16 janeiro 2011

até as sociedade mais primitivas admitem os seus loucos 20110116



A Noite do Rio das Cores

(genérico)


O recorte desta transparência deixa-se tocar: agora que te levou obliterando o sorriso solto pela portada vermelha, que em cascata insistia abraçá-lo: ao rio que te encontrou e não te traz.

Espelha a serra depois de declinar o movimento irrepetível: não o omite: não esqueço a noite.

A calçada ilumina-se ao adivinhar teus passos: mordidos de forma ténue por bocas insubmissas à voracidade do silêncio.
Nem ai surge a ousadia de o interromper: não é o rio que todos julgam ver.
As correntes que lhe sulcam o percurso, parecem torcer-lhe a génese: muito poucos: num só: afloram a percepção do que verdadeiramente significam as convulsões que o esmagam: do mesmo modo que o regeneram.

Cars Are Crashing - Turning The Wind Against Us


Porque me entrego à força que me engole e não expludo os braços: os meus e os dele?
Rio das cores?
- Rio das canções: as que se escutam quando impera o silêncio.
Rio que desce?
- Rio que cresce!
Aprende, quando consome quem por ele é tocado.
Rio das cores?
- De todas: do verde: límpido lento: vertiginoso barrento.
Rio negro onde mergulha o manto branco.
Rio alvo que dança incluído nas canções que não se conseguem desenhar.

Relembro a fotografia enrugada pelas marcas do tempo e da acção dos demónios que a sonhavam perdida: o que ele agregava na sua descida quando imaginavam divisão: o que aproximava o que julgavam perdido.

Esben and the Witch - Warpath


Respira branco; move-se único: serpenteia de alma negra: pescadores de almas de dedos marcados pelos cortes explodem no coro que o enaltece: o cântico lânguido pela espera de quem não volta: branco: o canto que abandona os peitos em chamas e que escuto ao percorrer o relevo desta imagem com os olhos agora cerrados na recusa mais legítima: porque tens os montes iluminados nas tuas costas?
O que celebras?

Caminho para ti só para tocar o que definiste como o teu limite: o esbater do brilho que afinal nunca possuí: aquele que restituíste.

Estas margens nascem quando respiras na passagem em ciclos: voltas quando te supunham sem regresso: a doce dança da saudade: branca: dilacerante negra: caleidoscópio a preto-e-branco: para quê o superlativo das cores bastardas?

Bear Driver - No Time To Speak


Como tantos mergulham e não vêm o que se move nesse fundo tão alcançável?
Para quê tantos artefactos, se não necessitar de respirar é o todo: branco: e desejar que seja perene o nada negro: círculo em arco do espectro solar genuíno: branco na imensidão: negro no que cobre: a canção não afaga como o negro Sol: a inatingível sobreposição da cor que é única.

Os raios ecoam agora: quem por eles será atingido: quem os procurará?
Continuas a olhar para mim?
Vens escutar as canções que te atiro?
O que espalhas sobre mim, desse teu encantamento?

The Cure . Three Imaginary Boys


Esculpi estes jardins para que os banhasses no teu movimento: suspendo-os depois para que os busques: iças a vastidão dessa massa branca para que roube, simbiótica, o negro?

Há sereias que largam os mares para em ti florirem: querem beber desse negro: dormir sobre esse branco: como se reflectem nesses espelhos que inventam a simetria das cores: a dança das quantidades discretas: o domínio da matéria e da luz inventado para os Deuses, que repletos pela sabedoria concedida: não sabem como usar as mãos agora desfeitas: membranas de sangue: negro no vento: branco no galope: “branconegro” no mergulho para a conseguir aflorar.

Arborea . Dance, Sing, Fight


Afinal esses seres são descendentes de luz: encantadas pelo som: com trocas desejadas.
Por todos passas rio: nesta noite branca que convoca a noite negra para a pugna das cores que se abraçam.
Os pássaros que se beijam sentirão que o voo suspenso os leva aos mais distantes e escondidos destinos da migração das cores?
O silêncio subdivide-se na dimensão da criação dos processos naturais: porque sorriem nessa dor quente?
A pergunta desiste: porque trocaram os mares?

The Cloud Room - Hey Now Now


Outra nação se alcança na tua travessia: todas as outras por ti são alcançadas e recolhem as suas bandeiras: as torres choram agora, brancas sobre as pedras negras.

As ruas da cidades tornam-se um absimo quando não sei em qual delas estás.

O fogo branco invade agora o céu negro: nunca a magnitude das cores universais esteve tão perto de gerar os passos cósmicos com que de mim te aproximas: como a ti estou tão entregue: apenas me vejo em ti na imponente escala atómica: negro simples: branco inteiro: a ocupação do espaço pelo objecto da tua dança nem se escuta: estes braços já não são meus.

Her Name is Calla - A Blood Promise

11 comentários:

Anónimo disse...

Encantador!

C.

Nuno disse...

obrigado, C., pela leitura; escuta e comentário.

Vanessa disse...

um texto muito íntimo. é que nem me atrevo a tentar compreendê-lo... :)

(quanto à banda sonora, esta última música conquistou-me imediatamente.)

beijinho*

Nuno disse...

não é nada íntimo: não está escondido :D

"calla" música que referes? :)

beijinho*

Vanessa disse...

sim! :)

p disse...

eu também gosto muito da última canção, também por ser a última :)

Nuno disse...

:)

como é que adivinhei, v?

acho que foi por a ter fanado à p!
por isso ela também gosta também :)

Anónimo disse...

Lembra a história da menina sem braços. Até perdia algum tempo em contar esse conto, mas algures, alguém caminha ignorando que carrega nos ombros uns braços esquecidos e com eles as minhas mãos.

Nuno disse...

eu gostava de conhecer esse conto.

Anónimo disse...

Sem mãos,fica difícil de escrever com o nariz.

Nuno disse...

pronto, ok