que Astronaut – referida por Alex Scally como anteriormente pedida entre o público - e 10 Mile Stereo encerrariam uma noite, garantidamente demasiado curta, a sufragar rebeliões emocionais, escutadas com as mãos sobre mesas de madeira talhadas pela erosão dos sons desobedientes.

Sensação de resgate: cheio, num espaço que promete retornos: com o que já se anseia aos Beach House.

Eventual alinhamento: sujeito a incorrecções: ou a falta que faz conseguir gamar uma setlist do palco :)

01. Walk In The Park
02. real love
03. Gila
04. Better times
05. Norway
06. Silver Soul
07. ???
08. Used to be
09. Zebra
10. Heart of chambers???
11. Take care

mais

12. Astronaut
13. 10 Mile Stereo

6 comentários:

IMAGEM DO SOM disse...

Excelente texto.
Fotografias, na IMAGEM DO SOM

Nuno disse...

Obrigado.
As fotos são muito boas.
Um dia ainda bato umas chapas :)

joão disse...

olá!

podes fazer o download da gravação audio do concerto de beach house no ccvf aqui: http://ashtapes.blogspot.com

Vai-nos seguindo para mais gravações de concertos, mixtapes, etc.

Nuno disse...

Boa malha, João!
Tky

Anónimo disse...

alguém sabe qual e de quem é a música com a qual a banda entrou em palco?

Anónimo disse...

não conheci a música de entrada, se descobrir, por aqui ficará.