31 janeiro 2011

the young gods @ hard club, porto - 29.01.2011

- com um agradecimento do fim do mundo para a Liliana Pinto, pelas imagens ( ) -



Rumo a um concerto com uma carga emocional porventura forte, as expectativas não se encontravam – propositadamente, quem sabe - muito elevadas: demasiados anos sem possibilidade de assistir a uma apresentação dos Young Gods – sim: sei que oportunidades não faltaram – e um álbum, de edição recente pouco conseguido, deitavam uns cubos de gelo na fervura, mas como veremos mais há frente, as poções e os segredos dos druidas, invertem por vezes o eixo do mundo.

Confusos? – isto ainda não é nada!: por partes, então.



A satisfação por ver o Hard Club atestado, numa cidade que quase deveria rezar por ter um espaço assim, foi um dos primeiros aspectos positivos da noite: assim como a legião de fieis, numa maré de ondas de eleição para uma noite de arraso.

Com um som, de excelente qualidade, acertado logo no decorrer da abertura com “Blooming”, fez com que “Tenter Le Grillage”, marcial, já soasse sem necessidade de mais ajustes: os efeitos sobre alma e corpo, esses ficavam por nossa conta.

A confirmação por uma passagem exaustiva por “Everybody Knows”, o seu mais recente registo, surgia e, a noite começava a ser ganha: tal como outros eleitos, os Young Gods, sabem como fazer resultar empalco, um álbum distante dos seus melhores, revestindo com a sonoridade da sua impressão digital esses temas, fazendo-os crescer de um modo incrível, cercando e manietando a audiência, tornando desatenção uma palavra proibida e entrega e devastação vocábulos mandatórios.



A presença em palco, sustentada em bateria e percussão de estouro, por Bernard Trontin, em teclados geradores de elementos sónicos em que o apaziguamento e ignição, agora entregues a Al Comet, convivem de uma forma que capturou quem acompanha a sua carreira, merecedora de admiração sem limites e imposições de regras: como se de respiração se tratasse, tudo sob o comando e poder da voz de Franz Treichler, recorrendo a contribuições simples e lineares em guitarra acústica ou electrificada. Acresçam-se as guitarras do mais recente elemento ( pelo menos desde o tremendo “Knock On Wood”, que o vejo nos videos ) Vincent Hänni e fica erguida a teia sonora que nos envolve sem remissão.



A passagem para o álbum “Second Nature”, interrompe o desfile pelo disco do ano transacto e, são das instruções às chamas para crescerem, “Supersonic” cumpriu-as de forma exímia: com um balanço intenso, o esboço de uma grande noite passa a desenho e a tela torna-se repleta com “About Time “ de “Super Ready / Fragmenté” : a ebulição atinge o auge, mas os Young Gods já estão lançados para a deflagração e retomam “Everybody Knows” com um trio de canções, que pela forma como são executadas, com uma entrega notável, uma qualidade de som fabulosa, se vão alojar perto da galeria dos seus melhores exemplares.



Os corpos na grande área do palco já não querem misericórdia, o movimento de largas dezenas, chega às centenas e forma uma massa única que pactua com um som que a faz mover: “Mr. Sunshine” – potente - aproxima-se da definição de um clássico – e, como qualquer druida o demonstra, escondendo o segredo, a guitarra acústica tocada perto de uma fogueira, pode provocar uma pré-erupção: “Miles Away” começa a mover o chão e já só se está bem longe dele.



“Introducing” num registo próximo da sonoridade patenteada em “Knock On Wood” fecha o regresso triplo ao último trabalho e abre as hostilidades, para três canções que bem poderiam ser quatro para contemplar uma de “L’ Eau Rouge”, para que não ficasse esquecido no alinhamento.

As escolhas para uma apresentação de quem tem um histórico com os Young Gods estão sempre abertas à discussão: os clássicos são sempre desejados, e a inteligência de quem domina palcos assim, sobressai: para todos os efeitos, em anteriores passagens já terão havido oportunidades de escuta das faixas dessa época, agora, poderíamos assistir à passagem de temas em estreia por cá dos seus dois últimos álbuns. E pelo menos a mim, fez-me reconhecer alguma injustiça na opinião em relação ao mais recente.



O regresso a “Super Ready / Fragmenté” é em formato duplo: com “Everythere” e - ! – com “I’m the Drug” a caução relativa à qualidade de construção do “Hard Club” esteve perto de ser executada, tal a magnitude que fez abanar a sala, dois momentos de estalo, apenas superados pelo impacto da activação dos sismógrafos da Serra do outro lado do rio, ali bem perto, quando foram alagados pelos acordes iniciais de “Envoyé” do seu registo de estreia, numa versão de sopro inclemente, a que apenas o armistício do intervalo pôs termo.



Para o encore, quase o fim do mundo: “Kissing The Sun” de “Only Heaven” – uma marca de água da torrente que eles se tornam e, “Freeze” de “Super Ready / Fragmenté”, numa performance fabulosa, em que depois de ter dançado, ter apontado focos de luz à assistência, Franz Treichler de esmerou em inventar um sentido com uma versão completamente de arrasar de “C’est Quoi C'est Ça”.

Um segundo regresso adivinhado e exigido não fosse o diabo tecê-las, uma vez que esteve convocado para uma noite em cheio e logo com “Skinflowers” do até então omitido “T.V Sky” e claro, o espaço aéreo juntou-se ao subsolo e de nós quase nada restou: brutaliciosidade: ponto.



O final para um jogo de palavras com “Once Again”, num momento de apaziguamento que continuava a parecer infernal, a que só faltou a verdadeira acepção da frase para um outro regresso ao palco que não voltou a acontecer.



Uma noite gloriosa de quatro elementos que se souberam sobrepor em palco para nos deixarem desfeitos com a sabedoria e entrega com que conduziram a actuação: com semelhanças à preparação de uma poção ou de um segredo erigido por druidas – após a recolha dos componentes por toda uma base de conhecimento (as canções ) , ajustá-las com mãos de mestre, primeiro em fogo lento, depois accionando o poder das chamas até ao limite do impossível, para um percurso com os sentidos despertos indiferentes à temperatura, para que depois de amainada, pudéssemos continuar uma noite cheia até uma manhã gloriosa: a sonoridade dos Young Gods sublinha as madrugadas e revê-los tornou-se algo de muito precioso para mim: a regeneração é feita de momentos assim.

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