22 junho 2010

Even the most primitive of societies have an innate respect for the insane 20100622

Gostava de retornar a casa.
Tanto.
Aí terminavam todas as suas viagens.
Recordava com particular relevância os regressos de noites que o enchiam e de como encontrava sempre estes nomes fundidos no som: a extraordinária aventura da voz baixa; bebida de um só trago.
Os abraços, não os sentia perdidos: via-os, como só a imprecisão emocional o permite, reflectidos no rio que espelha a cidade dos prodígios, onde plena, se tinha entregue ao seu tumulto.

Agora a sala exercia o direito ao princípio do terceiro excluído e subtraia-lhe também o segundo.

Aproximou-se da janela e abriu-a: perante os sussurros ecoados, entregou-se à sucessão de imagens que diminuem o conceito de vertigem, apenas possíveis pela forma como as vozes ocupam e libertam o espaço entre os irrisórios limites das memórias.

As palavras sobre a impossibilidade da descoberta teimavam em abandoná-lo.

“como encontrar-te?
- talvez pelo teu canto.
um estranho trilho de notas na água.

a deslizar pelas redes do silêncio,

deixas os teus ecos nas águas”

01 - One White Whale - Laurie Anderson



O álcool tornava-lhe os passos sinuosos mas a dança ágil e os restantes gestos subtis.

O fumo que a inebriou até aí, em conjunto com todos os corpos que a tocaram e que procurou, no expoente de sensualidade que não vacila, começavam agora a asfixiá-la.

A hipótese de libertação que procurou tornava-se mais um peso a juntar a todos os outros que carregava e que até aquele local a tinham levado: chão coberto de matéria viscosa de bebidas que se entornaram ao escaparem de ser engolidas, saltos sobre um solo avesso a suavidade a envolver o pensamento toldado por actos irreflectidos.

O som, potente e soberbo, entontecia-lhe os movimentos, turvava-lhe a visão mas sentiu-se impelida a esperar pela canção seguinte.

Ali se desenhava a melhor sequência de músicas da cidade, cantadas em coro abraçadas a danças ferozes sobre olhares vagos.

Antes de abandonar aquele que já considerava um templo, apelou à aproximação de mais um – seu – seguidor: qual sacerdotisa do despenhamento abraçou-se ao corpo que avaliou por instinto, aos olhos recusou alinhamento e apenas quis vincar o peito a um tronco procurado.
Ancas submissas a mãos a arder de desejo e pernas cingidas ao lobo insatisfeito com um trio de presas.

Buscava em espreitadelas fugazes a zona de saída na esperança de alcançar o par de olhos que lhe mordia o cérebro desde que o vislumbrou na primeira e em todas as vezes que precederam a última – sem acalento provável – que lançou a partida.

Negou-se à visão e beijou a conquista do momento – presa devoradora do perseguidor – apenas o gáudio perceptível nas proximidades do território que demarcou a impediu de o arrastar para o chão.

A música tornava-se orgânica; de facto impressionante e, a canção próxima dos elementos enviados pelo compêndio das regras do inverosímil.

No ápice em que se volatilizou à companhia agora em agonia, se entregou sem corpo à alma de uma voz que conduzia guitarras a um pasto de chamas em colapso.

O choro, esse apenas foi albergado à distância: leitura de lábios sob a árvore do diabo.

À encenação da fuga respondeu com o vigor com que se calcorreiam as ruas esguias que perturbam a serenidade do espírito.

02 - Let The Bells Ring - Nick Cave And The Bad Seeds



- Gosto de estar deitada sobre este chão: a madeira acolhe-me a pele como envolvo as rugas dos frutos.
- Queres que te cubra?
- Não: não tires o braço debaixo do meu pescoço: gosto desse lado da minha face a tocar o seu prolongamento até o queixo o tocar também.
- Posso continuar a contar os ramos que chamaram o inverno a estas àrvores que nos espreitam?
- Claro: a tua cabeça nos limites da inclinação e imaginar os teus olhos a içar o formato do teu rosto, para alcançarem o que os enche, só me faz desejar que o faças.
- A perda das folhas tornou-os brilhantes: a desprotecção far-nos-á crescer ou a dor consome até à exaustão?
Quem reinará nos seus intervalos: ventos da inquietação; desassossego de corpos cegos ou os teus dedos tentando uni-los, procurando a omissão da orfandade das querelas que convocam tempestades que te levam?
- Soltas tantas questões, que me apetece beijar-te para as agarrar e poder devolvê-las no que me permites sentir.
- Os sentidos não permissões nem dádivas de flor ocultas no desprezo da luz. Nada do que sentes é permitido por mim: é o teu recurso vital: o império de sensações que expandes e espalhas sobre mim.
Desta dezena de ramos - posicionados no flanco sem localização definitiva - quantos serão os guardiões de ti, que se degladiam com invasores impiedosos e, tornam leve a deslocação do ar?
- É magnifica a forma como expões as gravuras desses seres que te levam a atenção.
Com isto nem me apercebi que a canção terminou: roubas-me a percepção dos dias e amo isso.
- As canções não terminam: muito menos esta que traz o teu nome em cada pausa.
- E põe o teu perto das minhas mãos quando te trago.
- “Like the leaf clings to the tree,
Oh, my darling, cling to me
For we're like creatures in the wind,
and wild is the wind”
Há tréguas mistificadas.
Nunca os olhos estiveram assim acesos: dançamos agora?
- Outra pergunta: é bom!: - sim, dançamos, desde que me ames: desenfreado: sopra-me.

03 - Wild Is The Wind - David Bowie



Os joelhos paralelos ao solo.
Os braços elevados e a cabeça forçando ignorá-los: olhos cerrados, imaginado ombros a desintegrar-se.
Sorriso digno de jurisdição sem fronteiras.
Dentes apertados até à exaustão e acompanhamento aleatório das linhas da letra e bases de guitarra da canção até a pele se abrir e dar lugar ao sangue nos dedos que rasparam sem descanso a ganga suja.
A percussão balança o corpo e o triunvirato do tronco, pernas e braços procura trazer a explosão à cabeça.
O baixo teima em perfurar as ultimas defesas e socorre-se das guitarras e vozes de apoio em alvoroço.
Mais que caminhar para o fogo ele deslocava-se com ele na imprecisão de destino a atingir: guitarra de um povo sem necessidade de líder para a travessia aberta a bisturi: alegoria de casas a desabar à sua chegada.
A um dia diferente gerou a sobreposição de uma noite escavada a pulso contínuo até ao templo dourado de injúrias perante a veemência das matérias – carne; sangue; gargantas rasgadas - em combustão.
Joelhos elevados: ordens marciais internas: directas a ideias que já não conseguiam ser alinhadas.
Trouxeram-lhe outra cerveja e o delírio não pediu consentimento para dirigir cada gesto que exigia salvo conduto para um poço onde só o fogo reinava: a cada ano de solidão cantou a migração de espécies: à tentação da morte enviou a eternidade do rosto que não ardia.

04 - Dig For Fire – Pixies



Ao modelo portátil de leitura de cd’s ofereceram cada uma das mãos.
A noite tinha-lhes feito o mesmo com o dia e aquele fim de tarde agarrado no meio dos pinheiros apresentava-se mítico.
Ouviam música feita para grandes urbes mas os dedos a tocarem-se com o que sobrava da envolvência ao pedaço mágico que lhes dava os sons de um desprendimento que não conseguiam dar dimensão.

Tinham caminhado muitas horas nesse dia: junto ao mar, por entre corpos entregues a um sol que não tinha nascido para conceder clemência.

Depois de bebida a água da mesma garrafa ao sorriso devolveram castigo e à transfusão dos lábios tinham ido buscar alimento para a epopeia das brasas de uma manhã que lançou braços à volta de um corpo sedento deles.

A rede que unia os troncos das árvores, paralela ao chão de terra perfumada, suportava os seus, cada vez mais próximos, no desenrolar do que pareciam as últimas forças.

À elevação do ritmo que permitia a deslocação das mãos sobre os corpos, simétrico sem o recurso de jogos de espelhos que definissem a linha da separação das águas: fulcro de choques onde o desejo desenhava rumos.

As batidas que sussurravam nas cordas apenas aceleraram a fusão dos corpos e dilatação das vontades: ao som do vento que adormecia a noite e que a eles lhes fez o mesmo: até ao despertar das guitarras.

05 - Unwind - Sonic Youth



Levaste-me no teu dorso, em voos
cíclicos sobre mim.
Entre as mãos colocavas-me
as manhãs gloriosas de brilho.
As canções que se sucediam na
aleatoriedade dos sentidos, precipitavam-se
das sombras das montanhas diferentes.
O mistério assumia o meu dia, tornavam
a negra noite clara, antecipando
todas as madrugadas.

A descarga da vivacidade
em que o teu espírito dança - cavalo alado -
inclinou-me para a queda.
Porque não regressas a mim?

Sou agora um fantasma nos céus:
não é assim tão duro, é terrivelmente pior!
Questionar-me onde voas; sentir o gelo
de ventos que não sopram e o céu
que de ébano pintam.
Mas que não ocultam o brilho dessa face
que desejo saber a radiar.
E quando os olhares se alinham, a
incerteza e tremura que apresenta,
todos os sentimentos quer tocar:
vestígios da busca dos contos escolhidos.

A descarga da vivacidade
em que o teu espírito dança - cavalo alado -
Inclinou-me para a queda.
Porque não regressas a mim?

Sou agora um fantasma nos céus;
por aqui vou esperar que paires.

06 - Morning Hollow – Sparklehorse



porque será o tormento cíclico? porque viajo e perco a trilogia dos sentidos que declinaste sobre mim? não encontro a tua voz: faltam-me os teus ombros, dizer-te o meu amor por ti, em permanência: no interior de um circulo perfeito.

07 - Perfect Circle - R.E.M.



DAQUI



08 - Nostalgia - David Sylvian



Estava exausta.
Ele não sabia sequer se ali estava.
A mais uma repetição da canção debitada sobre eles, a única definição de local geograficamente representável era a respiração simbiótica.
Havia muitas perfeitas: esta era encantatória: acalentadora.

09 - No Surprises - Radiohead



“dizem que a paixão o conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite enumera
o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligeira náusea da velhice

conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo

dizem que vive na transparência do sonho
à beira-mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nenhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos”

( al berto )

- obrigado por a leres: na tua voz ganha sempre um som diferente a cada passagem.
- é um pouco triste: fico com voz embargada: dificulta-me a chegada ao ponto onde termina: chego lá exaurida.
- não é triste: é bonito: e exaurida para além de me soar bem é um estado que te deixa cheia, ou não?
é de vida que se trata.
- sim: a força das palavras é devastadora, mas há como que um fim pesado.
- é de vida que se trata.
- abraças-me?
- porque choras?

10 - Shine a Light - Spiritualized



Tudo o que toco extermina-se.
Perder-te, era apenas mais um exemplar desta enciclopédia da constatação.

11 - Close Watch - John Cale



- “Estás mesmo a deixar entrar em ti todo este som.
Observava-te a dançar quando me dirigia ao bar e comentei comigo mesma: não precisamos de mais ninguém quando estamos com a música, assim, como aquele gajo ali está, daquela forma com a música.”
- Porque escreveste no telemóvel?
- Porque não te conseguia dizer isto: não conseguias ouvir, ó tono!
- O quê?
- Vês: tono do caralho!
- O quê?
- Dass: “Porque não te conseguia dizer isto: não conseguias ouvir, ó tono!”
- Ah! Ya! Tens razão!: já me deste um beijo hoje?
- O quê?
- Já me deste um beijo hoje?
- Gritado assim ao ouvido e puxares-me assim para ti, ainda me dás um filho.
Não, nunca te dei um beijo: hoje não sei se já terei dado: ah ah ah.
Vou pedir ao dj, Nick Cave: qual queres que peça?
- Ah: e eu não danço: abano-me para aqui.
Não faças isso: ele é um druida: de certeza que roda não tarda.
- A Deanna?
- Espero que não: esta merda ainda vem abaixo!
- Ya! Vou lá pedir: costumas falar assim tão próximo: a tocar nos braços?
- Não: apenas com mulheres e quando há dificuldades que impeçam que me escutem, como a música a deflagrar, como agora.
Já me deste um beijo hoje?
- Ok.
( )
- Eia!
- Vou pedir Nick Cave.
- Ele há-de soar: easy.
Aguenta um pouco.
Vais ver que a seguir a Smiths o man atira Iggy Pop.
Táu.
- Fuck! Como sabias?
- Já me deste um beijo hoje?

12 - The Undefeated - Iggy Pop



- Deixa-me mostrar-te uma canção fenomenal: uma letra que já não pensava ser possivel aceder, numa voz que nos arranca do chão: uma composição que estava por aí perdida: já tem uns anos, represente isso lá o que representar.
- …
- e
- é.
- és.

13 – What Of Me – Trespassers William



- Incrível a quantidade de vezes que escutamos esta canção, deitada sobre ti: a respirar-te.
- Os números aplicados a uma quantidade única de sensações que atravessam acontecimentos destes não têm necessariamente de possuir uma dimensão: ficam-se por uma contemplação concreta.
- ( )
- ( )

14 - Ára Bátur - Sigur Rós



AFINAL A LENTIDÃO DO CARREGAMENTO DA PÁGINA NÃO ERA DO OBJECTO COMPLETO NEM DA POSSIBILIDADE DE O GURDAR: "eisíos" :)

( e reactivo o pedido de formação em pódecástes e de apresentação de candidatiras de vozes para os mesmos )

mp3


3 comentários:

Anónimo disse...

O teu blog demorou imenso a abrir e até pensei que tinhas acabado com ele.
Nunca o faças porque para além de ser fantástico, ultrapassou tudo o que podia imaginar com este último post.
Amei.

Bjs

Ana B.

susana disse...

O Pedro Paixão diz que “É preciso elevar a pessoa ao lugar do espanto”. Tu estás sempre a consegui-lo. Brilhante!

Nuno disse...

Ana B., quando acabar com ele aviso antes :)

Obrigado pelo comentário.

Susana: obrigado pelo elogio, sendo no entanto o fundamental eventualmente gostarem do que aqui acedem.

hasta