07 junho 2010

Bonnie "Prince" Billy @ Teatro Aveirense - 2010-06-06 (e 7!)

Imaginem um concerto cheio: músicos de calibre sem dimensão e um génio à solta.

Procurem dar um pouco mais de espaço à excelente surpresa causada por uma primeira parte com predomínio para Susanna e para os Susanna como muito bem referiu.
Voz fantástica numa cumplicidade que atravessou toda uma apresentação, em que quase de tornou imperceptível a fronteira entre os autores.

Arranjem uma pausa para forçar a escuta de um guitarrista - Emmett Kelly – virtuoso, com voz de um nível superior, que permitiu liberdade a Bonnie “Prince” Billy, para exercer durante todo o espectáculo uma espécie de aula de aeróbica, de um pinguim laranja e azul claro – assim se apresentou – desengonçado, numa prestação vocal absolutamente sublime.

Consigam, já agora, elevar o valor de um álbum com um crescimento brutal ao vivo e supor uma homenagem à música americana, prestada por um intérprete que é já um dos seus expoentes: exposto através de histórias cantadas por uma garganta em chamas e transparência abismal.

Depois de uma hora de deleite e num regresso ao palco em que se pediu o que parecia desajustado para aquele momento – “I See a Darkness” - após mais alguns momentos excelentes proporcionados por grandes canções, assiste-se a algo que desafia toda a imaginação que possam ter: o que foi presenciado tornou-se inverosímil mesmo depois de assistido.

Susanna abandona o palco discretamente, o baixista segue-lhe os passos, Bonnie “Prince” Billy - de costas para a assistência que encheu a plateia de um local que se afirma - e Emmet Kelly trocam algumas palavras, a guitarra acústica é desligada.
O silencio começa a dominar uma sala que vê o cantor a deslocar-se para o canto do palco ( o direito para quem está lá em cima ) onde não há amplificação.
O guitarrista coloca-se um pouco para lá do meio da linha invisível que o divide o solo que iria desaparecer como praticamente todo o restante: talvez por isso durante a escuta do tema se tenha afastado até ao polo oposto: é de um mundo diluído que se trata, sob uma voz impressionante.

Essa voz, a de Bonnie Billy, a que começa a encher tudo o que é intervalo entre limites que se desvanecem perante a respiração: Emmet ajuda à implosão, alternando as estrofes inicias de um texto de magnitude única.

A guitarra desligada assoma um poder indescritível, a voz de Bonnie Billy sem microfone ouve-se nos recantos daquilo que somos.

O imenso silêncio das ínfimas pausas é apenas cortado pelo choro - que em alguns casos é convulsivo - e pelo sussurrar caracteristico de lágrimas despenhadas por rostos incrédulos, de uma audiência cartografada na ponta de uns dedos invisíveis: vacilante na definição de um ente colectivo ou um ser indivisível, porque se fragmentou e nesse preciso instante, já ninguém sabe se está sentado: a torrente que desfaz a sala é impossível de medir a não ser a alma nua.

Somos levados a acrditar que há momentos que não são possíveis de descrever nem de imaginar.

Felizmente que existe alguém que os tece assim: os faz.

Ainda bem que pediram a puta da canção.

Na religião dos magos, Will Oldham recusa o papel de Deus: é apenas um elemento absorvente da desintegração.

Ao que se assitiu? A algo um bocadinho belo: muito: quase demasiado.

Não se escutou uma canção tremenda nem se viu uma execução brilhante: obteve-se uma dádiva em que os segredos da química e a análise dos efeitos surpreendentes da física se renderam ao mais belo dos sentidos: o inventado: o gerado por um músico que espero bem que tenha percebido o que mostrou neste momento e o tenha conseguido avaliar: é que eu não: nem quero.

11 comentários:

Anónimo disse...

que alívio ler este post. eu ainda não tinha a certeza se aquele encore tinha mesmo acontecido, ou se eu estava a sonhar...

Anónimo disse...

Ao "googlar" à procura de críticas ao concerto encontrei este blog que é muito bom.
Estás de parabéns.
Não é vulgar ver alguém a escrever assim sobre concertos.
Para que se possa ver sobre o que falas há estas imagens no youtube que não tem bom som mas ainda assim são importantes para que quem não esteve em Aveiro possa saber como foi e valorizar a tua crítica.
Obrigada.
http://www.youtube.com/watch?v=D5MOvS__wuk

Nuno disse...

"Anónimo(s)?" que não sei se és o mesmo.
Obrigado pela leitura e comentário, e pela indicação do video do tiotube - vou ali afixá-lo e já benho :) - não se tratando de criticas, são apenas umas linhas sobre o que provocam concertos ou fracções deles.

Anónimo disse...

não somos o mesmo anónimo. eu sou, novamente, o primeiro anómimo (já agora, o meu nome é joão, e assino como anónimo porque o meu perfil não tem nada que interesse a ninguém...).

estou outra vez a comentar para agradecer ao anónimo (o segundo) o link para o vídeo. confirma-se! aconteceu mesmo. não estava a sonhar :)

já agora, apesar de concordar com a quase totalidada da tua opinião (não achei a primeira parte nada de especial), acho que resumiria o concerto em duas palavras. O concerto foi brutal. O encore foi esmagador.

abraço

rosa disse...

uma vez espirrei lágrimas, num concerto do Antony.(!)

ainda nao percebi bem qual foi a puta da canção do encore.

Nuno disse...

João: obrigado pela leitura, opinião e comentário: stay tuned.

Nuno disse...

os encores tiveram várias, mas A canção foi o I See A Darkness: agora deixaste-me na dúvida se fui claro na descrição :D

Houve ali um fenómeno natural qualquer um bocado para o inexplicável: houve.

Anónimo disse...

para não estragar a surpresa, não digo o que é. mas aconselho uma visita ao link
http://ashtapes.blogspot.com/2010/06/bonnie-prince-billy-cairo-gang-teatro.html

joão

Nuno disse...

alguém merece uma gasosa!

obrigado

p disse...

pelo que já ouvi ali do link deixado, cá em baixo foi um bocadinho diferente. e tirando o que não houve, acho que o que se passou fica a pairar no mesmo lugar que descreves : que não sei qual é :) mas é.

Nuno disse...

é um "hell of place" é o que é :)