04 abril 2010

Até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 20100404



01 - The Durutti Column – sketch for summer
02 - Efterklang & The Danish Nation – illuminant
03 – Angus and Julia Stone – the devils tears
04 – Wild Beasts – two dancers
05 – The Earlies – one of us is dead
06 – Emerald Park – ume
07 – Kissaway Trail – painter
08 – Four Tet – angel echoes
09 – Pavement – grounded
10 – Grand Island - a crash and a faultline
11 – Arab Strap – not a quiet yes
12 – Marina And The Diamonds – obsessions
13 – Scout Niblett - yummy
14 – Juliana Hatfield – dear anonymous
15 – The Radio Dept. – domestic scene
16 – Lonelady - intuition
17 – King Creosote - nothing rings true
18 – Cocorosie – the moon asked to crow
19 – Twinemen – learn to fly
20 – Musee Mecanique – fits and starts
21 – Richard Buckner - town
22 – Jonsi – grow till tall

Povoamento sonoro gerado a partir de quartos onde desaguam as partículas que os gravadores captam; onde fervilham as ideias que agarram a concepção que vai ganhar dimensão fora dali: para ali voltar; onde as canções são sorvidas ou alinhadas para consumos incendiados; onde os beijos são tragados na dispersão da acuidade visual, de corpos que gravitam na órbita de mãos que abandonam cordas de guitarras e teclas de pianos em troca de encontros com cabelos que cedem a ondulação a vozes que estalam ossos e se redimem na percussão dos ventos abissais.

é o que existe nas passagens estreitas e no fundo tão vastas; íngremes entre cada canção que se aglutina na tabela - de perda periódica - de elementos que se tacteiam, no percurso demarcado por pele em combustão eufórica: fobia de espasmos; ânsia de acalmia de um mar que não se extingue.


Quando Pessoa aporta


“Acordo de noite subitamente.
E o meu relógio ocupa a noite toda.
Não sinto a Natureza lá fora,
O meu quarto é uma coisa escura com paredes vagamente brancas.
Lá fora há um sossego como se nada existisse.
Só o relógio prossegue o seu ruído.
E esta pequena coisa de engrenagens que está em cima da minha mesa
Abafa toda a existência da terra e do céu...
Quase que me perco a pensar o que isto significa,
Mas estaco, e sinto-me sorrir na noite com os cantos da boca,
Porque a única coisa que o meu relógio simboliza ou significa
É a curiosa sensação de encher a noite enorme
Com a sua pequenez”

E se encontram outras palavras por aí

“no quarto guardo
entre as redes
do silêncio
o vazio das gavetas
dos meus sonhos.
nas paredes
o sono calmo
esconde
no cheiro azul
do lugar
tempestades sombrias
em sons de asas
que ausentes
sorriem”

ou noutras onde se perde o espaço. (de Fernando Dinis???)

“O que murmuras no escuro?
Rosto colado ao vidro da janela - o olhar em suspenso no mar diante de ti -
a lua a molhar em fatias brancas a ondulação da maré cheia;
e todas as palavras a chegarem devolvidas do crepitar confidente da lenha.
O que murmuras nessa ausência que não entendo?
Se existe caminho a ti, então perdido estou.
E sinto-o: nas ruas da noite: no hemisfério da falta, pontos desconexos de procura.
Se as cinzas ainda nos afagam o rosto
- desse fogo que foi alma e desejo de outros anos -
porque afinal não entendo esse murmurar quase mudo,
embaciando o vidro da janela do teu quarto?
- Dorme!
Adormeço ou julgo que sim.
Queimo os minutos como se os tragasse, sentado na cama,
os pés nús recebendo o frio do chão,
o rosto consumindo-se num espelho fronteiro, linha fátua distante, quase ausente.
O silêncio é uma arca de segredos; vasculho instantes em que a voz
se perca a si mesma
e, o derradeiro escuro possa cair sobre mim, como um manto de retalhos:
os teus retalhos, as ofertas que me foram chegando de ti de um tempo distante,
onde nunca duvidei que seria este caos a herança.
- Rasga-te!
Os olhos um dia terão esta visão permanente de ausência,
toldando-os máximas avulsas,
como um velho alusivo a um passado que tem para contar:
que o manifesta em curso pelos outros - que teima em não esquecer.
- Escutas?
Serão estas as palavras que nos baterão à porta um dia mais tarde:
reclamando um espaço que afinal não temos para oferecer.
O corpo colecciona feridas - e nessa colecção contam-se as mentiras
e as fugas como possíveis curas.
As águas adormecem-me nas mãos em serena quietude.
O teu nome é liquido no poema em pedra que esculpo,
alta a febre em vários rostos onde rugas te denunciam;
os anos que ficaram por marcar neste fogo de perguntas
e prossigo indiferente à aparente loucura dos livros,
que teimam em filtrar o sentido das noites em branco:
quando os olhos não pendem para um sono próximo
nem gritam em vigilância pelos teus gestos.
- Agora vês:
a tua voz agora no movimento de dedos que sabem ver
para lá do que os céus nos segredam na linha imprecisa
dos lagos - e embalo-os em minhas mãos serenos
como teu nome remando ao longo de mim,
imenso - cá dentro dilantando veias
e alargando o anel desarrumado da vertigem.
Se meus braços os teus ramos fossem em flor.”

Para escutas posteriores em Mp3?

5 comentários:

rv disse...

um post 'daqueles' Nuno !!!

Anónimo disse...

obrigada pela possibilidade de guardar o que se pode ouvir aqui.
são escolhas fantásticas.
e o que se lê é delicioso e belíssimo.
para quando uma sessão com música portuguesa?

Ana B.

Nuno disse...

tky, rv.
a grande porta é isso mesmo, grande.

Nuno disse...

anónimo Ana B.
obrigado pela escuta, leitura e comentário.
quanto há música portuguesa ou de origem portuguesa - isso dava um post ou uma tese :) - vai aparecendo por aqui, sem demarcação.
mas quem sabe talvez tente alinhar um conjunto de canções desse domínio, quem sabe.

rv disse...

( algo de inteligente ou ainda , algo remotamente ) interessante :

- deixa-me ver !

Nuno ,gosto da forma como te " fazes " ao « teu » mar, nunca to escondi .

- a 'porta' nasce de contemplar o imenso sabes - e se então ,pessoas como tu ! 'a' transpuserem ; é possível acreditar que vislumbrei tal coisa , e sinto-me mais pessoa também .

obrigado