13 abril 2010

Blood Red Shoes @ Porto, Casa da Música - 2010.04.12



Sim, partiram um bocadito daquilo tudo.

Um par de putos muito bacanos: talento a rodos a desaguar em hiperactividade na bateria e percussões e voz de rasgo: desempenho tímido; tecnicamente soberbo; guitarra manejada com arte, por uma menina muito bonita: rock em estado puro.

À fórmula do par distribuído no palco por uma bateria colocada a um extremo - de lado, contrariando o tradicionalismo da localização e a guitarra ao centro, os Blood Red Shoes, respondem com um cunho pessoal, com rock em estado puro, mostrando com muita garra e genuinidade a paleta de canções que resultou de tudo o que beberam e se orgulham carregadinhos de razão, não reinventado o que já não é para isso que existe – não vale a pena alimentar discussões estéreis sobre uma corrente que no fundo não se permite a ser exterminada.

Laura-Mary Carter é uma guitarrista excelente: dona de voz que marca alguma diferença em relação a projectos que gravitam na esfera onde os Blood Red Shoes se movem com um à vontade impressionante: de características menos agressivas, sob um manto de timidez, adocicada por vezes, complementa muito bem a histeria pouco exagerada de Steven Ansell, que se entrega até à exaustão na bateria que domina de forma espantosa e ainda lhe sobra tempo para forçar a voz até aos limites.

Perante uma Sala 2 que podia ter atestado mais, com um som muito bem equilibrado, os Blood Red Shoes, socorreram-se dos seus dois álbuns de estúdio para dar um concerto muitíssimo bom.

Uns putos bacanos é o que são, não é demais referir.

Abrindo com It’s Get Boring At The Sea do disco de 2008 Box of Secrets, começaram a espalhar o seu espólio de forma crua, directa, exemplarmente bem tocada e com uma entrega notável.

Sempre em crescendo, com uma desenvoltura bastante apreciável, foram ampliando a ignição até um mar de chamas de bom recorte.

Num “slalom” quase matemático foram alternando entre temas do trabalho referido e o deste ano: Fire Like This, numa descida ampla a velocidade controlada, transformada em escalada a pulso para uma noite em cheio.

Depois de passarem em grande nível por It’s Happening Again, voltaram ao registo de estreia com I Wish I Was Someone Better já com a chave na mão para abertura de uma área reservada a quem lida com a música de uma forma elogiável.

Pista aberta para o lançamento do voo Liht It Up do disco deste ano, numa explosão brutal, para o regresso imediato ao emblemático You Bring Me Down numa cadência perfeita, num ritmo que crescia a olhos vistos, para um apaziguamento relativo no brilhante When You Wake, interpretado de forma fantástica.

Com o publico absolutamente conquistado, quase desde os primeiros minutos, foi com mestria que foram elevando expectativas e as cumpriram.

As vozes em bom plano, percussão criativa, guitarra ondulante sob mãos de quem sabe o que faz, mantiveram-se no disco que agora editaram com Keeping Close num percurso fértil que permitiu mostrar This Is Not For You de um modo magnifico, anunciado por Steven Ansell, mais comunicativo, com a ssumidamente tímida Laura-Mary Carter, que não percebeu o “és toda linda”, que no encore já gritada no inglês de terras de sua majestade.

Uns putos muito bacanos, sem margens para dúvidas.

Como por monarquias não se regem as noites de rock, o povo que não parava de saltar atirou-se também ele a Don’t Ask, e depois de provocar a satisfação à dupla que teimava em incendiar a noite, ao mais falador baterista, à mais reservada mas sorridente guitarrista, porque a nível de vozes, continuavam a dividir predominância, como o faziam com saltos e retornos das canções de cada álbum: o pretexto era agora um muito bom Say Something, Say Nothing.

Anúncio para a última canção da noite, que felizmente não se veio a confirmar, pese embora o alvoroço incrível, perante a execução monumental de Heartsink.

Saída breve para um triunfal encore, composto por Doesn’t Matter Much, Colours Fade e Count Me Out: objectivamente não por esta ordem: porque o incêndio ia já desregulado, depois de agradecimentos, promessas de regresso, e apresentação de canções com largo espectro de vida, num género onde a entrega e a genuinidade continua a ser a sua marca de água nestes dias: neste caso entregues a dois músicos talentosos.
Após a primeira canção Steven questionou se queriam mais uma duas e comunicou o constatado: prevaleceu a segunda opção.

Uns putos mesmo bacanos.

Com um triunfo merecido, ao alcance apenas daqueles que sabem para que isso aconteça.

Muito bom o concerto: dado por uns putos do caraças: ainda não lhes chamei uns sacanas de uns bacanos, pois não?

2 comentários:

AR disse...

adoro as tuas críticas musicais pah! eu nem conheço metade as bandas mas parece q fiko logo a saber tudo deles! devias escrever nalguma publicação oficial (se é q já n escreves!).

Nuno disse...

obrigado pela leitura e apreciação, "pah"!
as que não conheceres diz, que a pony express entrega se for preciso: estás à vontade.
e as que conheceres, atira, para ficar a conhecer também.
escrevo apenas por aqui - enche-me um bocado e é bom que gostem de ler, muito.
quanto a publicações apenas atiro para o fórum da blitz para ver o pessoal a reagir.
não é um objectivo mas se houvesse alguma que descolasse uns "bulhetes" e patroicinio para o vasilhame já me chegava!