07 abril 2010

LISA GERMANO & phil selway @ Porto, Casa da Música - 2010.04.07




















(post em construção; 23:56)

esta senhora exacerba o espanto de mim: que Magma, jísas!

(post em construção; 00:26)



the darkest night of all


(post finalizado; 02:46)

Casa da Música
Sala 2 ( com cadeiras! – desconfortáveis )
Praticamente repleta.
21:30 – 23:00

Sendo uma porção de vida, um concerto encerra em si um conjunto de situações das mais diversas que se possam conceber, no entanto há essa característica que os faz atingir uma dimensão que não é minimamente escalável: uma fluidez sanguínea que reduz a respiração apenas ao tamanho da palavra, retirando-lhe meticulosamente cada grão do seu significado.

Um concerto de Lisa Germano é a consumação de escutas intermináveis de uma discografia cuja extensão é desprezível.

Há uma quantidade de tempo ínfima atrás, Lisa Germano saiu do palco onde alavancada a um piano e a uma guitarra, socorrendo-se de uma voz que brotava palavras únicas numa sonoridade inclassificável, torceu um edifício.

Quando se pensava que fosse ruir, afinal iniciou a ignição, erguendo-se sobre si próprio, contendo quem, mais do que assistir a tudo isso, lá dentro – implodindo-se – se encontrava, agora, de facto, do lado de fora sem saber o que era chão, desconhecendo o que era tecto, vislumbrando um céu que não era mais do que o centro da terra; núcleo florido.

A estrutura rígida dos conceitos de inclusão, conter, estar; ser contido foi abalada com danos irreversíveis, sem direito a exigência de ressarcimento ao nível emocional, apenas a contemplação de desintegração física.

Lisa Germano é dona de canções de território vago, porque as oferece de forma desmesurada quando as toca e faz com que quem as escute as interprete também.

Há uma dança insuperável, vivida por mistérios insondáveis dentro de ondas sonoras que levam a um naufrágio desejado.

Há carne sobreposta; pele volátil; corpos dizimados; ossos tangíveis apenas com o olhar; passos mudos e abraços feéricos sob vozes que repetem o imperativo da falta de necessidade existirem.

Pode a simplicidade brutal destas composições caber num auditório?
Claro!
A beleza do que é simples cabe nos mais ínfimo dos espaços.
E como a escreve, toca e canta: à simplicidade.
Cabe em nós.
Por ser rara.
Por não estar ao alcance de todos.
O espanto perante o talento e o virtuosismo cadente.
O de Lisa Germano.
Que envolvida com o piano e a guitarra; como se apresentou desnudada, em desprotecção total, perante quem ousa intrometer-se no que é tão único: aquela voz solta entre os dedos que percorrem uma guitarra em soluços ou um piano em suspenso.
Lisa Germano poderia actuar em qualquer sala onde sós, estivéssemos, ou com quem que nos faz encontrar.
As palavras a ferirem a rotação do mundo com cordas e teclas, corpos em dança sublime, o olhar encontrado na penumbra, os beijos e abraços que em pé, na escuridão tão brutalmente podem ser trocados.
A essência do que escreve, a simplicidade que atinge nos temas de frágil complexidade é, a mesma que os que se amam procuram, descobrem e encontram.

A hora a que interpreta as suas canções é, como calculam redundante.
Assim como quem está presente, quem assiste ou faz parte, ou está em palco.

Desta vez a retoma da partilha de um projecto do início do século – 7 Worlds Collide, com fins beneficentes, iniciado por Neil Finn - foi o motivo para estar pela primeira vez no Porto.

Com Phil Selway dos Radiohead, David Coulter sentado com uma parafernália de instrumentos à mão de semear e Sebastian Steinberg em baixo amplificado e contrabaixo, apresentou-se com mais gente em palco, ao contrário da ultima aparição no Pequeno Auditório do Theatro Circo, em que se entregou só, às músicas fabulosas que compõe a sua obra.

O desenrolar dos temas teve uma divisão quase matemática por peças suas e pelas do álbum que Selway vai editar, depois de gravado com membros dos Wilco, Lisa e Sebastian e, embora privilegiando o último trabalho Magic Neighbor, as escolhas fugiram ao mais obvio e identificativo dos percursos, para arriscar com temas, que como referiu, executou ao vivo pela primeira vez.

Para a primeira apresentação de Lisa Germano no Porto, a espera não foi pacifica - de ansiada - a sagração e principalmente o retorno dela, poderia ser muito menos.
Assim que as mãos foram abertas, o encantamento por essas pérolas arrancadas do seu fundo iniciou-se precisamente com Pearls ( mais tarde na set list viu-se a alternativa Hardwood Floors: por mim tinha tocado as duas! ), onde a escuta DAQUELA voz a soltar:
“Falling fast
Raise your glass
Fill your open sores

While you last
Wear your mask
Wear it like it's real”
ameaçou detonação e cumpriu em pleno.

das teclas saiam os sons únicos, da voz, a sensação de a ter escutado ainda antes da nossa concepção, uma coisa inexplicável: pelo menos na parte que me toca.

Restantes companheiros de estrada, inertes, em silêncio, público em devoção: tanta que o curto espaço para a segunda canção da noite se mostrou demasiado imperceptível, de tal forma que apenas uma pessoa, timidamente e com diminuta duração, a aplaudiu, perante a hesitação geral se seria encaixado um tema no outro:
-Thank you! For you. In particulary: atirou de forma estrondosa!

O salto milimétrico para Dreamland, que aparece em Rare, Unusual, or Just Bad Songs foi a primeira grande surpresa da noite: excelente.

A In the Maybe World foi buscar In The Land of Fairies, adensando a cumplicidade e atenção dos restantes músicos em palco, pontuada por pequenos toques nas cordas do baixo e pelo atravessar da lâmina de uma espécie de serrote, com um arco mais usado em violinos e elementos da sua família.

The Prince of Plati foi o primeiro tema do mais recente álbum a ser ouvido, sempre com o piano “imitado” pelo sintetizador como base e a escuta de efeitos sonoros simplicíssimos a servir de fundo e com os restantes instrumentos: percussão, contrabaixo e berimbaus e serrotes em respeito sepulcral ou agitados em pequenas intervenções.
No pouco tempo em que se conseguia retirar os olhos dos seus gestos, era quase deslumbrante ver os rostos dos músicos que assitiam, também eles, à manifestação daquele fenómeno natural: música envolta em vida ou o contrário, não sei bem.

Sempre com pequenas descrições a pontuar o que seria escutado depois, numa comunicação escorreita, divertida e satisfeita pelo que ocorria em frente a um público que lhe guardava um respeito entornado sobre uma admiração profunda.

Antes de dar a primazia de cena a Phil Selway, From a Shell de Lullaby de For a Liquid Pig, a arrasar e, em que se ouve:
“From a little shell at the bottom of the sea
With the earth and the moon and the sun above
But the world fell down with some people still around

There is love
There is love
To be found
With the gods all gone and the souls making sound”
numa interpretação de cortar a respiração.

Muito comunicativa, leve, solta, assim como todos os músicos, que não se coibiam de responder às provocações uns dos outros e aos agradecimentos por estarem juntos nesta tour, que encerrava na Casa da Música, de uma forma completamente genuína, que os rostos por se escutarem e estarem envolvidos naqueles sons.

Phil Selway mostrou cinco temas do álbum que vai editar, com muita competência, trocando de guitarra a cada canção e obtendo a contribuição dos seus companheiros de palco de uma forma a roçar a genialidade, que só o talento permite: The Ties That Bind Us e Every Spit And Cough mostraram alguma qualidade, principalmente pelo excelente desempenho e sonoridade.

Até aqui Lisa Germano é imensa: em segunda – brilhante, não é demais referir – voz, guitarra, violino, flauta, é de facto impressionante o que solta.

Depois de um Phil Selway muito comunicativo, humorado e apresentando todos os músicos, o retorno às canções de Lisa Germano.

Quantificando em quatro os temas que iam ser desenvolvidos, de Magic Neighbor, acabou por executar cinco, com o silêncio cúmplice dos músicos e com a sua intervenção fabulosa sempre que se faziam escutar, fosse em que instrumento fosse.

Depois de Simple, A Million Times, e Magic Neighbor, muitos bons e em crescendo, em prestações irrepreensíveis, assim como a qualidade do som ao longo de todo o espectáculo, mais dois momentos enormes com Suli-Mon e Snow, devidamente sublinhados pela aceitação de um público contido mas absolutamente adivinhado em rendição.

Apresentações de histórias magníficas, principalmente a da versão da vizinha e dos seus gatos que deu nome ao álbum - ao menos isso – e que YEAH, sublinhou!, finalmente se mudou.

Sons dos arranjos completos por instrumentos em círculos, poderia ter suspendido a simplicidade sem a expulsar. As palavras, essas ficaram todas, agarradas às cordas e às teclas que em uníssono esbofeteou.

O objectivo de mostrar Magic Neighbor, foi atingido.
Foi daqui que caíram como folhas outonais, amparadas pelo vento de um piano e a ternura de uma voz, profundos, mas não comparáveis a olhares iluminados em leveza, dos amantes em perpetuação do encontro dos corpos, do uno em que se tornaram, na falta de luz que não se notava.
Olhos brilhando.
Entrega absoluta.
Dança!
Como se toca o amor?
Não surgiu If i think of love, sobrou um magnifico Electrified, de Slide, mais uma surpresa fantástica.

Longo aplauso: rendição incondicional: Phil Selway a não resistir a sublinhá-lo: reapresentando-a, jurando a pés juntos, sem tal necessiatr, o quanto é gratificante tocar, gravar e poder efectuar digressões com ela.

Depois de mais cinco temas do seu futuro álbum, que provocaram uma boa aceitação da audiência, mas a quem à maturação e corpo que de facto possuem faltam o rasgo, a devolver o comando das operações a Lisa que tinha continuado num nível impressionante, assim como os outros elementos durante o acompanhamento das peças, que Phil Selway não se cansava de elogiar, radiante com o que estavam a proporcionar.

Altura para agradecimentos a toda a equipa que os acompanhou e para lhes dedicar Party Time, que embora sendo um tema triste era para ser escutado como alegre: brilhante! E uma aparição de tosse absolutamente igonorada.

Humor exímio, é o que é.

Phil Selway a apresentar o encerramento, a concretizá-lo com uma canção desenvolta e a saída com longa ovação de pé e oferta individual de 4 rosas que os desarmou.

Regresso com as flores, numa demonstração de carinho, respeito e admiração por quem os escutou de forma religiosa e entusiasmada.

Interpretação do que garantiu ser o seu derradeiro tema para deixar o mérito e a responsabilidade do fecho a Lisa Germano.

E mais uma vez surpreendeu, correndo um risco enorme, porque disse que o tinha usado no sound-check e todos lhe pediram que a tocasse mais tarde.

Acedeu e esse lugar de ouro foi ocupado por um tremendo Except For The Ghosts: explosão de beleza, com o piano predominando sobre a guitarra.
Somos transportados para conversas sobre memórias, encostados a janelas entreabertas, difusoras de ruídos inertes das ruas abandonadas.
Os corpos secantes, os olhos em brilho intenso, os frutos partilhados, as mãos apertadas dizendo: estamos fundidos no que somos, no que buscamos, no que encontramos e vamos ser:

Wind chimes
Waves climb
Over and done
Heavy passing
Weightless and one
Alone in the sea
Alone in the sea
The deeper you go
The letting it be
Except for the ghosts
Except for the memories
Accepting the waves
And waving goodbye
Light soul touched and go
Waving
Waving
Waving good things

Inacreditável.

Muito ficou por tocar no alinhamento que durou uma hora e meia bem medida, para fecho bem podiam ter tocado a noite inteira.
Não lhe perdoo, nem a mim próprio.
Gostaria de lhe agradecer durante muito tempo.
Aplaudi-la até fracturar os pulsos.
Gritar-lhe!
Durante muito tempo!
Despedir-me e até dizer-lhe que a amo, sei lá!
Um disparate fodido qualquer!
Porque diabo teremos de morder a garganta tantas vezes?
Queria mais tempo: não assisti a um concerto: vi um ente querido.
Queria tanto mais tempo!
Assim como todo o tempo que merece quem se ama, obrigados a despedidas.
O tempo é mesmo vertiginoso.
Numa sala afinal, enorme onde no inicio de um mês em que o amor implodiu o ano, quando os beijos aceleraram os abraços e o movimento acompanhou o desejo.
E os rostos se acoplaram na luz inexistente.
Também seria excessiva.
O som: aquele som, daquela voz: a exposição de uma alma afinal com existência.
Sim, excessiva.
Como não o é aquilo que os dedos dizem quando se tocam.
O vento desvaneceu-se, a chuva recolheu-se: como são quentes as tardes noites de Abril.
Como conversamos sem nos vermos.
Como nos olhamos sem nos escutarmos.
A cumplicidade não está apenas entre um piano e uma guitarra que aconchegam uma voz que tanto aconchega.
Nem a simplicidade.
Apenas tu, Lisa.

Amei ouvir-te e ver dançar o teu rosto em brilho incandescente atirando teus braços ao som que emanas.

Aparece sempre: as tuas canções são também para mim.

Depois de uma setlist surrupiada onde antes esteve sentada, a visão de músicos felizes nos camarins com vista para a Rotunda bonita e com vista da rua para eles: arquitectura a permitir acenos retribuídos: muito bom!

Ao escutarem aqui The Darkest Night Of All – não escutada no concerto - fiquem com esse seu sussurro do inicio e do fim da faixa: “good night”.

6 comentários:

joão disse...

Hey! A gravação audio do concerto de lisa germano + phil selway na casa da música está disponível para download aqui: http://ashtapes.blogspot.com/2010/04/lisa-germano-phil-selway-casa-da-musica.html

abraço!

Nuno disse...

Bem, se este não é o melhor comentário do mundo, anda lá muito perto.
Da minha parte, obrigadão.
Abraço!

Anónimo disse...

Nunca li sobre concertos como se pode ler no MarSuperior.
A alguns destes eu assisti e parece mesmo que vejo gravações deles.
Outros eu conheço quem viu e dizem que foi exactamente assim com a vantagem de serem muito bem escritos e "emocionais".
Eu fico emocionada a ler.
Obrigada.

rosa disse...

pedi para venderem o meu bilhete e gastarem-no em copos.
não sei quem ficou a perder.
sei.

Nuno disse...

Anónima, obrigado pela leitura e comentário, também pelo que foi sentido.

Nuno disse...

rosa, eu aposto que quem ficou a perder foram copos, quem estava à sua volta e quem não teve hipótese de assistir: em ambos os três, portanto.