10 dezembro 2010

A CANÇÃO Smog . I Break Horses



e:
não é demais voltar a referir:

Uma canção pode ser uma partícula de nós.
Na exacta medida em que ao ser escutada, vai ficar sob a pele: acompanhar-nos-á.
Estaremos com ela quando menos pensarmos que tal vai acontecer e, iremos procurá-la numa busca incessante assim que somos fulminados pela memória do que é.

Há canções que se confundem com aquilo que somos, com tudo o que sabemos de quem nos toca.
O seu impacto abre o álbum das imagens para onde nos transportou, de quem nos trouxe, sob a sua escuta de olhos fechados e levou, ao cerrarmos os dentes com a partida.

Embarcámos por rios, apenas com elas, embutidos num som que nos abraça, tragámos vinho a espreitá-las, agarrámo-las com ambas as mãos e com aquelas que nelas se entrelaçaram, numa adição simbiótica.

No empedrado de ruas geladas ou nos trilhos íngremes, em que por vezes se transfiguram os nossos dias, quando a pele estala; rasga e convoca as novas camadas que vão compor o manto que se rende ao núcleo, que nos arrasta, exigindo sermos mais o que temos de ser.

O número de vezes que uma conversa com uma canção é começada ou finalizada é um mero detalhe do que ela representa: independentemente da sequência repetitiva no espaço de uma hora, ou intervalada por anos, quando se trata verdadeiramente de uma canção esse número é desprezível: em absoluto.

Mais do que procurarmos a canção perfeita ou encontrar a que sorrimos quando nos assalta o desejo de a termos escrito; composto; guardado, para mostrar a quem elegemos, é de uma interacção quântica de sensações, espalhadas numa tela, que nos ocorre descrever, essa fórmula de sons: um todo muito maior que a soma das partes.

Quando o pesadelo de fracções de tempo sem a sua companhia se abate, é incrível como a partir daí se gera o contacto com pedaços de música que pensávamos já não ser possível: haverá capacidade para desenhar, o arrebatamento provocado pela ocupação de um lugar julgado livre para sempre, por uma canção inverosímil?

Em ritmos avassaladores ou em suspensão de silêncios inexpugnáveis, solitária de guitarra em punho, ou em piano abandonado, ou ainda com as cordas chamadas, ou em fase de lua, com todas e todos à sua volta, o seu movimento é próprio, com uma identidade de uma exactidão comburente.

Sentados com os antebraços sobre os joelhos, olhando o mar através dos ventos, fechando os olhos e chamando o sol ou acelerando a sua queda.
Perante vastas planícies ou inclinados sobre as descidas de montes que unem céus a corpos estendidos sob o alcance dos dedos: elas, as canções estão lá, mesmo quando ninguém as vê.

Há tantas canções imensas: ao tentar arrumá-las num pensamento lento, ou desprotegê-las num alinhamento atirado por outro vertiginoso, a fileira fica sem fim à vista: a muralha oculta o espaço.
Por isso é custoso ou tremendamente injusto nomear a que encabeça o genoma humano onde ainda ousamos querer ser incluídos.

Contudo, nos momentos que circundam a alucinação do toque das membranas solares, por vezes erguemos a tábua, onde um titulo foi esculpido por lágrimas, beijos, olhares alinhados ou perdidos, abraços ocultados ou cabelos tocados por faces que já não são nossas.

Há canções que nos fazem vento.
Que nos ensinam a ler mapas para abandonar um abismo e outras que nos acendem a vontade de lá nos encolhermos.
Há canções que nos fazem cuspir sangue com dentes implodidos, outras que nos desfazem o estômago e a quem recusamos uma intervenção milagrosa.
E não esquecemos as que, viajando sós, tornam impossivel realizar o percurso sozinhos.

E aquelas que depois de sentidas, é de desintegração; redenção; devoção, que falamos?

“I Break Horses” é transversal a todas estas sensações: trespassa-nos: traceja-nos: mais que aportar até às nossas noites, acompanha escaladas submersas até à nossa ilha favorita.
Acende sinais, sublinha gritos e inventa sentidos.

A redescoberta de uma enciclopédia emocional de canções imensas, tem muitas vezes como exemplo, o minimalismo sensorial que permite, deixa-nos as mãos dormentes depois de sermos desfeitos sem contemplações pelas ondas ténues que faz mover no seu percurso; rumo a nós próprios: em tudo o que somos.

“I Break Horses” é uma partícula de nós que tem a forma de uma canção.

"Well I rode out to the ocean
And the water looked like tarnished gold
I rode out on a broken horse
Who told me she'd never felt so old
She asked me if I'd feed her
And ride her now and then

No no no, no no no, no no no,
I break horses
I don't tend to them
I break horses
They seem to come to me
Asking to be broken
They seem to run to me
I break horses
Doesn't take me long
Just a few well-placed words
And their wandering hearts are gone

At first her warmth felt good between my legs
Living breathing heart-beating flesh
But soon that warmth turned to an itch
Turned to a scratch
Turned to a gash
I break horses
I don't tend to them

Tonight I'm swimming to my favorite island
And I don't want to see you swimming behind
Tonight I'm swimming to my favorite island
And I don't want to see you swimming behind
No I break horses
I don't tend to them"

12 comentários:

Vanessa disse...

foda-se!!

(e peço desculpa pelo comentário... mas que brutalidade acabei de ler!)

*

Nuno disse...

a um foda-se não se pede desculpa: a não ser que não se tenha algo de arrasador a acrescentar: brutalidade com ! deixa-me, derreado e é bom, enquadra-se no conceito e mais do que isso na regra.

tky, vanessa, das palavras em chamas e das canções desintegrantes, não é P?

*

Vanessa disse...

sim, vem tudo muito de encontro ao que eu acho ser canções desintegrantes. ficamos ali muito esmiuçadinhos, prontos a que nos levem pela mão e lá está, quando as partilhamos com 'alguém', está tudo alegremente fodido... ou então não! :)

se não fiz muito sentido, tenho pena! eheheh!

Nuno disse...

todo o sentido: todo: ou não :)

pena é que é um sentimento feio :P

de canções desintegrantes é que se fazem as travessias :)

rosa disse...

Bravo! (A ambos.)

rosa disse...

O Pingo Doce está com algumas falhas de stock, não se arranja para aí um émepêtrezinho?
;)

Nuno disse...

pois a crazy season pode trazer situações graves: a questão divide-se em 4: canção, álbum, discografia, ambos os três? :)

porque a póniemorionalexpress nunca falha.

rosa disse...

Desembaracei-me e fui ao Lidl. Merci.

;)

Anónimo disse...

"All men have need of the gods."

Nuno disse...

absofuckinlutely

Francisco disse...

tal como disse a Vanessa porque fica tudo dito: foda-se

abraço
Francisco

Nuno disse...

é uma excelente forma de expressão :)

Abraço