06 setembro 2010

A Ilha dos Espelhos de Sangue

( é no que pode dar a contemplação de realidades míticas e objectivas :D )

A Ilha dos Espelhos de Sangue



Em tempos houve um país que deixou de o ser.

Tornou-se oco: esvaziou-se conscientemente: abraçou a infertilidade - sem peso na consciência.

Abandonou-se.

Omitiu-se.

Permitiu-se ao desmando de néscios eleitos sobre a tortura dos mais básicos indicadores de representatividade.

A esterilização de ideais foi cumprida sem hesitação e a promoção da futilidade efectuada sem qualquer ponta de pudor.

Quem se formou – mesmo em condições deficientes – foi escorraçado através de cânticos da desmotivação, que tornaram a resiliência em vão e os portadores de memórias exterminados: à diáspora dos seus talentos e à desistência dos que restaram, foi mostrado o sorriso sinistro de quem prefere um rebanho teleguiado e um mar adormecido a uma nação que se move e se reinventa e, sabe como é imperioso que fervilhe a busca incessante de novas respostas para pistas lançadas por quem tem a sabedoria de o fazer de forma exímia.

A lobotomia emocional era prática comum e engoliu mais tarde os seus realizadores.

As imagens destruídas levaram também consigo os sons do alento e da beleza e aceleraram a decapitação das palavras a que a força tinha sido roubada: o movimento das mãos e a dança dos corpos eram representações fugidias na mente, de quem ousava activá-las em cantos escuros onde se mordiam lábios, cuspia sangue e não se controlavam lágrimas.

No auge da ineptidão para percepcionar o que era tão claro, a propagação de ruínas não passava do resultado de insatisfeitos obreiros da "maledicência" e a degeneração de paisagens únicas, lamentáveis fatalidades geradas pelo simples ( e mais tarde óbvio ) facto de as divindades – “sim: até essas!” – desgraçadamente os terem abandonado: mas até aí, “ foram ainda mais gloriosos, ultrapassando as adversidades”.

Como ciência apenas sobreviveu a estatística manobrada que se aliou à retroversão mental e à teorização da hipocrisia.

A podridão era maquilhada a qualquer preço: os consultores de imagem pulularam até à exaustão e reconversão laboral que tanto ajudaram a defender.

As oposições aglutinaram-se e, mais tarde acopladas ao poder - porque no fundo nada de substancialmente diferente entre eles existia e os pontos de contacto se revelavam de forma crua: intermináveis.

As restantes peças do puzzle Continental exigiram uma operação de desagregação geográfica – rios alargados sem misericórdia, serras elevadas ao limite da intransponibilidade: árdua a tarefa da geração de deltas dignos de mitologia, com a urgência que se exigia e solos rochosos multiplicados sem dó e divididos sem piedade.
A intenção: perante testemunhos comovedores de quem antes as tinha alcançado - evitar o contágio de tão funesta mentalidade que passou a ex-libris de uma governação que extinguiu o brilho para elevar o prémio à incompetência.

De nada valeu o arrependimento pela passividade perante o que era talvez demasiado claro e, revolta foi uma palavra e um sentimento dados como nunca existentes.
A partir daí, tudo o que pudesse ser transformado em vidro e folhas de alumínio era consumido e os restantes recursos abandonados à sua sorte e decretados como substâncias nocivas ao desempenho brilhante de quem “ se dispôs a fazer sacrifícios pelo país” e fomentou o reforço do tecido industrial que se viria a desintegrar fatalmente: monocultura de vontades.

Hoje ostentam orgulho perante milhões de espelhos, que são tratados meticulosamente por outros tantos milhões de seres, de modo a assegurar a sua resplandecência: gente com a alma hipotecada e respiração artificialmente assistida, para perpetuar a influência do seu comportamento, pensamento e direito a sonhar, independentemente do custo das perdas para a sagração da mediocridade.

O que de facto importava é que o objectivo da implementação de uma sociedade de serviços tinha sido atingido na íntegra e a promessa do pleno emprego efectivamente cumprida.

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