29 outubro 2010

the tindersticks @ coliseu do porto - 27.10.2010





Uma cadeira do Coliseu do Porto, vazia, num concerto de Tindersticks já andaria perto de ser considerada um crime, muitas, tornam-se um cenário quase confrangedor e já se ignoram neste inventário galerias ao abandono: imperdoável.

Com a sonoridade de Danças Ocultas a permitir uns minutos bem cheios - projecto de uma resistência a elogiar, com qualidade de composição notável, a que faltará um leque de instrumentos maior, para evitar algum hermetismo e fazer voar peças que estarão acorrentadas, dando-lhes novos rumos que as potenciariam, correndo o risco , é certo, de lhe retirar a marca de diferenciação que possui.

Quanto a Stuart Staples e restantes músicos: mais do - muito bom - mesmo: grandes canções mostradas, num alinhamento próximo da digressão por cidades mais afastadas dos centros habituais, realizada já este ano, desta vez com um cenário que poderia ser mais exuberante, (comparar com Guimarães) no CCVF, com um nível de som uns furos mais abaixo, desta vez no Porto.

A entrega, essa, foi a de sempre, o ritmo do espectáculo menos solto e oleado que o de há uns meses - Stuart Staples referiu que o facto de algum tempo sem estarem juntos, possa ter ajudado a algumas hesitações na abordagem dos temas.

Algumas peças dos álbuns mais recentes ( "The Other Side Of The World", "Factory Girls") a confirmarem o acesso a históricos da banda - fabulosas mais uma vez em palco, crescendo sem controlo - que voltou a montar a teia de à volta do último trabalho: ombrearam com "A Night In", "Marbles", "Raindrops" e "Sometimes It Hurts", quando estas já detém o cunho da imortalidade, pelo peso concreto de canções dos dias da pele trocada e abandonada, no decurso de perdas e ganhos, tão dolorosos; memoráveis ou imperceptíveis.

Com muitos momentos altos, silêncios a lutar corpo a corpo com o preenchimento do espaço, a voz - a voz! - servida por uma percussão perfeita, guitarras a soar como fracções impossíveis e um violoncelo a atingir detalhes próximos do inversosimil.

Duas horas bem medidas, a esvoaçarem entre agitação de corpos sentados e cabeças a flutuar comandadas por olhos bem fechados.

A marca de água desta noite, fica-se por uma questão meramente pessoal: pela primeira vez assisti a um concerto dos Tindersticks no Porto e, depois de um alinhamento programado, ser arrebatado pelas canções que referi, a que adicionaram "Tyed" - quase cruel - poder escutar no Coliseu "City Sickness" a abrir o regresso ao palco, a passar por "Bathtime" e "Tiny Tears" a fechar uma noite que não posso esquecer.

Porquê?

Porque pude vê-los na cidade onde apenas os tinha escutado: na cidade que se torna gémea de tantas outras na escuta de algumas das grandes canções do século passado numa alquimia que desintegra ruas para as tornar mares: onde tudo o que vemos quando contactamos músicas de um obra soberba, perde a forma e o conceito: o calor e a substância que apenas os sentidos sacudidos por uma sonoridade assim permite atingir.

Corpos percorridos com minúcia em chãos a desaparecer ou, em ruas em construção emocional;ou; viagens solitárias onde os reinos da devastação são reclamados por lágrimas sob o som de composições destas; e; sóis adivinhados e acedidos após negrume engolido sobre vontades impedidas: assim, a soar na cidade dos prodígios, pode causar a deflagração de espelhos e desenfrear jogos de sombras e fumo, que simbióticos, aceleram o tumulto dos olhos, com o pretexto das migrações do fogo.

1 comentário:

Tindergirl disse...

Muito bonito. E triste também...