10 novembro 2010

broken social scene @ Porto, Casa da Música - 2010.11.08

Nunca gostei de comparar músicos, bandas, canções, álbuns e concertos: forçosamente haverá injustiça ou pelo menos sou atacado por uma sensação de diminuição do valor a prevalecer quando se tentam sobrepor prestações num desses formatos e, com os Broken Social Scene tudo é mais fácil, uma vez que não são parecidos com ninguém: muito menos com eles próprios.

A música por demasiadas vezes dificilmente é criada como forma de arte e, quando atinge e nos faz atingir um patamar de magnificência ao escutá-la, por muito que queiramos respirar no meio de turbilhão de sensações ou então, apurando o grau de dificuldade, tentamos falar ou escrever sobre ela; descrevê-la - por mais ideias que coleccionemos, apenas à extrema simplicidade da sua essência estamos a prestar homenagem.

Tudo isto para enquadrar algumas imagens sobre a sonoridade que o colectivo Broken Social Scene oferece a quem ousa mergulhar no seu universo.

É como se de um caleidoscópio orgânico se tratasse quando somos atirados contra aquele som: há autores e interpretes que são sanguíneos, outros viscerais, uns depuram a beleza a um estado em que apenas se sobrevive sob a pele.
Há ainda quem traga a Natureza ao desenho do som, outros que o levam até ela envolvendo órgãos e sistemas vitais: muitas vezes som; vento; fogo; água; magma; virtusosismo; vasos sanguíneos e geografia emocional se fundem de uma forma que nos leva ao arrebatamento.

Óssea é a substância que transporta a sensação do som deste imenso e enorme colectivo canadiano: densidade sonora entre carne e circulação sanguínea, pulsar controlado sobre combustão espontânea: o desenvolvimento de canções assenta numa matéria que de facto pode ter um sucedâneo, mas que não respira e faz mover robustez genuína, massa irrepetível, como que endémica.

Os Broken Social Scene não são possuidores de uma textura sonora fácil: é de uma complexidade estrutural absoluta, quase brutal que as suas composições vivem: uma acessibilidade formal labiríntica, que distorce um percurso expectável de uma canção, que não a torna hermética nem trabalhada, com a sabedoria que evita que depois não se perceba o que se procurou produzir.

O brilhantismo das composições é o mesmo como que Kevin Drew caminhou lado a lado com os restantes elementos, para realizar um concerto de eleição: uma escalada a pulso, para mostrar de forma assombrosa um conjunto de canções de valor incalculável com um grau de dificuldade imenso: o catálogo de temas não apresenta nenhum exemplar enquadrável no conceito de "hit song" nem a matriz do projecto permite uma adesão explosiva ao som: por isso mesmo o resultado final tem de ser devidamente realçado: o tumulto sonoro que abalou a estrutura da Casa da Música limitou-se a fazer o mesmo a quem se rendeu sem o minimo de restrições a uma apresentação extraordinária: ou o assombro perante a brutal crueza com que apenas a matéria óssea sabe abrir o capitulo fundamental de um manual de prestidigitação aplicada à geração de música.

Para agitar as águas: a queda sobre elas de uma constatação que me parece muito mais que um mero formalismo: os Broken Social Scene, permitiram-me no Porto, na Sala 2 da Casa da Música, em 8.11.2010, assitir ao concerto dos meus dias.
Assento esta ideia, quase 24 horas depois do início do espectáculo, num número de premissas agora numa quantidade difusa, mas que no final logo se verá onde chegou.

Alinhamento / duração do concerto Em muitas apresentações, quando possuem um legado monumental, alguns autores ou privilegiam o disco mais recente, quase o esquecendo, ou então cedem à tentação de produzir em palco como que um best-of, tornando a prestação fastidiosamente previsível, por muito boa que seja toda a organização do concerto e restantes parâmetros.
E na Casa da Música os Broken Social Scene, com 23 /24 peças, construíram em palco uma sequência de temas, perfeita, ao longo de duas horas, fazendo conviver os “old ones” - como Kevin Drewer por diversas se referiu de forma singular aos grandes temas das fases anteriores – com os mais recentes espécimes.

Qualidade do som Característica fundamental para um concerto inesquecível, este aspecto não foi deixado ao acaso: irrepreensível e a acrescer a dificuldade de fazer circular num palco tão pequeno tantos músicos, “roadies” e uma panóplia de instrumentos, sem falhas, a transparecer um organização impecável e uma maturidade incrível, que a rodagem de uma digressão com algum tempo de duração por uma banda experimentada torna tão natural como inspirar e expirar.

Desempenho / entrega / capacidade técnica Falar de Broken Social Scene é referir músicos de um quilate elevadíssimo, compositores de fina água, que vivem no palco a paixão que os faz mover de uma forma assustadoramente simples. Com uma entrega inexcedível, execução perfeita de vários instrumentos, prazer em tocar e felicidade pelo resultado obtido: o que é respirado em palco é consumido e absorvido fora dele em doses maciças e enche a alma de quem escuta, vê tocar e é tocado avassaladoramente até a um esmagamento próximo da desintegração, provocado por canções densas, aparentemente impermeáveis a uma tentativa de as assaltar para a consumação de um roubo, que afinal não é necessário: motivo e o produto dele acabamos por ser todos nós.

Transposição dos trabalhos em estúdio para o palco fazendo-os crescer A discografia é repleta: álbuns fantásticos, onde apenas a facilidade, o mau gosto e o obvio não são convocados. Temas tremendos que executados assim, baseados na reprodução inquietante do registo original, acrescidas por pormenores e pela visibilidade adivinhada de trabalho árduo sobre talento inato, faz discorrer um espectáculo como um percurso de água cristalina a unir margens estupefactas, e atravessar todas as formas geométricas possíveis, rumo a segredos “incartografáveis” e imagens irreproduzíveis.

Desenho (em cima) do palco Com tanta gente a habitá-lo – oito, nove, 10?: - que se lixe! Quem quer saber? – a trocar de posições – apenas na bateria e na guitarra situada na extremidade esquerda não houve permutas na ocupação fabulosa de uma área exígua que se tornava afinal tão vasta. As mudanças tinham tanto de alucinantes como de imperceptíveis: a velocidade não se dava a medições e o estado físico e emocional após o choque frontal com uma prestação de elevadíssima qualidade, arrasando standards para a avaliar, começava a vacilar para anotações: a memória era ocupada sem remédio e sem validade pelos temas que tocados, de um modo a que apenas a perpetuação concede tréguas.
Guitarras a dar lugar a baixos, aparições de flautas, trompetes e saxofones sob o manto das muralhas de guitarras a moverem-se como só a inquietação o sabe esboçar, na agitação rendida a vozes de um valor só alcançado pela leveza com que a rotação de elementos em palco se assemelhava aos que o caos gera sob o controlo de uma tabela periódica sem autor e que os dedos procuram percorrer sem desejo de fim, pelo corte de vozes talhadas para ocupar os limites deixados em suspenso pelas cordas gémeas de sopros: filiação quebrada à boca de cena de um abandono que a verdade não alcança.

Enormes detalhes Dissertações simples e genuínas sobre o prazer de ali estarem transmitidas como o mesmo estado de espírito como que atacam cada milímetro de cada tema. Calças abandonadas por Kevin Drew quase no início do espectáculo para ceder passagem à opção pelo anoraque de capuz repleto de pêlo ( o que leva um canadiano a dirigir uma orquestra com gente dentro, a bisturi, a destilar debaixo de tal veste??? ). Execução instrumental irrepreensível debaixo de um som a partilhar o adjectivo. “Encores” sem sair do palco ( a sensação que fica é essa ). Aceder a prolongar a prestação perante uma insistência que não precisou de se fazer notar. Agarrar um publico com uma proposta rara e de risco altissimo: "great time" ao som de temas fabulosos, de acesso acidentado sem trilhos marcados e com Norte magnético ilusório. E. O clima de cumplicidade perante o que se assistia de se dava a assistir: em geração espontânea, a atravessar uma sala de limites explodidos, principalmente, quando a meio de um tema, Kevin Drew e ( agora não me apetece lembrar do nome ) descem do palco para abraçar um a um dezenas de espectadores enquanto os restantes membros prosseguiam a o desfile do tema! Esmagador, no mínimo.

Nós próprios / estado Assistir a um concerto só - ou então acompanhado: o número torna-se aqui secundário – pode influenciar o que é percepcionado: aditiva os bons e os maus momentos, ou pode fazer perder a variável que modifica catastrófica ou gloriosamente, a equação representativa do intervalo de tempo que contém ou é contido pelo espaço imensurável de um espectáculo memorável.
Aceder a um concerto assim, sós, plenos, a capturar cada movimento físico e sonoro, a querer guardá-lo, como uma marca genética a que se pode recorrer de olhos fechados; com todos os sentidos em estado de alerta, para o transporte no tempo de tudo aquilo que foi agarrado, marca forçosamente a distância abismal entre um bom momento e um inesquecível: alí, onde o resultado da opção se torna inquestionável.

Voltem: breve.

12 comentários:

ba disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nuno disse...

?

ba disse...

lindo ;)
(fiquei arrependida de não ter corrido a abraça-los quando desceram!)

Nuno disse...

obrigado pela leitura e comentário

a onda tectónica que varreu a sala sob o som que vinha do palco com os ménes a avançar para o pessoal a trocar abraços com gente atónita ou disparada foi de facto um movimento que parou ou atirou outros: fica para a próxima :)

pe disse...

http://programaladob.com/?p=1979

:-)

Nuno disse...

eia!

obrigado pela visita - leitura ? :) e comentário.

um link para um hell of place!

pe disse...

visita e "leitura", sim. subscrevo inteiramente. eles são a melhor banda do mundo! :-)
obrigado eu, pelas palavras simpáticas.
stay tuned

Crissant disse...

Parece o show mais perfeito que eu nao tive oportunidade de ir...haverá tempo, eu sei :)
Beijos.

Nuno disse...

pe: temos um fã entusiamado!

crissant: eles estão europa até 25.11 e já agendaram london a 8/12, quem sabe nesse intervalo descem ou então sobes: numa "low cost perto de si" :) de facto a não perder

pe disse...

cool !!! :-)

Zito disse...

muito bom o texto
não sou fã dos BSS, gosta da abordagem musical e de algumas excelentes músicas
reconheço que merecem ser um pouco maiores, ou serem mais reconhecidos :)

nuno disse...

obrigado pela leitura e comentário.

o que os distingue é a originalidade com mostram tantas influências depuradas por um talento desmedido a compôr e um grau de excelência a tocar.

não tendo hinos ou canções de charneira, fazer um concerto com aquele nível complexidade; denso, como se nada mais houvesse, deu no que deu :)