02 janeiro 2011

O álbum de 2010 que mais gostei



A dificuldade de referir um único nome para realçar o que um ano deu, em termos de edição musical, assenta numa pluralidade de aspectos, que muitas vezes provoca o aparecimento da vontade que leva à desistência de o fazer – ao simples acto de apontar.

Para além do terreno minado que é a base de escuta: por muitos discos conhecidos há quase uma infinidade que não se contactou, de áreas tão diversas quanto elencáveis.

Há quem se estreie com autênticos estrondos que felizmente têm sucessores, mas que demasiadas vezes se ficam por aí: ou a prova de que a genialidade é um merecimento e não uma dádiva.

Depois reaparece quem dá um salto espantoso, numa evolução adivinhada difícil; confirmada para gáudio de quem acredita que os dias fazem muito mais sentido com o crescimento através da aquisição de sabedoria, agarrada e absorvida para ignição do que somos, queremos ser e atingir.

Há as desilusões, mas essas por aqui só têm como solo fértil a omissão.

Somos também confrontados com quem segue uma linha coerente sublinhada pela excelência: música gerada por uma militância no que é valioso, arrebatador e que nos abala as estruturas, de um modo que de algumas vezes, ultrapassa a linha onde nos queremos perder de forma irreversível.

O factor surpresa, quase sempre é o elemento que eleva um excelente conjunto de canções a um memorável.

Depois há a avaliação qualitativa do nível da composição ou da execução irrepreensível – até mesmo virtuosa – dos instrumentos reunidos e postos à disposição da escuta, de quem tenha conhecimentos para o efectuar.
Não os possuindo, fico-me - mais que pelos sentidos despertados ou agitados por aceder a canções sem dimensão – pela opção da impossibilidade de não ficar rendido quando se ouve e vive um disco que inventa um novo sentido ou até mais alguns.

A grande característica que a música deve possuir, para quem não a domina nos parâmetros que a permitem classificar como arte e desfile de atributos técnicos, é o contacto com a sua matriz genética, que vai provocar o atropelamento emocional em qualquer dos caminhos onde se vai tentar decifrar um álbum: audição aleatória, descida escrupulosa pelo alinhamento rumo a um cume escalado na alucinação do choque frontal com cada uma das canções.

A marca de água de uma canção – quando a tem – sobrepõe-se ao tempo em que é gerada, confundindo-se com a era em que é escutada; contagia quando nos rapta a corrente sanguínea; quando passa de ser invasor a ente dominador.
Quando por auto-defesa ou por simples espírito de sobrevivência, queremos dar-lhe um nome; cartografar-lhe a forma orgânica; um componente ósseo; venoso; cutâneo: ou a base de tudo isso – respirador: já não conseguimos.

É quando somos tragados pelo turbilhão de quem inventa mundos dentro de uma canção: com interpretações decalcadas do espanto; com letras memoráveis atiradas por uma voz incessante do primeiro ao último sopro; numa sempre desigual luta ”corpo-a-corpo”, “rua-a-rua”, com os instrumentos apaziguados entre si, a respeitar cada partícula do espaço entre si.

Estas substâncias ganham um relevo dunar/cerebral, assentes em tecidos nervosos, da filigrana do som.

Não são decisivos para a constituição de uma canção ou de um álbum, a potência; o volume; a massa de que se compõem: mas quando o golpe de asa leva à tridimensionalidade emocional, arrasada pela aparição de um detalhe de imprevisibilidade absoluta, que nos leva a carne de surpresa; rouba o vento e nos mistura com os elementos que a Natureza abandonou à sua sorte.

Quando à desintegração pela audição de algo assim, não reunimos sequer forças para um “foda-se: o que é isto?” ou um ou outro “foda-se: de onde veio isto?”, caminhamos definitiva e decididamente por território eleito para ficarmos estuporados de todo: como mar contra rochas e rochas cuspidas pelas entranhas da Terra, por quantidade concreta de matéria incandescente, como só a música, como força intuitiva e cirurgia a cérebro aberto, a sabe alcançar; acompanhar e tocar, como mais nenhum elemento: ao magma dos dias.

Quando vamos nesse alvoroço, alicerçados em batimentos de órgãos, que são afinal os vitais, que abandonaram os seus sistemas solares de origem, para se nos alojarem entre os dedos, e os deixemos declinar sobre lágrimas, riso e rostos estilhaçados.

Experimentem agora estes factores alegóricos; esta geometria indecifrável; chamas que se vêem e sentem: que a deflagração torna perene, multiplicada por dezassete e dividida por três: acharam resto? Não pois não? – não somos seres divisíveis: somos fragmentáveis.

Em “Have One On Me”, Joanna Newsom, faz tudo isto, com o que é mais inverosímil: uma simplicidade tangente ao conceito de crime por posse excessiva.

Com canções escritas; interpretadas e produzidas por si, com a cumplicidade de Ryan Francesconi na elaboração da teia de onde nos recusamos a libertar, acrescentando colaborações de Neal Morgan, Greg e Thom Moore, TJ Doherty, Noah Geroseson, Dana Gumbiner, Jim’ O’ Rourke e Steve Rooke, ao nível da protecção sonora, interpretada por músicos que ofereceram chão a canções que o não chegam a tocar.

Foi com “sets” de bateria e percussão, flautas, violinos, trompetes, violoncelos, trombones, violas, pianos, oboés, harpas, “tambura búlgaras”, baixos, “timpanis”, banjos, clarinetes, koras, bandolins, que se gerou a sonoridade que é uma extensão do nosso corpo: o que sobra pouco importa.

Perguntar-me-ão: mas todos os componentes que levam à classificação de um disco como o mais representativo de um ano, não se desmoronam perante a subjectividade da opção? – Por ser uma má pergunta – porque é maior que a resposta óbvia ( mas não é de uma entrevista que se trata ) é também uma excelente questão: claro!

Para além do sim; para além da assumpção das escolhas, que existe para isso mesmo: para ser exercida: apenas acrescento que até no índice “estreia” Joanna Newsom pode ser incluída: porque para lá da evolução insofismável, aglutinou o prodígio da reinvenção: mais do isso, a refundação do que somos.

Mas a resposta já vai longa: como o tempo consumido e eventualmente gasto e desperdiçado, na leitura que poderá ser feita, mas deixem-me apenas acrescentar que é com a escuta deste disco e outros da mesma galeria, que se devem mover os dias: está comigo há perto de um ano e não me consigo ver sem o escutar uma vida ou o que possa restar dela: numa redefinição do tempo contínuo.

3 comentários:

Vanessa disse...

é por estas e por outras que não consigo escrever sobre álbuns, canções, whatever... viva a subjectividade! quanto à joanna newsom, é quase-quase proibida por estas bandas. as razões já foram muito bem ditas: «uma simplicidade tangente ao conceito de crime por posse excessiva.» e é tão angelical e desconcertante que não se aguenta todos os dias... eu, pelo menos.

o meu disco do ano foi o golden archipelago dos shearwater, agora não me perguntes porquê - porque simplesmente não se explica, pois! :p

(gostei muito de te ler.)

beijo*

Nuno disse...

com comentários como estes e outros, vou começar a escrever todos os dias :) obrigado.

quanto à tua escolha do ano é excelente: e como todas as excelentes opções: as que são a rasgar, não se explicam: e são: porque sim. ponto.

Vanessa disse...

:)