25 abril 2010

Sonic Youth @ Porto, Coliseu - 23.04.2010

(para o meu sol)

Este não é apenas um texto que contém as sensações provocadas por assistir a um concerto, que permitem de facto, alguns momentos redentores a tentar elaborar um conjunto de palavras sobre ele.

Não é só de música que se trata quando é dito seja de que modo for o nome Sonic Youth.
Por causa disso mesmo, de se constituírem num Nome: uma classificação gramatical por inventar ou a pureza de um estado por decifrar; uma monumentalidade por esboçar, ao observá-los pelo método da escuta: como uma árvore encorpada, a desmultiplicar-se, de um tronco imponente e milenar, por ramos que são braços de som, assente em raízes de sabedoria.
E o seu movimento quando soçobra a ventos ou gera cataclismos toma o formato de canções.

A dificuldade adensa-se porque se fica perante uma tarefa semelhante a descrever a nós próprios um ente muito próximo – o quanto e como o queremos assim; que diz presente à nossa sanguinação.
Ou então, como nas boas histórias que são para dar a conhecer, pelas zonas limítrofes dos sentidos, com um misto de entusiasmo, veneração, desejo que saibam que os sentimos assim, dessa forma, mas que fique em segredo, recatados das correntes ventosas que possam transmitir em voz demasiado alta o que estamos como que a confidenciar.

Para agitar as águas de forma a torná-las mais cristalinas imediatamente a seguir, os Sonic Youth são O expoente: de todos os projectos e conceitos postos em prática, para cumprir o sonho de dias dedicados à Música, quando nos referimos ao percurso por franjas reservadas, mais do que a talentos exacerbados – que logicamente também o são – a quem anda sempre um passo à frente: antes deles nada era assim: depois não falta quem lhe siga as pisadas e, como em qualquer descendência que se deseja, caminham pelos seus próprios pés, cimentando posições e tornando própria uma existência em muitos casos talentosa.

Ao Rock deram-lhe a volta e também duas letras que não tinha para complementar a sua definição – SY – inventaram-lhe um som, regeneraram-no, a exigir o fim dos processos que levavam à sua extinção: guitarras em respiração sonora de forma inédita, manejo depurado com o decorrer dos anos.
Cordas batidas por mãos sábias ou peças metálicas, interrupção intervalada e frenética de cabos de amplificação: a distorção a levar a melodia atrás de si e esta a servir de transporte elevatório à outra, depois de demonstração cabal de como o tornar uma arte de valor imenso.

Estariam provavelmente – ou se calhar até não – longe de imaginar quão bem aplicada, foi a escolha do nome para apresentar as suas ideias ao longo de todos estes anos.
A uma juventude de cariz sónico aplicaram as regras que basearam o seu caminho pela edição de discos, apresentações em palco ou transmissão de correntes de pensamento de uma coerência exemplar, em entrevistas ou tomadas de posições públicas.

Com uma inteligência quase sobrenatural, escaparam aos domínios de maior exposição e fúteis.
Sem cedências a uma industria destruidora de talentos, através da respiração anestesiante sobre a criatividade, amputação de vontade própria, partiram para elaboração de um percurso onde caiba a honestidade, o valor musical e a sobreposição da arte ao negócio.

Tocaram em Portugal um número de vezes ridículo atendendo à sua dimensão como representantes de uma arte cuja existência nos dias de hoje são absolutamente responsáveis: pelo que desconstruíram, fizeram prevalecer e lhe permitiram regenerar, capturando a entrega de quem a escuta, na exacta medida da que com que se atiram à evolução da sua carreira.

Depois da passagem por cá, por locais que no fundo não são adequados ao som que transportam, no que diz respeito ao formato – vulgo festivais – ou por ser exposto ao ar livre que não faz falta nenhuma ao seu som – embora em 1993 no Campo Pequeno tenham permitido uma noite que nem ousamos segredar – a sua passagem pelos Coliseus, principalmente o do Porto, é a aplicação correcta da teoria da relatividade à génese do que são e, a reposição da justiça a uma cidade que merecia a sua visita há demasiado tempo.

A questão é extraordinariamente simples: quantas bandas editaram tantos discos; tão bons, fulcrais para dar um novo rumo a um género e perpetuá-lo com a recorrência a uma matriz tão soberba?
- Quando a cabeça e o pescoço atingem o esgotamento na busca de reposta, a agulha da certeza magnética apenas apontou para os Sonic Youth.
É incrível a qualidade dos discos que editaram ao longo destes anos, que mais do que a forma como foram marcantes para uma corrente, ou como a partir de certa altura geraram descendentes como cogumelos, se perfilam como os essenciais de cada ano da sua publicação e o modo incrível como perduraram e perdurarão em todos os capítulos da História da Música.

Com as possibilidades que estes novos tempos trazem, numa velocidade que torna o imediato quase que antecipado, o conhecimento dos alinhamentos dos concertos em Espanha e depois o quase antagónico de Lisboa, criou a possibilidade da especulação que lançou a ansiedade para o que poderia decorrer em palco e por arrastamento a toda uma sala.

Tenho para mim, que qualquer que fosse o desenho da “set list” muito ficaria por tocar, mas face à dimensão desta gente, acaba por ser desmesuradamente relativo o conjunto de canções que executem.

Foi tudo isto que permitiu o que se viu no Coliseu do Porto: a poder estar mais cheio ainda! – cabe sempre mais um seguidor no espaço gerado por um som brutal.
A sala que já mostrou uma infinidade de gente que contribuiu exemplarmente para noites inesquecíveis, apresentava finalmente os Sonic Youth, oferecia a possibilidade de ver os criadores de Bad Moon Rising; Evol; Sister; Daydream Nation; Goo; Dirty; Experimental Jet Set, Trash & No Star; Washing Machine; Murray Street; Rather Ripped e The Eternal: contaram?

- Como se vê um rol fabuloso e impressionante de álbuns incríveis contendo uma enormidade de canções, pelo que, como ficou comprovado estão mais que no activo, não decidiram fazer uma revisitação de carreira e concentram a actuação em The Eternal.

De um modo só ao alcance de quem é grande, demonstraram o nível alto do mais recente trabalho com uma garra tremenda, com uma seriedade incomum, encarregando-se de demonstrar o que já não necessitam - com “I Got A Catholic Block” quase como única excepção ao desfilar de “The Eternal”: a outra foi a estrondosa “Stereo Santicty – e, se há temas que já estavam a caminho da galeria dos clássicos, como Antena, Sacred Trickster, Poison Arrow e Massage the History, lá ficaram cravados depois prestação de 230410, pois o primeiro e o último estiveram ligados aos imensos momentos da noite.

Com Kim Gordon a dirigir-se ao público por uma única vez e, sempre preocupada com o som de retorno e disponibilização da guitarra correcta – como eventualmente já terão visto, a set list de um concerto deles, é uma espectacular matriz de nomes dos músicos, tipo de guitarra e de quem assegura a voz! – foi mais uma vez Thurston Moore a comunicar com as massas: a apresentar alguns temas: “for you all sex maniacs, this is Anti-Orgasm, referiu-se ainda a “one of many treasures of Portugal”, ou a dedicar ao músico que assegurou a primeira parte, Leaky Liefeboat.

Mas foi no primeiro regresso ao palco, ao pedir luzes sobre a assistência e fotografar/filmar o maralhal no seu blaquebérri ou áifoda-se, acercando-se do povo gradeado, que testemunhou de forma exemplar os agradecimentos a quem chegou a atingir algum êxtase, com pulos, rebolar por cima das cabeças e mãos dos outros – gosto de o descrever assim - e por vezes com palmas excessivas sem as músicas terminarem, mas temos de ver que é de fuckin’ rock’n roll que - também - se tratava a noite!

Com Lee Ranaldo por mais do que uma vez radiante a recepcionar o ambiente de culto prestado e brilhante na guitarra do lado direito do palco – na visão de quem lá estava em cima – e, Mark Ibold a merecer uma noite assim – “só” é músico dos Pavement – logo de seguida, deixaram Steve Shelley na bateria um pouco mais atrás, com um desempenho notável, servindo de guarda a Kim Gordon no centro – que monumento de actuação – porque o desatinado Moore é um diabo à solta e não há protecção que necessite.

Num palco com painéis com imagens que se incandesciam quando acossados pela iluminação, o som poderia ser bastante melhor, dado o calibre dos músicos e a fabulosa parafernália de guitarras à disposição de tamanha gente.

Se até ao “encore” a actuação foi brilhante, com alguns momentos de génio e uma aceleração do público muito boa, foi no duplo regresso ao palco que a coisa atingiu a erupção: The Sprawl e ‘Cross the Breeze” no primeiro deles , “Candle” e “Death Valey ’69” no segundo.

Meia hora histórica, em que a sagração não se limitou a desaguar mas a submergir “sonicamente” quem teve a bênção de ali estar: guitarras tocadas como não é possível ver todos os dias a pulsarem num conceito muito próximo do sanguíneo, numa perspectiva de redefinição, em que os três temas de Daydream Nation aclararam a possibilidade da revelação e o 25 anos da canção de “Bad Moon Rising” a intemporalidade de um génio: deflagrador.
Guitarras empunhadas e elevadas, tocadas pelo público: em procissão até se tocarem obliquas pelas mãos de Lee Ranaldo e Thurston Moore até à retirada de cena, um por um, com Steve Shelley aninhado na bateria a extrair sons do seu sopé e com Thurston Moore de gatas a garantir que a distorção atingiria o cume antes do palco se tornar um imenso vazio que não mais seria ocupado: tanta merda aberta a noite toda e tinham que acabar aquilo à meia-noite.

Tocar assim; ao atingir aquele estado em palco; agora: depois de os ter em visto em Lisboa em 1993, classificaram o hiato de anos num espaço contido no interior de um vaso sanguíneo: estreito: sem dimensão aquilo que transporta: eu sempre soube que eram únicos.
E a decisão do alinhamento mostra que o risco lhes é inerente e por isso atingiram o estatuto que justificadamente possuem.
Mas atenção, que depois do que assisti continuo a achar que os espanhóis têm uma sorte do caraças!

Alinhamento:

No Way
Sacred Trickster
Calming The Snake
Anti-Orgasm
(I Got A) Catholic Block
Malibu Gas Station
What We Know
Antenna
Leaky Life Boat
Stereo Sanctity
Walkin Blue
Poison Arrow
Massage The History

The Sprawl
Cross The Breeze

Candle
Death Valley '69

7 comentários:

Francisco Alexandrino disse...

Parabéns pelo texto! eu estive no Porto, lá à frente, uau! nao saberia dizê-lo melhor!
E de todas as xs que os SY cá estiveram só não fui ao C Pequeno (não tinha guito para ir... e os meus pais não me deixaram ir de Viseu a Lisboa) e esta foi... inacreditável. nem na aula magna senti aquela avalanche sonora a cair em cima de mim! Saí de lá extactico e com a alma em chamas!
só espero não ter de esperar mais 3 anos para os tornar a ver cá!
saudações sónicas!

Sara Oliveira disse...

Muito bom texto, muito boa banda! Concerto à altura.

Nuno disse...

francisco: obrigado pela leitura e comentário.
os concertos e as ausências deles têm sempre histórias à sua volta.

saudações sónicas too!

obrigado, Sara. E mais uma vez: boas fotos.

Anónimo disse...

Ler o que escreves sobre espectáculos ao vivo, como eles foram e a história de quem os faz é divino.

Nuno disse...

Obrigado.

AR disse...

dás vocabulário à arte. n é fácil :)

e de onde vem o poder da arte? de estar simplesmente lá, quando tudo nos abandona. quando não resta mais nada nem ninguém.

como tu o dizes e eu bem concluí: depois de cada respiração, nada mais volta a ser como era d'antes =)


p.s. não seria possível haver a qualidade de som que os honrasse, e, realmente, o alinhamento espanhol... =x

Nuno disse...

tky :)

esse poder da arte é: poderoso.