17 setembro 2010

Antony And The Johnsons - Swanlights - 2010



Lembro-me de deslocações repetidas a lojas de discos, bastas vezes condenadas ao insucesso, para aquisição de um álbum que sabia editado e, que no entanto não era desalfandegado ou sofria um outro qualquer contratempo burocrático.

A sua escuta era adiada e a confirmação das expectativas ou a mais desgraçada hipótese de espalhanço ao comprido dos seus autores - de facto não muito distante de ter entre mãos um trabalho por quem assinava de cruz e que pertencia ao imenso e cruel mundo dos objectos indiferentes.

No advento dos dias cibernéticos, o acesso imediato a discos que o ainda vão ser, aditivado pelo factor de ausência de impressões sobre o seu conhecimento, cria uma ambiência caracterizada por uma excitante mistura de clandestinidade e desbravamento de terreno desconhecido, complementada pelo desejo da busca permitir descobertas marcantes para um tempo, que por mais precisão que empreguemos na sua divisão oferecerá um resto com o qual nunca ficaremos convencidos.
- E ainda bem.

Para a audição daquele que por vezes consideramos um bom álbum, muito contribuem, as sensações que nos comandam, a dimensão onde nos encontramos, as mudanças de estado a que pertence o nosso corpo, sempre sem capacidade de avaliação por antecipação, daquilo a que poderá estar sujeito.

Perante uma obra-prima, tudo isto é inexigível e no caso presente, Antony, depois de escrever uma discografia de um nível elevado, é o que nos mostra.

Confesso alguma resistência, numa temporalidade com delimitação de espaço cada vez mais frágil, eventualmente provocados por uma voz, que não podendo ser considerada barbaramente “ingenuína”, acabava por ser pelo menos excessiva: nos seus contornos, no tom numa necessidade de afirmação que pisava os terrenos do dispensável: tudo isto quando contactei a primeira vez como o seu trabalho.

Com “Swanligts”, Antony and The Johnsons, apresentam um trabalho memorável com componentes indizíveis, acompanhando alguns – muitos outros – discos que alocamos no local onde mais do que guardar segredos, são expostos tesouros: uma galeria que não existe, que está cartografada, que as mãos não encontram, mas a que acedem quem queremos e gostamos , sem a exigência de indicações nem a violência das questões estéreis: emocionalidade que flui: simplesmente.

Com o piano a gerar, fazer nascer e crescer e mais do que isso, a eternizar canções, envoltas por orquestrações fenomenais, contributos estratosféricos, a voz de Antony numa tonalidade repleta de brilhantismo, letras do domínio do arraso, metais e cordas que se movem entre a agitação e a desintegração: sob o manto da “indimensionalidade”.

Nunca percebi porque invento palavras quando me deparo com música assim: a hipótese de estar perante a invenção de um ou mais sentidos através da sua escuta, ganha corpo na exacta medida em que não sei para onde foge o meu.

A passagem pelos temas do álbum pode ser feita pelo modo que preferirem no uso de todos os direitos à forma de conhecimento de uma obra que muito bem entendam: no entanto prefiro o percurso sequencial entre a primeira e a última faixa: a sucessão matemática, aqui assume uma transmissão sonora sem muitos precedentes e uma hereditariedade do que é genial absolutamente invulgar.

“Everything is New” é o tema de abertura, dispara a segunda canção e é dita na faixa de encerramento por uma voz enviada de onde nem queremos saber.
Mas a “promessa” não era esta: “Everything is New” na abertura tem a voz a segurar as pontas de cordas a recusar o caos e o domínio das teclas que deixam ouvir toda a respiração que vai pontuar cada palavra. É o primeiro contacto com um mundo sublime que só escutado deixa transparecer o seu desenho.

Uma composição fabulosa onde a percussão é absolutamente surpreendente como lança a guitarra eléctrica em sussurro e onde a voz se torna néctar a elevar-se com metais e a permitir espaço a violinos em voo descendente até ao patamar onde reina o silêncio e lançado o segundo tema.

E tudo isto se vai separando como matéria e reagrupando como uma substância de que não se sabe o nome, ao longo de todo o disco: voz de área “idelimitada”.
A canção inicial do disco deixa-nos sem chão: é bom não é? Ele há-de reaparecer: se quiser: se o quisermos.

Perante a escuta de canções que tentam demarcar como tristes podemos responder de várias formas:
- pois é: e depois?
- não é triste é bonita.
- a tristeza não é relativa nem tão pouco um sentimento determinante sob a forma de uma canção: talvez uma corrente de ar mitológica que não se deixa aprisionar por passos de vidro.

“The great white ocean” inicia o seu desenvolvimento sob a égide da canção que o precede e estilhaça o que sobrou intacto ou nem sequer nada que a isso se assemelhe: guitarra acústica soberba, voz completamente sem classificação, texturas sonoras de suporte não aos instrumentos referidos mas ao que de nós sobra até ao final do tema: tudo se despenha e desliga mantendo a “umbilicalidade” do que é ser-se através dos sons: a voz alheia-se agarrando-se ao próprio ventre: há lamentos decalcados em sangue: toca-se uma alquimia perdida: o ancestral surge após a colheita actual : há som que “desnasce” e lágrimas que não conjugam o verbo recusar e só conhecem o existir.

É quase impossível não ficar uns minutos sem conseguir avançar para a canção seguinte: “Ghost” “apenas” piano e espaço preenchido por uma orquestração submissa às teclas e a glorificar uma voz que carrega uma canção inteira até ao choque frontal com a beleza que não ousa abandonar após o encontro com os fantasmas de um piano que ameaça vertigem sem a permitir soltar-se: uma composição tremenda e que começa a colocar a questão “como é isto possível” no reino da recorrência perante a estupefacção que tem tanto de saborosa como assustadora.

Em “I’m in love” há voz e percussão em delírio sobre efeitos sonoros estonteantes, sopros inclementes, crescendo travado e atirado aos setes ventos para que o estagnem sem misericórdia: a suspensão de partículas que sustentam o terreno por onde se move o tema, cede: um precipício não tem apenas o fundo como limite: as suas escarpas podem ser vertentes de um mar perdido e onde se mergulha sem medo.

“Violetta” não passará de um exercício de afinação para o que nos poderá acontecer se persistirmos no conhecimento de “Swanlights”: ainda não referi que é um titulo estrondoso pois não?: - também não me apetece voltar ao inicio do texto.

Sim: o título tema do disco é História da liquidificação das almas: voz em ciclos alegando mistérios: encorpando-se e deformando-se sobre efeitos sonoros de sustentabilidade inimaginável até ao clarear de um piano na aurora da orquestra de cordas que atira a voz para terrenos insondáveis onde os ecos são uma forma cristalina de respirar na simbiose da electrónica e da acústica.

A solidão do piano não existe em “ The spirit was gone “: o pó que se escuta premido nas teclas, permitido pela perceptibilidade que é apenas igualada pela voz, num alcance do brilhantismo quase a raiar o insultuoso: violinos e sopros no movimento que só a frugalidade do verdadeiro talento sabe transmitir – como se outro pudesse existir.

“Thank you for your love “ é magnifico: bateria seca a realçar a dolência da guitarra, até lançar os sopros, que de forma intermitente acalentam a voz que serpenteia por toda a canção: quando os metais implodem quando se pensa irem deflagrar: até amaciar o caminho da composição quando se imaginaria que teria de atravessar a rudeza dos dias e acaba por encontrar o veludo de uma noite de chamas.

Sobre “Flétta” a tentação é não possuir palavras: poderá ser considerada por muitos a canção do disco: os pedais do piano escutam-se na exacta medida das teclas em sublimação: inerente à voz de Bjork: inacreditável!- como soa: só ou sublinhada pela de Antony: contenção a atingir a perfeição: os Sigur Rós inventaram um dialecto onde não queríamos saber o código para o decifrar: a dança do piano: vozes a deslizar ou em queda livre, cascata de ondas sobre terrenos vulcânicos onde os seres se regeneram e brotam cânticos como estes, o que esta gente nos atira: numa dádiva onde não se exigem sacrifícios e onde nos encontramos ou julgamos poder fazê-lo.

“ Salt silver oxygen“ não passa de uma composição incrível – tanto: orquestração fantástica, arvoredo de texturas clássicas abraçando uma contemporaneidade como só as grandes canções o sabem ser: a voz é intensa e dominadora sobre a execução instrumental de alto quilate, que manufactura os sentidos, levando-os à existência sobre a forma de filigrana que se agita quando o tema assim se despedaça também.
Não “havendo” ainda disco, não há muita informação técnica sobre o mesmo: prefiro o valor que as canções têm para mostrar - até se não pude trocar impressões sobre elas – e estas tem muito: em quantidades imensuráveis: um disco inverosímil.

Sempre me fascinaram as últimas canções dos discos: há uma infinidade de exemplos em que se tornam as melhores dessa colecção de músicas e, “Christina’s Farm” não lhe foge à regra: a mais longa das peças será também “A” canção do álbum: pungente, interpretada de forma majestosa, composta magistralmente: o piano está em erupção, a voz espalha-se até atingir um ponto de contacto com a ressurreição de demónios em estepes onde se segredam tumultos: apologia da beleza como só o som o faz, até um final de tema esplendoroso.

O que fazer para que não se escute apenas este disco uma semana inteira? – por mim, no fim-de-semana vou para o Rock: se lá chegar!

3 comentários:

p disse...

a ouvir o disco à uma semana, fui ouvi-lo agora, atravessado pelas tuas palavras e não sei se se consegue ouvi-las dentro das canções ou se são as canções que se conseguem ouvir nelas: mas qualquer coisa mudou.
nunca deixas de me espantar quando escreves: assim. não sei que raio de dom é esse que tens de fazeres da palavra e da música um só lugar, onde se sente tudo.
olha, fizeste-me chorar.

Crissant disse...

Eu ameeeeeeeeeeeeeeeeeiiiiii!!!
Estou ouvindo agora de novo!!!!!

Super obrigada!!! Beijos!

Nuno disse...

obrigado pela leitura e comentário: o fulcral é o que "fazendes": escutar o disco: sempre que vos aprouver :)