23 janeiro 2011

até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 20110123



(imagem de sérgio seixas: clicar para descobrir mais)



00 (genérico)
01 thirteen moons - origins
02 world of skin - 1000 years
03 atlantic surface - (sea)
04 rafael anton irisarri and benoit pioulard - until then (broadcast cover)
05 young marble giants - choci loni
06 spires that in the sunset rise - red fall
07 silver jews - sleeping is the only love
08 gustavo santaolalla - iguazu
09 thirteen moons - undercurrent
10 the savings and loan - a pleasing companion
11 barzin - cruel sea
12 hello blue roses - shadow falls
13 yuck - rubber
14 yann tiersen - fuck me

MP3 para guardar

"Mal o padre apareceu entre os dois alisares brancos de carvalho, houve um homem que trepou a um dos bancos e, numa voz altissonante, pediu silêncio. Diminuiu o rumor. Reinava agora, por toda a nave, urna calma atenta. Os olhos de Jaimemorto davam-se conta do sem-número de luzes que havia suspensas da abóbada, as quais lhe permitiam apreciar a amálgama de corpos entrelaçados uns nos outros, esculpidos ao longo do travejamento, e o vitral azul do altar.
— Venha chuva, ó padre! — disse o homem. A multidão repetiu em uníssono.
— Venha chuva!...
— O sanfeno está seco! — prosseguiu o homem.
— Venha chuva! — mugiu a multidão.
Jaimemorto, completamente ensurdecido, viu o padre estender o braço a pedir a palavra. Acalmaram-se os murmúrios. O sol matutino flamejava por detrás do vitral azul. Custava a respirar.
— Povo desta aldeia! — disse o padre.
A sua voz, imensa, parecia saída de todos os lados, e Jaimemorto adivinhou que só um sistema de amplificação lhe permitia atingir tal volume. As cabeças voltaram-se para a abóbada, para as paredes. Não havia qualquer aparelho à vista.
— Povo desta aldeia! — disse o padre. — Pedis-me chuva, pois não a tereis. Viestes hoje, altivos e arrogantes como leghornes, confiantes na vossa vida carnal. Viestes, como insolentes pedinchões, exigir o que não mereceis. Não, não choverá. Para o vosso sanfeno, está-se Deus nas tintas! Curvai o corpo, curvai a fronte, humilhai vossa alma e eu vos direi a palavra de Deus. Mas não conteis com uma só gota de água. Isto aqui é uma igreja, e não um chuveiro!
Perpassou pela multidão um murmúrio de protesto. Jaimemorto achava que o padre falava bem.
— Venha chuva — repetiu o homem empoleirado
no banco.
Depois da sonora tempestade da voz do padre, o seu grito pareceu irrisório, e a assistência, consciente da sua inferioridade temporária, calou-se.
— Pretendeis crer em Deus —tonitroou o padre — só porque vindes à igreja aos domingos, porque tratais com dureza o vosso semelhante, porque ignorais o que seja a vergonha, porque a vossa consciência vos não atormenta...
Mal o padre pronunciara a palavra vergonha, ergueram-se protestos daqui e dacolá, a que outros fizeram eco, acabando por rebentar tudo num grito arrastado.
Os homens, de punhos crispados, contorciam-se nos seus lugares. As mulheres, mudas, apertavam os lábios e olhavam para o padre com um olhar pérfido. Jaimemorto começava a perder o pé. Quando o tumulto se acalmou, o padre retomou a palavra.
— Que me importam a mim os vossos campos! Que me importam os vossos animais e os vossos filhos! —berrou ele.— Viveis, todos vós, uma vida material e sórdida. Ignorais o que seja o luxo!... Esse luxo, ofereço-vo-lo eu: ofereço-vos Deus... Mas Deus não gosta da chuva... Deus não gosta do sanfeno. Deus não quer saber do vosso chão, nem das vossas chãs aventuras. Deus, é uma almofada de brocado de oiro, é um diamante engastado no Sol, é Auteil, é Passy, é as sotainas de seda, as peúgas bordadas, os colares e os anéis, o inútil, o maravilhoso, as custódias eléctricas... Não, não choverá!
— Queremos chuva — berrou o orador, desta vez sustentado pela multidão, que desatou a trovejar como um céu tempestuoso.
— Voltem para as vossas quintas! —mugiu a múltipla voz do padre.— Voltem para as vossas quintas! Deus é a volúpia do supérfluo. E vós só pensais no necessário. Sois indivíduos perdidos, a seus olhos."

BORIS VIAN de "O ARRANCA CORAÇÕES"

14 comentários:

Vanessa disse...

tchiii... boris vian! :)

Nuno disse...

o que aconteceu ao blog? :(

Vanessa disse...

fartei-me dele. (...)

Nuno disse...

:(

Vanessa disse...

um dia volto... :)

Nuno disse...

breve!

gostava muito de ter um texto teu para um "até as sociedades..." :)

beijos

Vanessa disse...

meu, mesmo meu? (wow! não mereço...!) e isto anda tão seco...

mas olha, ao menos já há lá música.

beijo*

Nuno disse...

sim. teu. deixa-te de coisas lá disso do merecimento, que é isso! :)

pode ser qualquer coisa que já tenhas que eram bem potentássas!

vou lá ouvir então.

beijo

Vanessa disse...

http://escreve-com-sentimentos.blogspot.com/2009/10/dificil-arte-da-melancolia.html

Nuno disse...

v.
m.
h.
p.
isto é teu? e ainda estavas com coisas? já leste bem isto? jísas

Vanessa disse...

yep. diz que sim. devia estar bêbada. ;)

Nuno disse...

olha, desde que não dês cabo da saúde ;) escreve é assim! *

Vanessa disse...

e só por reler lembrei-me disto:

http://www.youtube.com/watch?v=OpYKtirbA7E

Nuno disse...

fim do mundo!
vai ter lugar cativo na tal edição com este texto encantatório :)