25 março 2010

Até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 20100325



Desde a chegada que o espreitávamos - procurando não perder nenhum pormenor ou movimentação - não fosse não saber ao que se adivinhava, a noite em que desfilassem em três círculos que se tornavam infinitos - a acenar - como se fosse apenas para nós: apenas com os pés a descoberto, por termos erguido a lona misturada no oleado de forma a deixar uma nesga para que os olhos tudo agarrassem sem serem apanhados, pelo zelo dos homens de macacão azul e acessórios dourados.

Lembras-te?

Sujos, por rastejar na terra que não lidava bem com a falta de água nem com a réstia com que a procuravam mitigar: como ocultar mais umas peças que já não chegavam a unidade, depois de rasgadas pelo voo mal calculado sobre a vedação secundária e pelo mergulho gémeo na operação errada sob as grades de defesa mais avançada?

O espaço que possuíria um brilho incomum, parecia quase diminuto, para que ali voassem corpos; saltassem almas; se desprendessem sorrisos e se contivessem gritos até ao limiar da impossibilidade.

Havia agora silêncio e olhávamos de frente a ocorrência inverosímil de ali tentarmos dançar; fugir - sem sermos assaltados pelo alerta que nos fazia ver que eram horas de estar à mesa - onde para além de nós, faltava quem debruçada à janela, nos procurava vislumbrar na rua agora escura, após ter gritado pontuando cada sílaba de dois nomes afinal tão curtos.

Incrível! - como eram alongados daquele modo imperativo tão parco conjunto de letras, não era?
E como fugiam as gargalhadas, não permitindo criar o laço da escuta inédita, apenas para que nos ríssemos por tantos anos mais, cada vez que recordássemos aquele som.

Tenho sede, tu não?

Hoje até as cinzas foram varridas, a chuva cedeu definitivamente os direitos do encanto à dor de um solo que já não se consegue adivinhar.

E quando, depois de desfeita, corríamos desenfreados sobre a tela anteriormente erguida?
Descalços, sobre as rugas de um material quase a ferver, a ele, também, negada a eternidade, desejávamos o voo, para evitar aquela superfície abrasiva e abrasadora, na exacta medida que não a queríamos evitar.

Impossível, conter as lágrimas com a partida, depois de arquivada a azáfama de dias que pareciam não ter fim, não é?
O lanche esquecido: trocado pela evasão - rumo aos sons irrepetíveis.

Conforme nos ocultávamos naquela tela que nos servia de pele em versão guardiã, aí abrigávamos os sons que não esqueceríamos, por muitos que fossem entretanto descobertos.

A intemporalidade deve ser isso mesmo.
Não é?

Os deveres marcados pela professora tinham o mesmo destino que as ordens para arrumação física do que não tinha limites para sonho cada vez que estava nas nossas mãos e as promessas de companhia obrigatória com o decorrer dos anos não passariam disso mesmo.

Ficam os sons.
Esses, os que não deixávamos escpar e, os que agarramos, agora, com forças que pensávamos já não ter.

Está desfeita a tenda das ilusões, mas escutamos canções novas como escutávamos as que eram descobertas nessa altura e esta amálgama acaba por ser muito do que me faz querer dar sequência aos dias.

A magia é isso mesmo, não será?

Como aqueles embaixadores de reinos que pareciam inatingíveis mas que estavam ao alcance dos nossos olhos que se tornavam comutativos no espanto, estes alquimistas soam em tudo o que se mexe nesta sala deserta, ou nas ruas que percorro e onde o teu nome foi apagado com lança-lágrimas que substituíram lança-chamas interditos, sem saberem avaliar qual deles é mais nocivo à tua presença.

Ao fogo posto, sobrepôs-se o choro solto: ao vento que varre o território dos sentidos cravados atirei a poeira que guardei quando a tua dança se extinguiu perante os olhos escancarados e as mãos apertadas na elevação da falta de eficácia ao seu auge.

O som que só as imagens de um filme sabem desenhar, a mover-se pelo que de tão fabuloso fazem os Seabear e reforçam perto do final.

A sonoridade da eternidade como só Cave se sabe aproximar, e que Joanna Newsom agarra com a alma que comanda duas mãos sem controlo, e que Joy Division atingiu.
Quem disse que o talento não é tão incrivelmente aprisionado?
Apenas por nomes que lhe rendem guarda; poderá talvez ser acrescentado.

O retorno às canções de um ano que se confunde com a génese de tudo isto: a imensidão de Beach House, Efterklang, Shearwater, Get Well Soon, Owen Pallet e These New Puritans: ou a garantia que sempre nos recordaremos das tendas mágicas onde o mundo desaguava em sonhos desenhados à vista desarmada: como será possivel tanto brilhantismo?

Rodrigo Leão a soar como caminhadas por instinto por avenidas alagadas por um sol que mais ninguém distinguia.

White Hinterland numa demonstração da prestidigitação que se eterniza, a lançar a electrónica orgânica de Lali Puna de arremesso à vertigem a duas velocidades de Two Door Cinema Club e High Places.

A leveza de She & Him antes do retorno aos Seabear - que ardem estonteantes neste ano de chamas incontroláveis - anteriormente anunciados e à deflagração a cargo de Sarah Jaffe.

Sobre Sparklehorse & PJ Harvey a cortina que alguém se esqueceu de arrumar e que depois de roubada alterna entre o fundo da arca dos segredos e a janela que o sol não se esquece de trazer o mar.

Em relação a Bill Callahan: No Further Questions, Your Honor.

Há sons que só o cinema sabe contar: há imagens que apenas pela música são transmitidas: e tudo pode caber num nome pelo qual já teremos sido chamados.

Alucinação a duas mãos vagas.

Boas escutas.

01 Jurgen Knieper - der himmel uber berlin
02 Bruno Ganz - lied vom kindsein
03 Seabear - lion face boy
04 Nick Cave - from her to eternity
05 Joanna Newsom - go long
06 Joy Division - transmission
07 Beach House - real love
08 Efterklang - mirror mirror
09 Shearwater - black eyes
10 Get Well Soon – aureate!
11 Owen Pallet - tryst with mephistopheles
12 These New Puritans – orion
13 Rodrigo Leao - rosa
14 White Hinterland - hung on a thin thread
15 Lali Puna - everything is always
16 Two Door Cinema Club - do you want it all
17 High Places - the longest shadows
18 She & Him - thieves
19 Seabear - cold summer
20 Sarah Jaffe - clementine
21 Sparklehorse & PJ Harvey - eyepennies
22 Bill Callahan – say valley maker

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