25 janeiro 2011

joanna newsom @ casa da música, porto - 24.1.2011



Gostava de vos poder falar sobre um concerto e de ter a agilidade para fazer com que o que agora começam a ler tenha o sabor de uma conversa, aqui na sala.
Sem som a envolver a troca de palavras, com a iluminação do espaço a permitir que todos alinhássemos recordações sobre o que assistimos, mesmo que o não tenhamos entendido.
Ou fosse questionado, por quem não se pôde deslocar dia 24.1.2001, à Casa da Música, até ao detalhe mínimo o decurso de praticamente uma hora e meia, ou se preferirem a massa ao tempo, quilo e meio mal pesado.

Um concerto de Joanna Newsom é uma operação a cérebro aberto: até a ingestão de água por mais pura e cristalina que seja, a pode tornar substância propícia a combustão.

O regresso de Joanna Newsow a Portugal, para uma trilogia de espectáculos com inicio no Porto, meio em Aveiro e fim em Lisboa, dá-se quase quatro anos depois da apresentação memorável no Theatro Circo e a da recorrente Lisboa, que acredito ter sido excelente e um ano depois da edição do triplo álbum Have One On Me , que marcou o ano de 2010 e fez aumentar a satisfação pela escuta do disco, a cada audição.

Numa sala esgotada, a concentração de instrumentos ao centro do palco, com aparência de demasiado vasto para o volume que se preparava para suportar e, depois, afinal tão exíguo para conter sons da suspensão do tempo contínuo.

Olhando para o palco, a harpa dourada, milimetricamente a integrar o núcleo de um espaço - que não conteria o manto sonoro preso por muito mais que escasso segundos – com o piano a guardar-lhe a margem onde não se vislumbrava gente. Do lado direito a área para a secção de metais entregue apenas ao trombone de varas e mais à direita ainda, a zona onde uma bateria e elementos de percussão viriam a atingir uma dimensão inverosímil.
Retornando ao objecto fulcral, à esquerda o local onde habitariam as cordas: primeiro os violinos, mais à esquerda ainda a guitarra, banjo, tambura búlgara e a intromissão da flauta.

Um começo a três, com a chegada de Jonna Newsom em vestido vermelho e curto, pela ordem que vos for mais significativa, a anteceder os passos descalços de Neil Morgan em direcção ao seu mundo muito próprio, onde se entregou a uma forma impressionante de tratar a percussão e, os que tiveram de percorrer menos caminho e que pertenciam a Ryan Francesconi para tecer a malha sonora de sustentação à voz da estratosfera que com as cordas da harpa e as que depois de batidas pelas teclas do piano, fizeram com que Joanna Newsom desenhasse autênticos mapas de cosmologia emocional, que não nos conduziram a nenhum local específico e, nos fizeram isso sim, perder em nós.

Para abertura, “Book Of Right –On” pertencente a The Milk-Eyed Mender: banjo; percussão, harpa – claro – voz – mais claro ainda – a indiciar que nem só do álbum mais recente se escreveria esta noite.

Com a chegada dos restantes elementos, duas violinistas e do representante dos metais, a apresentação de todos eles por um rosto a irradiar simpatia e a primeira incursão em Have One On Me, para uma dupla passagem com o titulo-tema e “Easy”.

Perante uma acústica assombrosa que a sala permite, a arte de fazer parecer pequeno o espaço para uma densidade sonora deslumbrante, com músicos de um nível elevadíssimo, a construírem em palco uma atmosfera inacreditável e fazer sair dele os sons da desintegração: ganhava corpo o desfile de temas para uma noite histórica.

Com dois exemplares de eleição de um álbum de luxo, a bateria a ser tratada de uma forma meticulosa em todos os seus componentes com os cuidados que se dedicam a peças de precisão e elementos raros no inventário do universo.

E a voz: incansável e arrasadora, sempre do princípio ao fim dos temas, num desempenho sem qualificação possível, com a tremenda característica de parecer não possuir dificuldade de geração e ser mesmo assim: génio, como se chama a este tipo de coisas.

A voz evoluiu imenso desde a ultima vez que foi possível escutá-la e aí parecia que tal não poderia vir a suceder: em “Easy” principalmente, o colapso esteve perto e os estados físicos começaram a baralhar-se. O trombone e a flauta destacaram-se pelo modo como confundiram intromissão com convocação. Brilhante e uma noite conquistada: ganha, logo ao terceiro tema.

O aspecto negativo da sala - as suas cadeiras - desaparecia: afinal não faziam falta: o contacto do corpo com elas sumia-se, porque começava a ficar a milímetros delas, que entretanto se afastavam umas das outras: ou uma certa forma de levitação ou planar à vista.

Piano deixado para trás, para o regresso à harpa e a incursão em Ys com ”Colleen”, a mostrar a arte de uma canção que tem várias dentro de si, e onde não se distingue onde começam umas e acabam as outras.
Do EP Joanna Newsom and the YS Street Band, depois da referência ao quanto gostava do país, da sala, da cidade e da comida, o regresso a The Milk-Eyed Mender com “Infamatory Writ”, ao piano, a marca de água de uma canção em sobreposição ao tempo em que é gerada, confundindo-se com a era em que é escutada; a contagiar: no rapto da corrente sanguínea; quando passa de ser invasor a ente dominador.

Mantendo-se ao piano “Soft As Chalk” com a guitarra a ganhar terreno e a perdê-lo para o banjo, tocado de forma minimal, extraindo-lhe os sons da simplicidade, que ficava atónita perante a actuação de Neil Morgan, pontapeando o bombo descalço, tocando com as baquetas na parte de madeira do set e inventando percursos para a pandeireta e outros objectos ao alcance da mão.

No regresso à harpa, a vez do grande tema de Ys, “Cosmia”. Não deve ter ficado um único instrumento em palco por tocar – até um berimbau - e o piano sem ninguém a lembrar-se dele, sorriu; entregue, perante o templo sonoro erguido: é nesse exacto momento que somos tragados pelo turbilhão de quem inventa mundos dentro de uma canção: com interpretações decalcadas do espanto; com letras memoráveis atiradas por uma voz incessante do primeiro ao último sopro; numa sempre desigual luta ”corpo-a-corpo”, “rua-a-rua”, com os instrumentos apaziguados nas sua existência, a respeitar cada partícula do espaço entre si.

Joanna Newsom regressa ao piano para assinar vários grandes momentos: o comentário: sempre que tocam o tema que se aprestam a iniciar, costumam questionar se há algum trombonista na plateia, mas hoje não o iriam fazer, porque tinha visto umas dezenas por ali quando tinham estado a ensaiar – pudera – por isso limitava-se à presença de Andrew Strein, que elogiou. Da mesma forma como se referiu e agradeceu a todos os seus cúmplices de gravações e actuações e até a Alisdair Roberts, que assegurou a primeira parte da noite.
Para a memória colectiva fica “Good Intentions Pavement”! - Não são decisivos para a constituição de uma canção ou de um álbum, a potência; o volume; a massa de que se compõem: mas quando o golpe de asa leva à tridimensionalidade emocional, arrasada pela aparição de um detalhe de imprevisibilidade absoluta, que nos leva a carne de surpresa; rouba o vento e nos mistura com os elementos que a Natureza abandonou à sua sorte.

Anunciando o último tema da noite - mais elogios para a Casa da Música e transmissão da satisfação tida pela sua mãe por assistir a um concerto na véspera - a possibilidade do terceiro tema de Milk-Eyed Mender ser executado: “Peach, Plum, Pear” , sons de devoção para um fecho de certa forma anunciado, a reger-se pelos alinhamentos dos concertos mais recentes.
Saída com “standing ovation” prolongada e regresso para interpretação a solo de “On A Good Day”, um pequeno exercício do último trabalho, para a convocação final, que motivou gargalhadas.

Com a certeza de uma actuação muita curta a ameaçar tornar-se isso mesmo, "Kingfisher" e "Go Long" ficam como as perdas da noite - não se pode ter tudo - para o final havia um desejo que se transformou em certeza: entregue a “Baby Birch”.

A execução dos primeiros minutos do tema em que apenas se escutava a voz e a harpa e corpos a tremer, guitarra em espasmos a espaços, definindo novos rumos para a geografia emocional, deu lugar à explosão de vozes, palmas e percussão, para retornar à voz de Joanna Newsom, para nos levar à viagem terminal no albergue nocturno da voragem dos sentidos.

12 comentários:

Vanessa disse...

tu vais a todas! aiiieee! :p

Nuno disse...

nem por isso, nem por isso: logo a aveiro não posso ir :( :) :P

rosa disse...

Não me mandem para a fogueira, mas...


Não aprecio muito... assim a modos que chatinha.

Glup.

Nuno disse...

era o que havia de faltar: as capturas dão-se ou não e pronto. obrigado pelo comentário, como sempre. um dia, num comentário de um post com a sonoridade dela a estalar, mais que as chamas da fogueira que agora não acendemos, ainda haveremos de nos rir ainda mais, do que o que fazemos agora com este.

Anónimo disse...

escreves para alguma revista ou site especializado? é que devias. quando for grande quero transmitir em cada review o mesmo que aqui senti: fui transportada para outra dimensão... muito bom! (obrigada.) Vanessa

Nuno disse...

não, escrevo apenas para aqui: por mim e para quem eventualmente leia. e, sim: é bom saber que possam gostar, obrigado. volta sempre Vanessa. Este texto foi também um desafio pessoal: um dia talvez conte a história :D beijo

Liliana Pinto disse...

brutal...

Vanessa disse...

eu volto, don't worry! *

mas continuo a achar que devias mostar isto ao mundo! ;)

Nuno disse...

foi brutal, sim senhor, Liliana ;)

Nuno disse...

vanessa:

:)

já está mostrado ao mundo: um sitio de coisas selvagens :D *

Nino disse...

Quando os momentos captados por um fã são assim descritos, ficamos todos com pena de não ter assistido ao concerto.
Abraço
Nino

Nuno disse...

obrigado, Nino, pela leitura e comentário. fico a aguardar pela possibilidade leitura sobre concertos aí: onde não faltam oportunidades :) conto com isso para band of horses? Abraço