19 maio 2010

Micah P. Hinson - ... And The Pioneer Saboteurs - 2010


Não é que a secção de cordas, não fosse um componente de importância elevada, no desenvolvimento das canções de Micah P. Hinson, mas parece inquestionável que a sonoridade do tema de abertura de “… And the Pioneer Saboteurs” poderia provocar o omissão do seu nome a quem tivesse de arriscar o autor do que escutava, com uma venda nos olhos; sentidos despertos e activação de pesquisa alucinante, para agilizar resposta.

Afastando-se da sonoridade mais “country” e “americana” que marca de forma excelente o seu percurso a nível de edições, “A Call ro Arms” parte, voa e chega sem a voz de Micah – o que reforça a surpresa – sublinha a melancolia, torna a tristeza bonita e mostra a qualidade de composição de um classicismo, de um modo a que só os que o sabem por em causa e roubar-lhe tudo o que tem, o sabem fazer.

Despenhando instrumentos de cordas, sobre veredas onde se entrelaçam seres desse formato, até gerarem uma densidade sonora de alcance difícil a quem não se entrega ao seu movimento, somos postos perante uma surpresa tremenda e a aceder a um inicio de escuta de um novo trabalho, inquietante/desejado , no sentido do que poderá vir a proporcionar.

Dono de uma discografia exemplar, onde todos os álbuns são de uma qualidade extrema, Micah P. Hinson, aparece este ano a dar sequência a um disco de 2009, com versões magníficas de temas que desenharam algumas das grandes rotas da Músicas.
A "And The Gospel Of Progress" de 2005, sucedeu "And The Opera Circuit" em 2006, para em 2008 aparecer "And The Red Empire Orchestra".
Agora "And The Pioneer Saboteurs": uma marca de água de títulos, a que a génese de "All Dressed Up and Smelling of Strangers" escapou, talvez pelo facto das composições não serem de sua autoria.

A sua voz aparece, a definir o estado que devemos atingir, para a audição da segunda faixa do disco, “Sweetness” onde sobre um guitarra acústica dedilhada como um complemento a voz pede para ficar sob ela mas acaba por atingir um equilíbrio suspenso, como só a simplicidade das grandes canções permite obter: dois minutos de voz grave, harmonia e ocupação de espaços. entre as cordas da guitarra, como nos habituou ao longo da sua obra.

O salto curto para a terceiro tema, estende-se de sobremaneira, com uma produção exemplar, como inicio de guitarra em distorção, passagem de testemunho ao formato acústico e cedência de protagonismo a “slide” e convivência tripartida, para soltar a voz de acompanhamento, como um outro instrumento até fazer aparecer a sua, num lamento que desemboca estrutura caótica.

A voz não segue um percurso linear, as guitarras entreolham-se procurando descortinar a razão da presença dos coros que as enleiam, até às ameaças de explosão, retiradas de cena, para a aparição de novas texturas caóticas, serpenteando desde metade do tema, até ao arremesso de todas partículas que o compunham, convocando a secção de cordas, alongando o seu final, chamando e expurgando os elementos, sacudindo o chão até ao seu desaparecimento, dando conclusão; gerando espanto, pelo que se acabou de escutar.

“2s And 3s” reforça a inquietação, que sempre surge quando estamos na presença de um trabalho que ameaça ser impar: colecção de grandes canções.

Com “Seven Horses Seen”, Micah P. Hinson, regressa ao somatório de som, mais característico, tema mais curto, também, com guitarra acústica em percurso simbiótico com os violinos e a sua voz envolta, com uma segunda e uma terceira, ecos da sua, numa sobriedade de produção que destaca o protagonismo dos arcos sobre as cordas.
Em “The Striking Before The Storm”, o ambiente é como que enegrecido, apanha-nos descuidados, no sentido, em que a convivência de vozes em loop, com violinos mandões e ocupadores das posições de charneira do desempenho do tema.
Há uma elaboração que não se suspeitava e o desenrolar da acção, vai-nos engolindo quando pensávamos que lhe tínhamos escapado, para a percussão não dar clemência com os violoncelos a inebriar o tempo que restava à peça.

“The Cross That Stole This Heart Away” é uma faixa que nos deixa sem articular palavra.
À sua passagem, respondemos com o silêncio.
No término, a única reacção é o gesto que leva à repetição da sua escuta.
É um tema absolutamente incrível, uma das suas melhores canções de sempre, uma composição onde o fascínio é a nota dominante: duração longa que se torna curtíssima, tal a sensação que permite: prende-nos, torna-nos espectantes, a ver o que dali sai, até a sua voz aparecer soberba, apenas acompanhada pela secção de cordas, até regressar o manto instrumental que trouxe o tema até ali.
Dividem a área das coisas que enchem, sobrepõem-se mas a delimitar o espaço que as faz respirar: há uma cumplicidade que torna admiração e o resultado é de uma valia muito mais que respeitosa.

Quando todas as partes da canção são atiradas sem hesitação para a um caudal que as transporta, sem as engolir: as mantém-nas num estado de facto desintegrante: voz: percussão: teclas: cordas – rumo a um ponto que se vai vendo cada vez mais perto - final com trompete sobre distorção errante.

A acalmia do modo acústico, regressa com “My God, My God”, interrompida apenas pela gravidade da voz, adn espectral, a demarcar terreno sobre a orquestração lançada pelos instrumentos de cordas e por coros que se confundem com o piano, até deixar apenas as luzes acesas para que os dedos as apaguem depois de pousar a guitarra.

“Dear Ashley” é uma balada que desafia algumas convenções de forma magistral.
Os violinos vão-se espalhando por toda a canção e atingem pontos julgados inacessíveis, permitindo a ascensão conjunta da voz, guitarra e pianos, dispensando percussão, pois a elevação é designada como elemento neutro e, damos por nós numa planície sem nos apercebermos como para ali somos levados e, aí, sim, somos despertados pela percussão em tons suaves e sinalizadores do fim do caminho.

A electrónica dá as mãos a vozes e cordas soltas, para preparar a aparição de uma aceleração, cuja ignição é assegurada por guitarras livres, sobre um percussão sem dono que lhe deite a mão, perante a insubmissão da guitarra: a voz, narcótica sobre estruturas que se vão adensando lançando provocações sobre a dúvida da sua génese.
“Watchman, Tell Us Of The Night” é uma canção extraordinária, a confirmar Micah P. Hinson como um eleito: dos que sacodem estilos: abanam fundações, sendo de qualidade se tornam ainda mais fortes pelo grau de risco, toque de genialidade que está na mão de poucos e que é usada com brilhantismo ainda por menos que esses.

“Stuck On The Job” tem som de fundo para projectar a voz que chama e recebe reforços, dela mesma e, da guitarra acústica que se começa a tornar perceptível na exacta medida que o corpo que se desenvolveu assessorado em fragmentos electrónicos o permitiu: final de luxo, de uma balada belíssima, que recebeu a companhia de uma instrumentação esplendorosa, alicerçada em sopros de um contenção delicadíssima, exterminados apenas, pelo ecoar da programação de duração reduzida.

E “She’s Building Castles In Heart”?
Mais uma canção de finíssimo quilate, com alguma electrónica a pontuar a entrada em cena, de uma voz tratada por filtros que lhe torcem o rumo, até ao aparecimento de um órgão que permite o conluio entre a pequena orquestra de cordas e percussão distorcida e baixo omnipresente, crescente fértil, gerador de uma torrente que começa a mover-se imparável, sob as ordens de voz sobreposta a bateria, que apela a todos os outros sons e se deixa manter por lá: densidade emocional ou o contraponto entre uma árvore do diabo e o desprezo pela ausência brusca de um fumo de verão, de um dia diferente.

Micah P. Hinson, regenera a sonoridade da sua obra, confirma caminhos abertos, na experimentação de novas possibilidades contidas nos melhores momentos do anterior registo discográfico: corre riscos e não deixa a claustrofobia criativa apoderar-se da sua obra.

Para fecho, dá um tema com mais de onze minutos, em que o improviso e a distorção reinam nos primeiros sete: sonoridade pesada, estupefacção perante algo totalmente imprevisível de se pensar vir a reconhecer como seu.
Algum desconforto por não se lhe vislumbrar o fim, uma encenação de algo assustador: desvario?, eventualemente.
Até que irrompe o som similar da secção de cordas que provocou a surpresa inicial – regresso de um rio a quem acolheu o seu nascimento – fecho conceptual?, confesso admiração por este tipo de abordagem na criação seja do que for, principalmente no que à Música diz respeito: de ouvir com sorriso irrecusável: corpo cheio: espanto: reencontro.

Não é que a secção de cordas, não fosse um componente de importância elevada, no desenvolvimento das canções de Micah P. Hinson, mas parece inquestionável que a sonoridade de “The returning”, tema de fecho de “… And the Pioneer Saboteurs” poderia provocar o omissão do seu nome a quem tivesse de arriscar o autor do que escutava, com uma venda nos olhos; sentidos despertos e activação de pesquisa alucinante, para agilizar resposta.



Micah P. Hinson - A Take Away Show from La Blogotheque on Vimeo.

11 comentários:

Crissant disse...

Esse disco é bom!
Em alguns momentos ele se aproxima de Johnny Cash, em outros do Bon Iver.
De todas as formas, sensível.

Beijos!

p disse...

uma pessoa nem sabe o que dizer a textos assim sobre discos assim. tinha ouvido duas e desisti logo pq pensei que não ia aguentar mais este ano um álbum assim, seguido de tantos outros. mas, dp comecei a ler-te, e fui ouvir, claro. e ouvi cada uma pelo que escreveste, e bem, a única coisa que há a dizer é que o texto e o disco se diluem num só em grandeza e beleza.

gosto muito da forma como sentes a música e como expressas esse sentimento nas palavras. e este, é daqueles que se agradece verdadeiramente, porque acrescenta tanto ao tanto que já há e nos passaria despercebido. às vezes, temos a certeza que somos um bocadinho cegos, quando nos deixamos guiar assim : chega-nos toda uma outra luz.

telheiro disse...

Este disco só confirma uma coisa: está no top dos melhores cantautores da actualidade!

Abraço

Nuno disse...

primeiro os "cabalheiros": in fact: nem mais, caro Telheiro. Abraço.

crissant: a sonoridade de Micah tem lógicas bases em Johnny Cash, Bon Iver é que se calhar ouviu Micah depois de Cash :D
A grande virtude da música nos dias de hoje é o rasgo com que pega no que tem valor, independentemente do factor geracional, dando-lhe risco e, Micah P. Hinson depois de três grandes álbuns e de por devoção e descontrução assinar um álbum de covers magnifico, atira com um estouro de um álbum.
Obrigado pela leitura, regreso e comentário :) beijos.

p: tu é que não sabes o que dizer!!?? bem: fica-se sem fôlego para agradecer o comentário: um pouco sem jeito, mesmo.
tky

stay tuned

Zorze Zorzinelis disse...

Na Blogotheque há maravilhas e maravilhas para ouvir; os beirut, patrick watson, cold war kids, montes e montes de vídeos de um gajo se arrepiar todo; tb tenho este senhor no meu ipod e é absolutamente delicioso; anda ali entre o Johnny Cash e mais uns quantos do mesmo registo - sóbrio, inteligente, elegante! Tens um coelho?! Não sei se é indicado para dar a um miúdo de 3 anos?!

Joao disse...

Um álbum soberbo que restabelece a fasquia conquistada até MPH and the Opera Circuit.

Se dúvidas existiam por assinar no ano passado um disco brilhante mas sem peças da sua autoria, MPH and the Pioneer Saboteurs confirma o crescendo de qualidade ameaçado (só ligeiramente) pelo anterior de originais.

Sem dúvida uma das maiores figuras da Música actual.

Parabéns pelo texto magnífico que o descreve :)

abraço

Nuno disse...

joão, sende bem aparecido :)
grande disco sem sim senhor.
Obrigado.
E vê lá se pões aqui uns textos: já tarda e fazem falta!
Abraço

Nuno disse...

zorze a blogotheque é um hell of place: há que ter cuidado a entrar, porque depois é uma problema para sair.

O Micah anda entre todos de facto: está-lhes ao nivel: caminha a passos largos para isso.

Quanto ao coelho, não te metas mesmo nisso, acredita: e não, já não tenho.
Para um miúdo de três é bicicleta com rodinhas ou bola nike prateada com equipamento azul com travos de branco, em doses iguais.

Zorze Zorzinelis disse...

ah ok... :)

vou ter em consideração o que disseste; abraço!!

Anónimo disse...

És assombroso a escrever. Sejam espectáculos, impressões sobre discos, ou poemas ( posso chamá-los assim?)

Bjs

Ana B.

Nuno disse...

Obrigado, apesar do exagero.
Podes chamar o que quiseres.
Bjs
Ana B.?