a hora no limite leva-se pelo contágio que o orgulho impede.
há pedras que se enramam sem perderem a marca de água, identidade emocional: antes de se esfacelarem sob os dialectos que habitaram a tinta agora perdida pelos marcos geodésicos que não te devolveram à estrada vermelha.
queria ter-te cartografado os passos quando o alvoroço te convocava os dias, apenas se o teu queixo comunicava com o peito ligado pelas minhas mãos; descendentes: de um afluente do colapso de trilogias que não se decifravam.
(new ghosts . television skies)
as crisálidas não se agarram a flores ocultas nem ameaçam o abandono de casas onde o espanto persiste em arredondar cantos, que a névoa do tempo contínuo fez mergulhar em ondas frias.
O verão era bebido e guardado na desconfiança com que o cavalete media os néctares que a paleta fazia voar na sala das janelas dominantes: o chão era nosso cúmplice e a clareira continuava silenciosa: às raízes negras dava-lhe o traço, que incisão solar sobre musgos permissivos do apaziguamento até à – sua - saturação.
00 Genérico 01 Crevecoeur - We Leave the Ranch 02 Elysian Fields - Mermaid 03 Other Lives - Black Tables 04 Arborea - Dance Sing Fight 05 The Black Heart Procession - Blue Tears 06 Joe Henry - Beautiful Hat 07 Cymbal Eat Guitars - And the Hazy Sea 08 Port'O Brien - Fisherman's Son 09 Trespassers William - What Of Me 10 Asaf Avidan and the Mojos - Turn Of The Tides Under The Northen Lights
Ela disse: "invisível como o vento, uma força que impede o virar para trás. Olhas a terra mas já não a tocas ,dela só o pó que seca os lábios. Grave essa força ,arrasta cada vez mais do lugar onde o homem vive." (CM)
- de onde vêm estas palavras?
- "sabe-se lá de onde: cuspo-as assim que posso, evitam o vómito filosofal que todos odeiam." (CM)
"Ela disse: porque os vestidos transbordam de vento. A pintura nos vestidos dá a volta anatómica das cores, respiram. Que a estrela corra cheia de espuma com toda a força para trás demorando o movimento da graça, omoplatas, e depois desarruma-se tudo para dentro dos olhos. Então a gente sopra, ela disse que a exultação mantém em suspenso o poder das lágrimas." herberto helder
"[...] o caos nunca impediu nada, foi sempre um alimento inebriante. O homem não é uma criatura entre mal e bem: falava-se com Deus porque Deus era a potência, Deus era a unidade rítmica. A mão sobre as coisas com vida sua, com essa mão reunir as coisas, refazer as coisas - cada coisa tem a sua aura, cada animal tem a sua aura, como se pastoreiam as auras! em transe: eu sou a coisa. Acabou. Sento-me a conversar com Deus: palavra, música, martelo uma equação: conversa de ida e volta. Depois há gente que fala entre si, depois é o medo, depois é o delírio. Escuta a breve canção dentro de ti. Que diz ela? Não move as coisas com as suas auras, nem tu nem a tua canção pertencem ao mundo cheio, alma que sopra. Nada se liga entre si, Deus não se debruça na canção; destroça a cadência. - o demoníaco. Já se não vê um degrau arrancar outro degrau pelas lentas escadarias de mármore ao fundo. A canção abandonou o seu espaço contínuo. [...]" herberto helder
"Que música escutas tão atentamente que não dás por mim? Que bosque, ou rio, ou mar? Ou é dentro de ti que tudo canta ainda?" Eugénio de Andrade (via V)
01 Coro Infantil da Universidade de Lisboa - Presente de Natal - Fernando Lopes Graça 02 José Afonso - Natal dos Simples 03 The Pogues - Fairytale In New York 04 Tom Waits - Christmas Card From a Hooker in Minneapolis 05 Stina Nordenstam - Soon After Christmas 06 Low - Blue Christmas 07 XTC - Always Winter Never Christmas 08 Eels - Everything Is Gonna Be Cool This Christmas 09 The Flaming Lips - Christmas at the Zoo 10 The Walkabouts - Christmas Valley
00 Generico 01 New Order - Elegia 02 Iron And Wine - Love Vigilantes 03 Okkervil River and Shearwater - Cool My Blood 04 Tex La Homa - Here With You 05 Richard Buckner - Home 06 Sarah Blasko - Sleeper Awake 07 Other Lives - Matador 08 Britt Daniel - Everything Hits At Once 09 Frightened Rabbit - Fast Blood 10 Swans - Little Mouth 11 David Sylvian - Before The Bullfight 12 16 Horsepower - Sinnerman
o mundo é um gajo mesmo execrável, foda-se: onde apenas perdura o som que navega em olhos rasos de água, tocados por seres tão bonitos, que não permitimos que desapareçam, "porque sempre caminham conosco".
A passagem do 26º aniversário da formação da augusta banda bracarense, vai ficar assinalada pela edição de um EP - na nomenclatura actual - mas como os seus mentores preferem referir-se: um maxi-single, unicamente em suporte de vinil: um épico 12 polegadas, contendo, os últimos temas do álbum de estreia e do seu mais recente trabalho.
A saber, para os mais desprevenidos: um "Lado A" com "Tiago Capitão" de "Pesadelo de Peluche" ediatado este ano e um "B-side" convocando o mitológico "Aum" do álbum de 1984.
Aqui poderão escutar na íntegra os temas deste já histórico disco.
A capa, encaixada em papel vegetal - que aqui não é perceptível - é da autoria de Liliana Pinto, e que podem aceder a titular com brilhantismo a audição.
( nota importante: em tudo o que puderam ler e eventualmente lerão, há apenas um ponta de verdade: assinalem-na - mas acima de tudo agarrem os pequenos detalhes das novas versões: vejam o som embrulhado numa capa assombrosa. )
"De repente a noite rasga-se e surge uma praia em que os corpos estonteados acordam a boca encostada ao mar superior que folheia o ar que a respirar obriga e bate e canta."
01.(genérico) 02 Sétima Legião - Pois Que Deus Assim O Quis 03 Shady Bard - Night Song 04 Tom Waits - Lost In The Harbour 05 Codeine - Sea 06 Angus And Julia Stone- My Malakai 07 The Dream Syndicate - Bullet With My Name On It 08 Lost In The Trees - We Burn The Leaves 09 Love And Rockets - Haunted When The Minutes Drag 10 The Inocence Mission - Gentle the Rain at Home 11 Bonnie Prince Billy - Death in the Sea 12 Bodies Of Water - Water Here 13 Big Blood - Low Gravity Blues 14 A Silver Mt Zion - The Triumph of Our Tired Eyes 15 Shady Bard - Trials 16 Bowerbirds - In Our Talons 17 Sophia - The Sea 18 The Waterboys - This Is The Sea
"[...]É - dizes assim, sempre à espera do que virá - É como se agora uma radiação fosse que te queima a garganta e a língua lancetada, o nervo óptico e a córnea gelatinosa, os polegares os indicadores e os anéis que lhe roubaram, cortados. Ou dizes: Então - como se pudesses contar o que não tem conto nem medida - Então, no cérebro do vivo, a imagem começa a gangrenar, e contamina as árvores do mundo exterior e a incerta geometria das águas.
Foi então que os desertos se terão posto a caminho movendo consigo a noite da sideração constelar como uma maré lunar que duna a duna começasse a escrever no corpo do ar o dorso de um animal de fogo: assim. Assim começava a impossível viagem de regresso ao nascimento, como um afogamento solar, como um afogamento ao contrário, de onde a árvore incendiada subisse e só então os pássaros começassem o trabalho da manhã.
Na partitura constelada os desertos escrevem o canto a metamorfose das dunas sob a pedra do céu; e sonham. Longamente sonham as nuvens em grandes migrações que desenham o fluxo e o refluxo do mar oceano. Os pássaros apenas começaram o seu trabalho e já no ar se dissolvem como se fossem a folhagem ininterrupta e alucinada das palavras.
O amanhecer no deserto é um cristal de rocha um planeta hialino que rodando velozmente voasse e como um vento ou uma seta de gelo ateasse o fogo nos corredores da biblioteca assassinada: Uma floresta sonora. [...]"
December is the cruelest month this time for once my cheeks are warm After long years in the monkey-house I am ready for the storm Let them throw all their cannonballs let all their strongmen come I'm ready to go anywhere through venom, sick and scum!
December isn't always cold this year she's mine, I know why Somewhere a flower has to grow for every flower that dies I'm stricken with fever but my heart is strong as steel I'm ready to go anywhere! I can believe I can feel!
December is a trusted friend I always recognise her face It's a plague of fool thrown aside forever by her soft and silent grace She is reckless as a Mayday gentle as a stone She's ready to go anywhere to carry me back home!
December fell deep in the bleak winter time when Jesus Christ Howled a saviour baby's howl primal truth as pure as ice And though we crucified him on a cross and dragged his word from prayer to curse He was able to go anywhere he was almost one of us!
the girl in the swing; december; a girl called johnny
Uma canção pode ser uma partícula de nós. Na exacta medida em que ao ser escutada, vai ficar sob a pele: acompanhar-nos-á. Estaremos com ela quando menos pensarmos que tal vai acontecer e, iremos procurá-la numa busca incessante assim que somos fulminados pela memória do que é.
Há canções que se confundem com aquilo que somos, com tudo o que sabemos de quem nos toca. O seu impacto abre o álbum das imagens para onde nos transportou, de quem nos trouxe, sob a sua escuta de olhos fechados e levou, ao cerrarmos os dentes com a partida.
Embarcámos por rios, apenas com elas, embutidos num som que nos abraça, tragámos vinho a espreitá-las, agarrámo-las com ambas as mãos e com aquelas que nelas se entrelaçaram, numa adição simbiótica.
No empedrado de ruas geladas ou nos trilhos íngremes, em que por vezes se transfiguram os nossos dias, quando a pele estala; rasga e convoca as novas camadas que vão compor o manto que se rende ao núcleo, que nos arrasta, exigindo sermos mais o que temos de ser.
O número de vezes que uma conversa com uma canção é começada ou finalizada é um mero detalhe do que ela representa: independentemente da sequência repetitiva no espaço de uma hora, ou intervalada por anos, quando se trata verdadeiramente de uma canção esse número é desprezível: em absoluto.
Mais do que procurarmos a canção perfeita ou encontrar a que sorrimos quando nos assalta o desejo de a termos escrito; composto; guardado, para mostrar a quem elegemos, é de uma interacção quântica de sensações, espalhadas numa tela, que nos ocorre descrever, essa fórmula de sons: um todo muito maior que a soma das partes.
Quando o pesadelo de fracções de tempo sem a sua companhia se abate, é incrível como a partir daí se gera o contacto com pedaços de música que pensávamos já não ser possível: haverá capacidade para desenhar, o arrebatamento provocado pela ocupação de um lugar julgado livre para sempre, por uma canção inverosímil?
Em ritmos avassaladores ou em suspensão de silêncios inexpugnáveis, solitária de guitarra em punho, ou em piano abandonado, ou ainda com as cordas chamadas, ou em fase de lua, com todas e todos à sua volta, o seu movimento é próprio, com uma identidade de uma exactidão comburente.
Sentados com os antebraços sobre os joelhos, olhando o mar através dos ventos, fechando os olhos e chamando o sol ou acelerando a sua queda. Perante vastas planícies ou inclinados sobre as descidas de montes que unem céus a corpos estendidos sob o alcance dos dedos: elas, as canções estão lá, mesmo quando ninguém as vê.
Há tantas canções imensas: ao tentar arrumá-las num pensamento lento, ou desprotegê-las num alinhamento atirado por outro vertiginoso, a fileira fica sem fim à vista: a muralha oculta o espaço. Por isso é custoso ou tremendamente injusto nomear a que encabeça o genoma humano onde ainda ousamos querer ser incluídos.
Contudo, nos momentos que circundam a alucinação do toque das membranas solares, por vezes erguemos a tábua, onde um titulo foi esculpido por lágrimas, beijos, olhares alinhados ou perdidos, abraços ocultados ou cabelos tocados por faces que já não são nossas.
Há canções que nos fazem vento. Que nos ensinam a ler mapas para abandonar um abismo e outras que nos acendem a vontade de lá nos encolhermos. Há canções que nos fazem cuspir sangue com dentes implodidos, outras que nos desfazem o estômago e a quem recusamos uma intervenção milagrosa. E não esquecemos as que, viajando sós, tornam impossivel realizar o percurso sozinhos.
E aquelas que depois de sentidas, é de desintegração; redenção; devoção, que falamos?
“I Break Horses” é transversal a todas estas sensações: trespassa-nos: traceja-nos: mais que aportar até às nossas noites, acompanha escaladas submersas até à nossa ilha favorita. Acende sinais, sublinha gritos e inventa sentidos.
A redescoberta de uma enciclopédia emocional de canções imensas, tem muitas vezes como exemplo, o minimalismo sensorial que permite, deixa-nos as mãos dormentes depois de sermos desfeitos sem contemplações pelas ondas ténues que faz mover no seu percurso; rumo a nós próprios: em tudo o que somos.
“I Break Horses” é uma partícula de nós que tem a forma de uma canção.
"Well I rode out to the ocean And the water looked like tarnished gold I rode out on a broken horse Who told me she'd never felt so old She asked me if I'd feed her And ride her now and then
No no no, no no no, no no no, I break horses I don't tend to them I break horses They seem to come to me Asking to be broken They seem to run to me I break horses Doesn't take me long Just a few well-placed words And their wandering hearts are gone
At first her warmth felt good between my legs Living breathing heart-beating flesh But soon that warmth turned to an itch Turned to a scratch Turned to a gash I break horses I don't tend to them
Tonight I'm swimming to my favorite island And I don't want to see you swimming behind Tonight I'm swimming to my favorite island And I don't want to see you swimming behind No I break horses I don't tend to them"
a propósito de um desafio lançado a D. para escrever "uma lista de 15 mandamentos sobre: como viver harmoniosamente com os inimigos ( máximo 450 palavras )", fui favorecido pelos deuses e arredores por me terem possibilitado ler isto:
" I – Em silêncio: de olhar directo. II – Em combustão: de cordialidade ao peito. III – Como a lua: desaparecendo à espreita: reaparecendo da sombra. IV – A filmar: quando pensa estar só. V – A recolher: quando se julga ao ataque. VI – Como Judas: que me lava os pés: que se senta e come: come a meu lado. VII – Não morrerás: para me dares alento. VIII – Não julgarás: no cruzamento da navalha que te espeta. IX – Não roubarás: as pragas que te dirijo do cume da montanha. X – Serei descuidado: na distância que te guardo: nos milímetros a teu lado. XI – Serei harmonioso: pela forma como te escrevo: pela raiva que te tenho. XII – Estarei inerte: quando passares pela porta que não crava sangue de morte. XIII – Honrarás as minhas ordens: serei justo aos olhos de nós. XIV – Guardarás a vingança no seio da extinção: afastarei os medos do confronto carnal. XV – Seremos vozes dicotómicas da vida: sombra e luz que se cruzam no olhar, sem nunca se poder tocar.~ "
poderoso.
tky D.
para ti, some songs about the enemy* ( )
Jesca Hoop - Enemy
Andrew Bird - See The Enemy
The Kissaway Trail - Enemy
Apostole Of The Hustle - How to Defeat a More Powerful Enemy
Guided By Voices - The Enemy
Los Campesinos! - I Warned You: Do Not Make an Enemy of Me
2 no sorriso louco das mães No sorriso louco das mães batem as leves gotas de chuva. Nas amadas caras loucas batem e batem os dedos amarelos das candeias. Que balouçam. Que são puras. Gotas e candeias puras. E as mães aproximam-se soprando os dedos frios. Seu corpo move-se pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões e orgãos mergulhados, e as calmas mães intrínsecas sentam-se nas cabeças filiais. Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado, vendo tudo, e queimando as imagens, alimentando as imagens, enquanto o amor é cada vez mais forte. E bate-lhes nas caras, o amor leve. O amor feroz. E as mães são cada vez mais belas. Pensam os filhos que elas levitam. Flores violentas batem nas suas pálpebras. Elas respiram ao alto e em baixo. São silenciosas. E a sua cara está no meio das gotas particulares da chuva, em volta das candeias. No contínuo escorrer dos filhos. As mães são as mais altas coisas que os filhos criam, porque se colocam na combustão dos filhos. Porque os filhos são como invasores dentes-de-leão no terreno das mães. E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos, e atiram-se, através deles, como jactos para fora da terra. E os filhos mergulham em escafandros no interior de muitas águas, e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos e na agudez de toda a sua vida. E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa, e através dele a mãe mexe aqui e ali, nas chávenas e nos garfos. E através da mãe o filho pensa que nenhuma morte é possível e as águas estão ligadas entre si por meio da mão dele que toca a cara louca da mãe que toca a mão pressentida do filho. E por dentro do amor, até somente ser possível amar tudo, e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.
Herberto Helder
3 paisagem 4 há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
Há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida pensava eu… como seriam felizes as mulheres à beira-mar debruçadas para luz caiada remendando o pano das velas espiando o mar e a longitude do amor embarcado
por vezes uma gaivota pousava nas águas outras era o sol que cegava e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite os dias lentíssimos… sem ninguém
e nunca me disseram o nome daquele oceano esperei sentada à porta… dantes escrevia cartas punha-me a olhar a risca do mar ao fundo da rua assim envelheci… acreditando que algum homem ao passar se espantasse com a minha solidão
(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração, mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)
um dia houve que nunca mais avistei cidades crepusculares e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta inclino-me de novo para o pano deste século recomeço a bordar ou a dormir tanto faz sempre tive dúvidas de que alguma vez me visite a felicidade
Al Berto
5 o café dos poetas
6 minha cabeça estremece Minha cabeça estremece com todo o esquecimento. Eu procuro dizer como tudo é outra coisa. Falo, penso. Sonho sobre os tremendos ossos dos pés. É sempre outra coisa, uma só coisa coberta de nomes. E a morte passa de boca em boca com a leve saliva, com o terror que há sempre no fundo informulado de uma vida.
Sei que os campos imaginam as suas próprias rosas. As pessoas imaginam os seus próprios campos de rosas. E às vezes estou na frente dos campos como se morresse; outras, como se agora somente eu pudesse acordar.
Por vezes tudo se ilumina. Por vezes sangra e canta. Eu digo que ninguém se perdoa no tempo. Que a loucura tem espinhos como uma garganta. Eu digo: roda ao longe o outono, e o que é o outono? As pálpebras batem contra o grande dia masculino do pensamento.
Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra. Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.
- Era uma casa – como direi? – absoluta.
Eu jogo, eu juro. Era uma casinfância. Sei como era uma casa louca. Eu metia as mãos na água: adormecia, relembrava. Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.
Apalpo agora o girar das brutais, líricas rodas da vida. Há no esquecimento, ou na lembrança total das coisas, uma rosa como uma alta cabeça, um peixe como um movimento rápido e severo. Uma rosapeixe dentro da minha ideia desvairada. Há copos, garfos inebriados dentro de mim. - Porque o amor das coisas no seu tempo futuro é terrivelmente profundo, é suave, devastador.
As cadeiras ardiam nos lugares. Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento como seres pasmados. Às vezes riam alto. Teciam-se em seu escuro terrífico. A menstruação sonhava podre dentro delas, à boca da noite. Cantava muito baixo. Parecia fluir. Rodear as mesas, as penumbras fulminadas. Chovia nas noites terrestres. Eu quero gritar paralém da loucura terrestre. — Era húmido, destilado, inspirado.
Havia rigor. Oh, exemplo extremo. Havia uma essência de oficina. Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras, com as suas maçãs centrípetas e as uvas pendidas sobre a maturidade. Havia a magnólia quente de um gato. Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia que saía da mão para o rosto da mãe sombriamente pura. Ah, mãe louca à volta, sentadamente completa. As mãos tocavam por cima do ardor a carne como um pedaço extasiado.
Era uma casabsoluta – como direi? - um sentimento onde algumas pessoas morreriam. Demência para sorrir elevadamente. Ter amoras, folhas verdes, espinhos com pequena treva por todos os cantos. Nome no espírito como uma rosapeixe.
- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados agora nas palavras. Prefiro cantar nas varandas interiores. Porque havia escadas e mulheres que paravam minadas de inteligência. O corpo sem rosáceas, a linguagem para amar e ruminar. O leite cantante.
Eu agora mergulho e ascendo como um copo. Trago para cima essa imagem de água interna. - Caneta do poema dissolvida no sentido primacial do poema. Ou o poema subindo pela caneta, atravessando seu próprio impulso, poema regressando. Tudo se levanta como um cravo, uma faca levantada. Tudo morre o seu nome noutro nome.
Poema não saindo do poder da loucura. Poema como base inconcreta de criação. Ah, pensar com delicadeza, imaginar com ferocidade. Porque eu sou uma vida com furibunda melancolia, com furibunda concepção. Com alguma ironia furibunda.
Sou uma devastação inteligente. Com malmequeres fabulosos. Ouro por cima. A madrugada ou a noite triste tocadas em trompete. Sou alguma coisa audível, sensível. Um movimento. Cadeira congeminando-se na bacia, feita o sentar-se. Ou flores bebendo a jarra. O silêncio estrutural das flores. E a mesa por baixo. A sonhar.