12 abril 2010

Até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos, 20100412



A esplanada do aquário não é sítio que se visite horas a fio sem um leitor de música atestado e um “moléchino” para escrevinhar.

Depois de um ano de 2009 que gerou alguns dos grandes discos da década, os três primeiros meses desta, apostaram em manter e até em exceder, o nível dos seus predecessores ( pelo menos nos domínios dos calendários que regem o tempo que teima em nos (des)orientar ).

Destacando-se um pouco de alguns outros - numa perspectiva alfabética da coisa - Album Leaf, Angus and Julia Stone, Balmorea, Beach House, Besnard lakes, Bill Callahan, Clogs, Cocorosie, Dark Dark Dark, Efterklang, Get Well Soon, Joanna Newsom, Kissaway Trail, Scout Nibblet, Seabear, Shearwater, These New Puritans, Yeasayer e, não tendo nada a ver com o isto, White Hinterland de 2008, apenas porque é um disco excelente que só este ano conheci e, porque a possibilidade de um elemento bardino integrar uma lista é sempre algo a não deixar escapar.

Sendo todos eles merecedores de escutas na íntegra, de qualquer forma aqui ficam amostras do fascínio que construíram.

Na franja da produção musical que insiste em se mover pelos territórios mais surpreendentes e estimulantes, da criatividade exacerbada, sempre sob a chancela da qualidade e do crivo de uma diferenciação que se baseia na excelência da composição, por aqui se alinham outras canções de álbuns que foram sendo referidos, com a preocupação de evitar a repetição de títulos de alguma – saudável – recorrência de autores.

Pontuando o esquecimento forçado da estruturação da apresentação dos nomes, Joanna Newsom, num período cheio de armadilhas, que as trevas ocultam, assina um álbum triplamente histórico; ao superar o que parecia impossível – mostrando um sucessore paraYs, verdadeiramente estonteante – a arriscar como só os génios o sabem fazer, ao editar um longuíssima metragem nos dias de hoje, elevando o seu nível como compositora e executante a patamares dos reinos das divindades, esfrangalhando as verdades absolutas da mitologia musical.

A restante gente, lembrou-se de brotar uma solução integrada: geraram um paisagem sonora; encheram-na; deram-lhes uma força motriz para planar; para exercer voo içado, ou quedas abruptas pela beleza íngreme dos espaços que deixaram escancarados e propositadamente receptivos, à queda sobre si, de sons (i)(e)ncantatórios que os contemplassem.

Uns alcançaram um estado de despojamento quase absoluto, todos são presentemente performers que se tornam translúcidos, na execução em exposição total, em respiração simbiótica com instrumentos e palavras, atirando-se à História deste ano e dos restantes, com unhas e dentes, de forma a lá ficarem cravados.

Hiperactividade de alguns deles, com um começo de ano sob o desígnio das aparições em palco, com a edição de registos que testemunham a vida que por ali passou, colecções de canções magnificas, interpretadas no limite; em carne-viva; sobre uma matriz onde se cruzam talento e marés sonoras, como de uma escala de cores por inventar e de tamanhos por definir se tratasse.
Com EP’s poderosíssimos, porque repletos de canções possuidoras de um valor intrínseco incomum, para o projectarem para uma obra de fôlego impossível de medir.

Não se vêm nas proximidades muitas mais canções que possam ser eleitas como tal, e matéria para as escolher não falta.

Observam-se vertentes épicas, de constelações do início das eras, arrasam alicerces, implodindo conceitos, surpreendendo de um modo incrível, até mesmo dentro de cada tema, na evolução de um álbum de que não se quer o fim da escuta e, quantas mais se fazem, mais absorvidos pela massa sonora, que se torna como movediça, somos.

Ao atropelamento sónico; pedidos de socorro tragados por desejos de audições sucessivas; costuma apelidar-se de viciante, certo?

Há minimalismo transposto para o decorrer destas dias, adocicado por vozes que ecoam quando se silenciam, por guitarras introspectivas ou deflagradoras de percussões orgânicas, a sobreporem-se ou a coexistirem com máquinas, que lançam orquestras, transformando esse caldo na reinvenção da Música Popular.

Sob a saborosa dificuldade da opção por exemplares de discos de muitos em 100 – como são o caso de todos estes – se por acaso quiséssemos enquadrar obras assim, em escalas demasiado opressoras para aquilo que representam e acima de tudo valem, sob um ponto de vista do atingimento de autêntico flow ao serem escutados.

Aqui ficam e podem ser guardadas, pequenas ilustrações do que podem encontrar na audição integral destes trabalhos soberbos.

01. Balmorea - bowsprit (CONSTELLATIONS)
02. Joanna Newsom - easy (HAVE ONE ON ME)
03. The Album Leaf - falling from the sun (A CHORUS OF STORYTELLERS)
04. Beach House - walking in the park (TEEN DREAM)
05. Scout Nibblet - cherry cheek bomb (THE CALCINATION OF SCOUT NIBBLET)
06. Angus & Julia Stone - big jet plane (DOWN THE WAY)
07. Kissaway Trail - beat your heartbeat (SLEEP MOUNTAIN)
08. Bill Callahan - rock bottom riser (ROUGH TRAVEL FOR A RARE THING)
09. Dark Dark Dark - wild goose chase (BRIGHT BRIGHT BRIGHT)
10. Efterklang - full moon (MAGIC CHAIRS)
11. White Hinterland - caliope (PHYLACTERY FACTORY)
12. Yeasayer - madder red (ODD BLOOD)
13. Cocorosie - R.I.P burn face (GREY OCEANS)
14. Clogs - on the edge (THE CREATURES IN THE GAARDEN OF LADY WALTON)
15. Shearwater - runners on the sun (THE GOLDEN ARCHIPELAGO)
16. Get Well Soon - voice in the louvre (VEXATIONS)
17. Seabear - fire dies down (WE BUILT A FIRE)
18. These New Puritans - white chords (HIDDEN)
19. The Besnard Lakes - light up the night (THE BESNARD LAKES ARE THE ROARING NIGHT)

2 comentários:

Anónimo disse...

tão bom e a poder guardar outra vez. não ficam pela ordem que se ouvem no blog, mas depois renumeram-se, porque por essa ordem parece muito melhor.
obrigada. Ana B.

Nuno disse...

tky Ana B.