05 outubro 2010

foge foge bandido @ hard club - 02.10.2010

( como se de um ensaio se tratasse, com muita gente a ver? )

Depois da resignação pela impossibilidade de ir ao novo Hard Club e logo com Foge Foge Bandido, eis que surge a abertura de uma passagem que ia permitir aceder à galeria onde se assiste a canções que sustentam um álbum fabuloso,e que porventura poderia deixar sem controlo uma certa euforia que turvasse a opinião sobre o concerto.

Num espaço que cheira a pintado de fresco, num dos edifícios tremendos de uma cidade que os trata por vezes tão mal, contido numa área tão marcante do burgo que concede certidão de nascimento a tantos criadores de música de enorme valor: e este: Manel Cruz, ostenta o sotaque como nenhum outro.

Penso ser importante referir que, para se cantar, não é necessário arredondar por excesso a sonoridade das suas palavras sob a égide da rigidez de uma norma, que fiscaliza a vocalização das letras: retirando-lhe alguma autenticidade; roubando-lhe a origem.
Tome-se como exemplo a música anglo-saxónica: a articulação do som e as suas sequências não é adulterada: muito facilmente se adivinha de que região aparece quem escutamos - nem o conseguiríamos admitir de outra forma.

Na música portuguesa é bom assistir ao modo como os cantores alentejanos soam; como as palavras de Adolfo Luxuria Canibal crescem, arranhadas e alicerçadas no som do granito das calçadas de Braga e, com Manuel Cruz, como algumas das letras provocadoras de um espanto sem dimensão - a perdem apenas no sentido da incapacidade de serem medidas - a viver, de forma sanguínea, na cidade dos prodígios, espalhadas de modo antológico ( neste caso ) num concerto digno dos manuais da mitologia, depois de reunidas num dos melhores discos de sempre da História da Música Portuguesa e não só.

As palavras de Manel Cruz ditas por ele soam de uma forma brutal.

Num país demasiado pequeno, o Porto na noite de 2 de Outubro de 2010, consegue o fantástico mandamento de apresentar Manel Cruz, Mão Morta e Pop Dell’ Arte numa simultaneidade que devia de ser proibida.

As próximas ideias de força – ou o que delas resta ou se pode aproximar – são sobre Foge Foge Bandido no Hard Club e omitem o quanto custou perder os restantes: porque por aqui apenas se procura a referência ao arrebatamento.

Numa sala com excelentes condições e óptimo desenho, um palco repleto de instrumentos espalhados de ponta a ponta a fazer adivinhar uma presença generosa de músicos, a esvanecer o receio da falta de evolução em relação à última vez que me foi possível assistir a um espectáculo de Manel Cruz – no Sá Da Bandeira em Junho de 2009? - dele se espera sempre crescimento: sabedoria a ser aplicada na travessia dos dias de tão difícil arte.

A ausência “das mesas iqueia” que permitiram no teatro portuense um muito melhor desempenho (ainda que demasiado escondido: um bandido não se esconde: foge) que o do Festival Para Gente Sentada, mas ainda assim a deixar um travo a “podia ser melhor”, dava bons sinais e aumentava expectativas (concordo que a exigência colocada a Manel Cruz possa ser excessiva, mas o seu valor não deixa margem de manobra).

Por vezes entre um bom concerto e um excelente, existe a distância de um abismo e Manel Cruz, com mestria, agora soube atingir o extremo da última hipótese.

Quem tem o dom e o fabuloso esforço de produzir uma obra-prima assim, também sente que pode dar a mão à palmatória perante a não opção pelo melhor dos caminhos para a apresentar e, é por aí que Manel Cruz também se destaca: reconhecendo, que a tentativa de mostrar o seu trabalho discográfico “praticamente” só, em palco, mais do que lhe retirar a liberdade, lhe roubava a paz, para viver nele o desfrute de uma obra de que se pode e, mais do que isso, se deve sentir orgulhoso.

O que Manel Cruz construiu - com a ajuda de uma mão cheia de instrumentistas de mão cheia ( a redundância de uma palavra e do seu som, pode por vezes saber bem como o caraças) foi um concerto magistral: uma noite mágica, pelos menos nas duas horas que durou e nas quase quarenta canções que mostraram finalmente em palco toda a sua riqueza, não como ostentação mas como merecimento à sua génese.

Um alinhamento perfeito, canções a escorrerem como néctar em mãos, um som soberbo, uma atmosfera indizível, a estender-se do palco a um público que o prolongava, como uma massa única, a mover-se pelas marés das noites memoráveis.

Leveza absoluta a transpirar na comunicação entre todos os músicos, trocas de posições no limite da imperceptibilidade, aparições e desaparecimentos perto da desintegração ( a saída de Álvaro e do seu trompete a extinguir-se e a extinguir “As minhas saudades tuas” é de campeonato ), conversas sobre avarias de instrumentos e pedidos gestuais à assistência “é só mais um bocadinho, acabamos já, ok?” entre afirmações carregadas de humor e boa disposição, a boa onda com que iam e vinham os colaboradores de tão preciosos momentos é quase indescritível: só vivido perto do palco se entende e longe dele se capta.

A genuinidade dos “obrigado pessoal”, a alegria assombrosamente verdadeira sentida pelo desempenho de um “roadie” na bateria, ou do brilhantismo atingido por todos os restantes músicos que mais do que o rodearem, estiveram a seu lado, no afinco da afinação da guitarra que não permitiu ver a chegada de Teresa, e pedir tardiamente a sua presença, o romper de "regras" impressas em folhas A4, e solicitar o regresso não previsto de Álvaro para “Canção da canção triste”.

A referência à tentativa sem rede de “Mau hálito” e que depois com “Eleva”, “Quem sabe”, depois ”É sempre a descer” – se não foi acidental pelo menos foi brilhante.
Luzes apagadas só com as vozes dos músicos em “Sempre a pensar”, salto ao eixo sobre pequeníssimos problemas técnicos, ou demora por encontrar os pequenos instrumentos que engrossavam o espectacular número sobre o palco, de forma magnifica.

Todos estes pequenos enormes detalhes, aliados a uma cumplicidade em palco a aproximar-se do inverosímil, com a temperatura quase a exceder tudo o que lhe era permitido - as camisolas despidas ameaçavam tornar-se um substantivo colectivo - a comunhão por tudo isto com uma assistência rendida e fascinada pela entrega de um punhado de músicos que fizeram finalmente justiça a um disco portentoso.

Descrever cada canção executada ou eleger momentos altos seria tarefa inglória:(foram-se sucendendo com naturalidade e por aqui aleatoriamente referidos)cresceram desde a gravação e foram tocadas de forma irrepreensível, preservando toda a sua identidade e mutações - como em "borboleta" - notáveis: uma canção tem muitas (formas) (de) vida(s).

Cada palavra das fantásticas letras das excelentes canções de “O Amor dá-me tesão” e “Não fui eu que estraguei” sob e sobre a qualidade sonora e forma como foram tocadas, permitiram-(nos)(lhes) um concerto inesquecível.

Retenho o hermetismo ter sido implodido, tal como Manel Cruz o fez à forma como compôs as suas/nossas canções: hoje felizmente, algumas janelas se abriram e muitos o "seguem" e, também por isso este seu trabalho é histórico e vai um dia ter o seu verdadeiro reconhecimento.

E foi bom ver o lado mau da ânsia para que tudo corresse bem ser vencido: e assistir ao triunfo dos bons bandidos, que oferecem água a quem os escuta e usufruem por estar a dar tudo o que têm em palco.

O perfeccionismo com os seus temíveis excessos ao tudo querer abraçar poderiam ter alongado a asfixia de um trabalho - que não é bárbaro repeti-lo - é de facto do melhor que nos foi dado a conhecer e, a inteligência com que rectificou uma parte do percurso que queremos próximo do interminável, a forma como desenrola a sua carreira, a excelência da sua composição e interpretação, são factores a aumentar a admiração que obviamente por ele se sente.

O Hard Club começa (já) a ter que contar: um dos melhores concertos que se assistiu até hoje no Porto, foi dentro das suas portas.

Manel Cruz, mais do que ninguém, fez por merecê-lo: e nós limitámo-nos a aproveitar o que desejámos.

Quanto a mim, não posso negar, a enorme satisfação, por ver como ele sorria no final dos temas, assistir a como se sentia, por o concerto estar a sair assim: excepcional; por a sementeira permitir a colheita de belos frutos: o gozo e a leveza com que esteve em palco e depois a conversar fora dele - a genialidade sabe bem, servida nos melhores dos seus componentes: simplicidade e talento.

o alinhamento, não consegui "fotografar" :)

Foi no teu amor
Não aldrabes
O medo de ter de errar
Fartos do que tu não tens
Ninguém é quem queria ser
Noções para viver sem ti
Acorda mulher
As minhas saudades tuas
Vida adicta
Desce à cama
A lenda da verdade
Canal zero
Estou pronto
Uma historinha
Diz-me se aprovas
Tirem o macaco da prisão
Um tempo sem mentira
Meu amor está perto
Canção da canção da lua
A cisma
Fechado para obras
Canção segredo
Falso graal
Cenário perfeito
À sua volta
As nossas ideias
O caminho certo
Isso não vai mudar
Insónia
Borboleta hardcore :)
Sempre-a-pensar
Tu não tens de o fazer
Canção da canção triste

+

Mau hálito
Eleva
Quem sabe
Ainda pode descer

+

canal zero speedado

3 comentários:

susana disse...

eu sabia que ías conseguir escrever a excelência. só tu!!! (e agora, se não te importas, vou ler outra vez)

p disse...

(tudo): imprescindível

Nuno disse...

:)

obrigado pela leitura e comentários.

não bólto a escrever directamente no editor do blog: tanta gralha, jasssus :)

e não quer dizer que hajam muitas ainda