30 janeiro 2011

até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 20110130

a vanessa fez-me o favor de disponibilizar este texto que é um assombro, depois de lhe pedir algumas palavras para o mar superior. acedi ao que podem ver aqui e, deixo-vos o meu espanto.

convido-os a verem também o seu formato original ( repito o link debaixo da frase para que não se esqueçam de clicar :) )

a minha intervenção aqui foi seleccionar sons - que se moveram em vertigem, tal a naturalidade com que se foram alinhando.

hoje não há imagens: estas palavras dispensam-nas: assim como as canções: ou melhor, desenhem-nas: quem por aqui passar.

nestes quase dois anos que tem o mar superior, as vossas passagens e os vossos contributos directos e indirectos, fazem dele um local vosso. obrigado.



para guardar em mp3

00 - (genérico)
01 - Mogwai - White Noise
02 - Surface Of Atlantic - A Land Of Long Evenings
03 - The Walkabouts - Gold
04 - The Divine Comedy - If...
05 - The Poison Tree - My Only Friend
06 - Throwing Muses - Night Driving
07 - Swans - You're Not Real Girl
08 - The Thoughts - I Wanted To
09 - Get Well Soon - That Love
10 - Smog - Came Blue
11 - Tindersticks - All The Love
12 - Joy Division - Love Will Tear Us Apart
13 - Elysian Fields -The Moment
14 - Portishead - Glory Box
15 - Sigur Rós - Agaetis Byrjun
16 - The Earlies - One Of Us Is Dead
17 - Nick Cave And The Bad Seeds - Slowly Goes The Night
18 - Spain - Ray Of Light
19 - Lisa Germano - Red Thread
20 - The Cinematic Orchestra - To Build A Home
21 - Sharon Van Etten - Holding Out
22 - Mazzy Star - Fade Into You
23 - 16 Horsepower - Heart and Soul ( joy division cover live )
24 - Echo And The Bunnymen - Ocean Rain

aqui: uma escrita de encantamento:

"Não devemos voltar aos lugares onde fomos felizes. No entanto é recorrente. Em mim. Não imagino um Inverno sem uma voz murmurada e familiar. Não imagino alegria maior do que uma cumplicidade secreta partilhada. Depois, resta esperar que a paz nos sorria as boas-noites num céu estrelado (que nem sempre se vê). Talvez seja difícil de entender: as frases de luz não são para todos. O silêncio interrompido naquela voz antiga de fazer crescer os sonhos: cheiros e cores de uma vida ao sol – roubar ao mundo um pedaço de vida. Deixar a alma respirar, intacta, por entre destroços de tempestades e certezas. Não é para todos – suster o tempo. É por isso que não devemos voltar aos lugares onde fomos felizes. Fingir que está tudo bem. Livros espalhados pelo chão do quarto e ideias simples a rondarem o tecto da imaginação. Com que sonhas? Confusão. O que sentes agora? Confusão. Falta-me um tempo tranquilo. Porque há certezas que substituem outras certezas. Os dias de chuva e as saudades escondidas por detrás de uma armadura pesada – o meu peito – vieram para ficar. Mas isso não se diz a ninguém. Sente-se. E as folhas de um dourado tão triste acompanham a melancolia do vento. Há lugares, dentro de nós, perdidos para sempre. Resgatam-se, assim de repente, em acordes furiosos que reclamam algum gesto irreflectido. Não se compreende. Aqui pensa-se tudo. Os corpos enganam muito e escurece cada vez mais cedo. As mãos ficam abandonadas à procura de braços abertos que as recebam. Novo silêncio. O tempo, curador de muitas feridas, entretém-se no relógio e agora já não apetece dormir. Passamos pelos minutos – lentamente – invisíveis, alheados e estranhos. Será que há quem nos traduza? Não são precisas palavras. E o inesperado acontece: matamos coisas na vida. Assim, numa linguagem própria de quem tem medo de insistir, de magoar, ou de arder. Matamos ou morremos. Pior: sobrevivemos. Longe de tudo. E não há grito nenhum que nos salve. Ninguém nota o fio de voz – quase silêncio – que nos vai costurando o tempo. Essa certa maneira de procurar trazer à tona algumas palavras que se escondem no olhar. A dor insuportável de não mais saber agarrar a doçura de um abraço dado há tanto tempo. Não é para todos – suster o tempo. É por isso que não devemos voltar aos lugares onde fomos felizes. Falta-me um sítio onde pousar a cabeça. Sobra-me a almofada. E resta esperar que a vida esqueça certos lugares que não morrem. As frases de luz não são para todos. Muito menos o rasto mágico de alguns momentos feitos, mais tarde, de ausências.

A memória é uma janela aberta. Digo: um espelho embaciado onde os meus lábios querem desenhar o calor dos teus, mas nada fazem. A memória – hoje – é quase aquele lugar distante de onde tombam tantas vontades que se calaram muito antes de existirem dentro dos olhos. Neste momento – os meus cabelos crescem para longe e os teus pés já não estremunham ao mínimo suspiro. Não temos culpa – nem sequer tristeza. O interior do corpo ainda se revolve subitamente – vezes e vezes sem conta. Mas a boca é um sabor estranho que não consegue obedecer ao desejo. As mãos – há muito atadas – não têm destino certo. Eu já não coro, tu já não ris. O amor continua: deixou só de ser aquele fogo iluminado. Porque ardeu até ao fim. Os braços já não são frenéticos e quentes – procuram um lugar noutros espaços. Quisemo-nos perfeitamente diferentes e puros na nossa transparência. Todos nos viram: subimos ao cume das nossas feridas e transformamos o céu da nossa vaidade. O pó aceso dos fins de tarde - sorrisos - e o terror dos abismos. Tudo isso: vida. Fomos lugares abrigados do mundo – somos agora um clarão que anuncia a liberdade de existirmos noutras vozes – e seremos espelhos abertos por onde se pode caminhar.

É fácil perceber porquê. Digo corpos transparentes como quem diz múltiplas formas de nascer. E depois desacredito-me. Deixo-me voar – presa por várias linhas – e desfaço-me em lugares suspensos, inventados num último suspiro: abismos que se abrem à passagem de umas mãos feridas - as tais. Entristecem-me estas paredes brancas que são tudo menos espelhos abertos. Caminho para ti e, tem vezes, o pecado traz prazer nas mãos. Aguardo uma permissão consentida que anuncie a primeira cura para um coração insuflável. Alimento sonhos mudos que se derretem no céu-da-boca e não aguento o frio das horas alinhadas em esperas: uma herança demasiado pesada que irrompe numa plenitude desequilibrada difícil de entender. São sentimentos afastados da perfeição, partes ínfimas do coração que não temem a fogueira dos teus braços nem a inquietude escorregadia dos teus olhos. Confesso: não tardará a doer. O teu sorriso como um golpe que me deixa sem abrigo. Esta caneta de tinta azul, em jeito de entrega, a desenhar tempestades no papel. Uma contaminação de cores – são árvores sem fronteiras, o vento em rodopio, a largura do sol a percorrer-te a pele. São os meus cabelos a treparem os teus ombros, uma explosão de frutos na tua boca. É a noite escondida num fogo atiçado, uma vibração proibida pelas leis do universo. É o silêncio. A probabilidade da paixão balança no meu colo. É uma carta quase fechada. Não ta sei dizer. Falo-te com a voz do peito e acho que não sabes desta necessidade iminente que me assalta à soleira da porta: é o amor a querer sair à rua. Uma condenação capaz de virar do avesso a sequência ordinária dos dias. São vontades desimpedidas que se enrolam na língua, intenções de um início sem fim: uma fonte estagnada transformada em corrente. A pele como um feixe de luz: a promessa de uma combustão lenta. Um compasso feito de entregas. Faúlhas de desejo que se libertam no ar: digo amor como quem diz segredo. E ando em círculos até que a dança dos erros me faça cair no chão. Ainda assim, o querer correr. Perdida. Percebes?

Do que (ainda) não te disse: aproximei-me apenas para te saber o nome e demoreime mais do que devia. Logo ali: os olhos a verem duas mãos estendidas como quem diz abraça-me. E o coração a saltar do peito em direcção a ti. Imagino que não fiques para sempre; talvez queiras partir livre para a próxima condenação. Isto sou eu a dizer: és como as plantas abertas a qualquer espécie de luz. Naquela hora entrou pela janela um vento morno. Tu a conduzires e árvores e nuvens e cores a acontecerem-nos enquanto a tua mão ainda não sabia bem se havia de pousar na minha perna. Uma viagem e o sol atrás de nós. Foi assim que a tempestade se deu. Lembras-te? De seguida formou-se uma nuvem evaporada junto ao meu umbigo. E tu bebeste-a um pouco mais. As mãos afastadas do corpo – e os dedos sequiosos de chuva. Chegaste sem que ninguém te visse – em erupção – e fomos como espíritos a verter alimento em todas as fontes luminosas. Reconheci-te. E agora que falo – e sinto – sei que essa luz é indizível. Porque é capaz de alcançar uma beleza imaterial que – perto (ou dentro?) de mim – melhor me pertence. Tu como braçado de luz. Os corpos afectados pela cor; contaminados depois pela escuridão e pelo cheiro. Coisas que a noite nos faz em maior intensidade que o dia. Digo do meu amor – lembro-me que cresceu até amadurecer: foi uma transpiração cada vez mais íntima até se transformar em outras formas de linguagem. Também posso dizer dos girassóis, dos beijos roubados e do nascer do dia ao teu lado ou de qualquer outro retalho do tempo. Os corpos que continuamente se oferecem à divindade e à claridade. E ainda que tudo me pareça um pouco indefinido isto sou eu a dizer: leva-me contigo. Que seja amor – rua com ele! – se até somos nós a atiçar e a habitar as nossas - tão nossas - evidências.


Antes de ti houve quem me ensinasse a amar o corpo com ternura e malícia, quem desvendasse segredos, curvas e imperfeições. Quem me elogiasse os olhos e dissesse: são os mais bonitos. E – em verdade – eu acreditei até ao fim. Antes de ti alguém abriu a ferida e tornou-a irrespirável. Houve quem me sabotasse o sorriso e me roubasse a fé com cobardia e desdém. Antes de ti já existia o amor no dicionário. Em mim também. Antes de te aproximares já eu me passeava com os teus livros, sublinhava vidas sem pedir licença e suspirava ao som da tua música. Houve tempo para chorar todas as descobertas e perdas antes que pudesses abraçar-me e tocar-me no fundo. Antes de ti maldisse todas as zangas domésticas e mais algumas. E tu? Desfiz promessas e caminhos. Voltei atrás. Antes de ti senti-me perdida – amada – fingida. Julguei-me abatida e a ti descrente. Antes de ti já eu escrevia para espantar o medo. Agora que me lês – aqui fora da vida – falta-me tantas vezes o ar. Mas antes de ti já eu sonhava contigo. Antes de mim – quero acreditar – tu quase nunca sentias. E nem eu - antes de ti - me atrevia a quebrar tão prontamente.

Se eu tivesse a idade das fadas podia escrever-te poemas sobre a coragem de voltar aos abismos. A mão divina por baixo da minha a fazer-nos esquecer demónios e domingos de chuva violenta. A rapariga complicada converteu-se em mulher de ancas largas: é assim que se suporta o peso da sombra? O ciúme imperdoável a magoar os nossos olhos míopes, meu amor. A guerra já terminou e para trás ficaram esses quartos caros e sujos. À custa de tamanha misericórdia experimentei vestidos antigos e beijei-te a boca tantas vezes que não senti o frio a bater à janela. Sei – se não tivesse sido assim – a paixão jamais seria digna de me visitar o corpo. A vida é mais simples à beira-mar, estamos certos. Se eu ficasse no teu colo, com o meu cansaço a rodear-te a cintura e eu a virar-me na cama, a suspirar no teu ombro – os cortinados tratariam de esconder o amor a quem passa. Trazemos connosco poesia bastante para curar uma tristeza que parece não sarar nunca. Somos vento: não nos sobrou nenhum ódio para escorrer entre os dedos. Lá fora continua escuro - depois do vinho que se derramou sobre nós. Agora estou só e posso repetir as nossas juras eternas. Atámos corações quebrados a uma cama vazia, assim sendo importaram os braços – o tempo morto e as vidas dilaceradas. Fazer de conta: nada entendemos da solidão. Dispo-me para me veres melhor ainda. Dormir não nos deixa mais felizes – porquê? Os dias acabam e a lucidez dói-nos na pele quando nos dizem que a ilusão é pecado. Podíamos fazer um nó cego dentro do nosso abraço e pedir desculpas sentidas após a tempestade. Tenho boas memórias dos dias em que nos conhecemos: sabes bem que cair é mais difícil do que parece. Eu mentiria se dissesse que a poesia me faz bem: é apenas uma partilha desesperada que não cura. Gosto de palavras doces e tenho ainda açúcar debaixo da língua. Apesar disso é capricho meu achar que já não habito tudo o que pode doer. Nascida às tuas mãos, é assim que a tua ternura ferida me invade. E eu deixo."

6 comentários:

Anónimo disse...

Puxa,que humanidade que para aqui vai!

Nuno disse...

um texto do fim do mundo.

rosa disse...

Texto lindíssimo e a música a acompanhar não podia ser melhor. O meu obrigada.

Nuno disse...

o obrigado é meu, rosa, pela leitura, escutas e comentário. no final de domingo - ei é hoje ! - uma outra colaboração. stay tuned

Vanessa disse...

agora que já me passou o treco posso deixar um :) *

Nuno disse...

obrigado, mais uma vez.

:)

( )

beijos