21 janeiro 2011

a canção que está a encher o dia: marc seberg . jours après jours



há sonoridades de se contactam em eras impróprias para o seu apagamento.

ficam incrustadas nos nós dos dedos e as mãos não movem sem ela: a sonoridade que se prega aos passos que se exercem até aos dias de hoje.

a noção do tempo é demasiada exacta e esclavagista para não ser posta em causa.

o som seco desta bateria e percussão sustenta guitarras sulcadas temendo uma voz que nunca explode, nem em templos dourados, teatros do tempo ou migrações do fogo.

uma vez que os títulos de yukio mishima e manuel gusmão são roubados, o balanço impele citações de estouro: como o que ecoa desta canção desde gravações de extractos de tardes, em cassetes, geradas de uma rádio "de um tempo ausente" que se vai tornando "contínuo".

de 1983 para os dias de séculos a desenhar, dias após dias, quando a intemporalidade alavanca uma canção, que se escuta como se de uma peça desconhecida se tratasse ou de algo incorporado em nós.

"mas eu tivera a impressão de que os anos que decorreram reduziram pouco a pouco essa distância, e que desta vez eu chegara à meta. Depois de tanto fraccionar desde esse dia o tempo em pequenas durações, iria certamente obter a chave da misteriosa cena de Tenjuan. Tinha de ser assim, pensava eu. Tal como o aspecto do globo se modifica quando é tocado pela luz de uma estrela afastada, era fatal que se tivessem produzido alterações nesta mulher. Se no dia em que a vira do alto da porta do templo, através de uma antevisão daquilo que acontecia hoje, nos uniramos, bastariam alguns retoques para apagar essas alterações, devolvendo-lhe o seu aspecto de outrora; e aquele que eu fora e aquela que ela fora poderiam então encontrar-se hoje frente a frente." - yukio mishima - o templo dourado.

"A história, não enquanto escrita dela, mas como fazer da história e, por isso, a questão do tempo é, para mim, uma questão fulcral.
Nós temos vários modelos de entendimento do tempo. Por exemplo, o rio e o passar das estações dão-nos imagens diferentes do tempo. O rio parece sempre irreversivelmente ir numa certa direcção, tal como a flecha que se atira e que voa em direcção a um alvo. O rio e a flecha dão-nos um tempo irreversível, contínuo. O tempo que fatalmente vai dar à morte (ou ao alvo, no caso da seta). É sempre um sítio que nós sabemos que é a morte, ou o mar onde desagua o rio, etc. Mas, por outro lado, o passar das estações, ou uma árvore daquelas que perdem as folhas no inverno ou no outono e renascem na primavera dão-nos uma imagem perceptiva do tempo cíclico. O tempo cíclico foi sempre utilizado pelas sociedades humanas como uma maneira de esconjurar ou de conter o medo da morte, porque o ciclo promete não apenas a passagem dos tempos, mas também a esperança, a promessa de um renascimento constante. Por outro lado, há ainda uma figura do tempo que é a do instante em que se corta ou dá um nó na linha do tempo e isso pode introduzir uma outra temporalidade. Portanto, nós temos uma diversa concepção do tempo a partir de diferentes experiências sensíveis. Isso interessa-me. Por outro lado, a temporalidade histórica acrescenta mais outras figuras a estas. A temporalidade histórica, para mim, é muito pensada na base de Walter Benjamin, como algo que implica o corte do tempo uniforme, contínuo, homogéneo, e esse corte é a possibilidade de um tempo messiânico, embora sem Messias. O que se diz para o messianismo vale também para o materialismo histórico? O que é a revolução? A paragem do tempo e o fato de ficar no limiar do tempo, como se o tempo recomeçasse. O tempo vai (re)começar outra vez. Ora, nessas minhas ideias, a temporalização do espaço é facto fundamental para responder à espacialização do tempo, porque a espacialização do tempo, digamos, espalma e reduz a espessura temporal e distribui-a por um espaço. As cidades contemporâneas, por exemplo, uma cidade que tem um certo passado dá muito o exemplo disso. Nós vamos a um espaço, a uma rua e temos edifícios que vêm de períodos diferentes e que se dispõem num mesmo plano espacial. Em Lisboa,
podemos ver isso, podemos ver o tempo espacializado. Por exemplo, pensar em certo tipo de construções arquitetônicas. Podemos ver um edifício todo em vidro ou em metal, mas que tem bocadinhos de parede antiga, que pode ser medieval, incrustados ainda. Ora, o que isso significa? Temos aí uma espécie de objetos que marcam diferentes tempos e, quando eu vejo o tempo espacializado na rua, posso em qualquer momento isolar um edifício e dizer: “Este edifício foi construído em 1940 e este edifício, ao lado, foi em 2000”. O que é que os diferencia? O tempo pode introduzir-se no espaço e mostrar que o espaço está disposto segundo um tempo. São figurações que restaram do tempo passado. Por exemplo, há ruas de Lisboa de onde desapareceram os prédios que eu conheci quando era jovem. Eu sei que estava lá outra coisa e dessa coisa não ficou nada, mas, se eu for trabalhar com documentos sobre aquela rua, encontrarei a prova disso, de que ali estava um edifício que lá já não está. Tudo isso é tempo. Portanto, o tempo, para mim, é, também e ainda, a promessa de sua interrupção, enquanto história já contada, e de começo de uma outra história ou de um outro tempo." manuel gusmão - ABRIL – Revista do Núcleo de Estudos de Literatura Portuguesa e Africana da UFF, Vol. 3, n° 4, Abril de 2010.

2 comentários:

Vanessa disse...

vou ficar fã de manuel gusmão...

Nuno disse...

:)