06 fevereiro 2011

até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 20110206

na senda das colaborações directas e/ou indirectas, queria que acedessem a este texto da P (fôlego estancado). uma das pessoas que passou pelo mar superior, que lhe deu força e que agora é possivel ler aqui, para meu imenso agrado. o link com uma resposta que esmaga, fica, por dois motivos ou vinte: um local que gostava muito de ver reactivado: onde viviam imagens, canções e textos do absoluto fim do mundo. pode ser que por este meio se reacenda. conto também com os vossos eventuais comentários para avivar chamas.

sem imagens, sem mais palavras (exceptuando as da P ): canções, a anteceder um texto do reino do colapso.

para guardar em mp3

00 (genérico)
01 Tanya Tagaq Gillis - Qiujaviit
02 Emily Jane White - Dark Undercoat
03 Joy Division - Heart and Soul
04 Lisa Germano - From A Shell
05 Diamanda Galas - My World Is Empty Without You
06 PJ Harvey - A Girl Like Me ( Desert Sessions )
07 The World Of Skin - Everything At Once
08 Anita Lane - Next Man That I See
09 Yo La Tengo - Our Way To Fall
10 Woven Hand - Not One Stone
11 Kristin Hersh - Aching for you
12 The Circle Brothers - Hands At The Steel
13 Sétima Legião - Além Tejo
14 Sia- Moon
15 Benoit Pioulard - RTO
16 Lydia Lunch & Roland S. Howard- Some Velvet Morning
17 Nick Cave And The Bad Seeds - From Her To Eternity (live)



"era para escrever um texto sobre o som, ou melhor respirar; o sexo e a palavra. isto porque vi que colocaram por aí novamente a tanya tagaq. quando a ouvi pela primeira vez estava num fórum cheio de putos novos e que mesmo tendo informação de onde ela vinha, foram incapazes de chegar um pouco mais longe e isto para eles era apenas uma tipa (boa, claro) a fazer sons que lhes dava tesão. a mim também em certos momentos, confesso. não é lá por ser mulher que não a tenho e muito menos sou capaz de me abstrair de tudo o que é cultural nesse sentido: são muito poucas as alturas em que este tipo de vocalização nos chega sem ser em pleno acto sexual.

sempre achei que a palavra, ou a fala, tinha aparecido por causa do sexo. durante o sexo. não só porque duas coisas nos motivam mais que todas as outras como espécie, a sobrevivência e a reprodução – a chamada fitness – mas porque há inúmeros relatos em outros animais de vocalizações diferentes durante o acto sexual. bem vistas as coisas o meio de comunicação mais eficaz – ainda, não nos enganemos -, é o olhar e a postura corporal. é por isso que os olhos nos humanos ocupam um espaço imenso no cérebro, quase tão grande como a mão. vemos : tocamos, esta dicotomia é inseparável para nós. pois bem, em nós o sexo, tal como nos outros animais superiores, sempre foi basicamente à bobi (adoro esta expressão moçambicana, desculpem lá) embora o nosso comportamento aberto nos tenha permitido grandes variações. de costas para o macho, a fêmea não tem forma de dar informação sobre o estado da sua agressividade e, é sabido, que em muitos animais a agressividade da fêmea nestas alturas pode ser tanta, que suplanta fisicamente o macho acabando por o matar. assim, de um forma reducionista, eu sei, a respiração acelerada destas alturas terá muito bem podido evoluir para outro tipo de comunicação mais específica, que identifique precisamente o tipo de agressividade das fêmeas, beneficiando não só a percentagem de sobrevivência dos machos, bem como minimizando os danos feitos ao grupo, uma vez que na maioria das espécies gregárias apenas um ou outro macho tem a vantagem da cópula e assim propagar a espécie.

nas sociedades humanas a que chamamos primitivas, embora sabendo hoje que não o são no sentido evolucionista do termo, até há quem as denomine sociedades de abundância, a linguagem e a fala estão muito ligadas aos actos físicos, à sua imitação, como é o caso dos inuit na sua forma gutural (o caso da tanya), ou como diz o meu filho quando ouve mão morta “às vezes ele fala arrotês”, ou ainda outras na ásia do sudeste, onde a sua fala no som produzido, dizem eles, vem directamente dos sons dos pássaros, imitando assim qualquer coisa de físico compreensível para eles e numa espécie de gemidos, hummings, indissociáveis para nós.

o facto é que a fala, e as palavras para nós, são apenas possíveis de emitir em sons e serem ouvidas se tivermos os aparelhos físicos certos para que funcionarem. depois a escrita é outro nível. é o símbolo ligado à ideia, ao conceito, à sua essência . a escrita afinou todo um mundo por onde inventar sentimentos e sensações e ainda hoje somos capazes de o inventar, sempre diferente. e foi capaz de libertar a palavra para lugares que se formam apenas dentro de cada um de nós, onde a essência e a sua génese é tão pessoal que nos permite saber que somos diferentes de qualquer um outro.
o som da palavra a entrar em nós, o som da sua ideia dito por dentro do silêncio das nossas bocas, pode ser tão violento, é tão violento por vezes que nos rasga a pele. para mim sempre foi assim, embora agora digam que haja uma explicação para isso. não gosto que me digam que sou feita apenas de percentagens sanguíneas, como se o sangue apenas significasse o comportamento físico e não existisse qualquer tipo de significado pessoal, interno, que traduzido no meu entendimento do mundo me fizesse ser assim. mais que não gostar, não o aceito e digo aqui: sejam quais forem as consequências.

a beleza de termos atingindo este estado é podermos ser muito mais do que somos, sermos nós e todos os outros que se cruzam connosco, tomarmos para nós aquilo que a nossa limitada biologia nos permite. sem um outro não somos capazes de ser, somos nele : sou-me-te : sou-te-me. é preciso chegarmos a alguém para sabermos o que somos, é preciso deixarmos alguém chegar-nos para sabermos o que podemos ser. tão simples como o movimento das marés.

temos uma forma de o fazer, de o dizer, de o sentir, que pode ser a nossa própria impressão digital mas tem que ser tudo o que vivemos e fomos sendo até aqui. o nosso caminho somos nós também.
às vezes, muitas vezes, as pessoas dizem-me que digo demais, que escrevo demais. para mim, são duas coisas completamente diferentes, mas sei que podem, no geral ser o mesmo. penso sempre nisso. houve um tempo que pensei ser incapaz de sentir, nem era muito por sentir diferente dos outros mas era sobretudo por achar que não sabia sentir. era sempre demais, media o sentimento em comparação com o dos outros. nunca me importei com aquilo que me dão mas essa era a medida que me faziam passar: dar o mesmo, receber da mesma forma: imitar (se gemes então eu posso gemer, se falas então eu posso falar, se me amas então eu posso amar-te). como só assim se pudesse pertencer. chorei muito por pensar que amava sempre da forma errada, que gostava das pessoas da forma errada. nunca era capaz de lhes dar o que elas queriam, ou precisavam, sei lá, qualquer coisa assim. as pessoas diziam-me sempre que aquilo era muito, justificavam-se por vezes com a falta de retribuição numa de não podemos gastar as palavras os sentimentos. como se os estivessem a guardar para algum momento especial, como se só tivesse significado por serem ditos raras vezes, como se o pudessem dizer sem o sentir, como se para eles o meu excesso fosse isso: dizer sem o sentir. felizmente há camus no seu brilhante don juanismo e felizmente há a lydia lunch também, que o sabe dizer como ninguém na sua voz rouca e embalada pelo corpo fora a entrar pelo nosso, entre alguns outros.

talvez tenha demorado a perceber, que para mim o exagero esteja na forma como as palavras se dão em mim. posso imaginar-me foleiramente como um pedaço de terra fértil sempre pronta a brotar. cai uma palavra em mim e é sempre uma semente nova. e depois gosto de deixar o silêncio vazio para que o oiça crescer em mim, nas coisas, nos lugares. por vezes calamo-nos sobre o silêncio, enchê-mo-lo do peso da liberdade das palavras, ele torna-se pesado e escuro. e eu gosto do silêncio que me sabe atravessar em todas as palavras. talvez tenha sido essa a primeira razão para falar, para escrever o excesso. e se estou cheia, e tantas vezes o estou porque o que me rodeia é tão bonito, não consigo mais ficar assim. às vezes penso que as pessoas têm vergonha de perceber certas coisas, como os outros, um outro, como quando gostamos de um outro, o guardamos sempre para nós. tal como as palavras, tal como a substância que escorre delas. às vezes penso que sou doida por ser assim, há quem mo diga muitas vezes. depois basta o ar a passar por dentro da minha garganta, o estremecer do som de uma palavra na pele, e esqueço tudo isso.

sempre senti as palavras na pele. mas no início deste ano, elas começaram a doer-me a sério. por vezes diziam-me coisas que eu sei tão más, para me magoarem tanto, e o meu corpo adoecia. se estava sentada quando as ouvia, depois mal me conseguia levantar: tinha as pernas tão doridas como se tivesse corrido milhares de km para fugir dali, e nem sequer tinha saído do lugar. deixei de aguentar as calças a prenderem-me a pele, os sapatos nos pés. cheguei mesmo a imaginar que tinha emagrecido tanto para deixar a pele solta sobre a carne, para arranjar mais espaço, para não estar tão inchada, com tanta dor, não ser capaz de sentir. talvez tenha sido isso que aconteceu. agora a minha pele deixou de ter forma, a forma da minha carne, a minha forma. como se cada vez que eu seja eu, tudo o que sou desaparece de mim para um lugar que não conheço.

dizem que quem se droga com isto, muito, acaba por perder a memória, que dá cabo da cabeça. que as coisas se sentem cada vez mais fisicamente, toda a memória é física, como se isso fosse a consequência e não a causa. depois não sei porque lhe chamam amor. o amor não é nada disso, não para mim.

e eu sempre senti as palavras fisicamente, não é de agora. se te dissesse aqui há uns tempos atrás, sem provas claro de quem percebe e nas quais eu não acredito minimamente mas não consigo deixar de ponderar nesta demência que às vezes sou; se eu dissesse que cada vez que dizia o teu nome sentia a tua mão tocar-me no corpo? se eu te dissesse que não me conseguia lembrar de ti, que passava por ti e não te reconhecia mas que se me falasses, se me dissesses tu as palavras, que elas eram a tua mão a afastar-me o cabelo da cara, ou o teu respirar sobre o meu pescoço, ou o teu beijo a fazer-se no meu? como era possível eu dizer-te que mesmo tu não estando aqui me tocavas e o meu corpo estremecia por dentro e se contraía como se tu estivesses dentro dele, e eu estava tão cheia de ti que me fazia ter todas as idades, todos os lugares onde fui e onde ainda não sou, como se o tempo e o espaço se unissem num só ponto e tudo era ao mesmo tempo. como era possível dizer-te que estava (ou era) assim?

sabes, houve uma coisa que me entristeceu muito um dia. eu estava à beira rio a passear com alguém. estava sol mas o dia era frio, muito frio. a pessoa falava comigo e eu ouvia-a, estava a ouvi-la pela primeira vez. e o meu corpo mesmo sem lhe tocar ia de mão dada com ela e então, chegámos a um lugar e parámos. e ela disse-me qualquer coisa e depois sorriu-me e eu pensei naquele momento a coisa mais triste que já senti em alguém: ela teve que matar o amor. foi mesmo assim que senti. e senti a dor de ter de matar o amor. até ali nunca tinha pensado nisso e foi a pior coisa que senti na vida. e só quis abraçá-la muito e que o abraço lhe tirasse toda a dor que senti. e amei-a ali mesmo pela primeira vez, por inteiro, como se sempre a tivesse amado, como se nunca mais a fosse deixar de amar. e eu sei que nunca mais vou deixar de a amar, que sempre a amei: exactamente assim. entendes? às vezes é só assim. ela é uma pessoa vulgar, aparentemente igual a tantas outras que conheço, no entanto por talvez um milésimo de segundo, ela deixou que eu a visse e talvez por toda a sorte do mundo eu estava a olhá-la e vi. vi-a. e isso é amar, isso é o amor.

uma vez alguém perguntou uma coisa simples sobre o que era o amor, e se o amor fosse? e eu lembro-me de ter sorrido, porque sempre pensei que o amor era isso mesmo, nada mais. há o amor e depois há o amor pelas pessoas, que se faz diferente pelo que as pessoas são. às vezes só amamos as pessoas pelo que são, outras vezes, amamos o amor nas pessoas quando as amamos pelo que são. se me perguntares como o distingo não sei mas, se me perguntares se o vir sei distinguir, eu respondo sim, que sei. eu já o vi.
agora já te posso responder: já sei como se toca o amor.

eu sei que se deixar de escrever fica tudo normal. ninguém vê: então não existe. a escrita é um outro amor que nem sempre conseguimos ver.
têm-me dito muito ultimamente, que não posso existir e, no entanto estou cá. talvez eu seja como aquelas palavras inventadas para o que não existe – ou gostava muito de ser uma, que fosse só tua: como se eu não existisse e tu me pudesses inventar."

9 comentários:

Vanessa disse...

(*)

Nuno disse...

(excelente comentário. obrigado*

Crissant disse...

Hola Nuno, tudo bem?
Recebi sua mensagem e fico feliz pelo avance do seu blog, espero que possamos ter sua presença aqui muitos anos mais :)
Sobre o texto, me sinto honrada pelo convite, seria ótimo escreve-lo, exceto pelo fato que eu estou saindo de viagem amanha e nao tería tempo pra me dedicar a ele. Assim que se você quiser pode escolher e copiar uma das minhas fotos, imagino que seria pra postar no seu blog, nao sei. Só peço gentilmente que ponha os créditos da foto (eu sei que você sempre faz isso e eu agradeço).
No mais, nos falamos na volta.
Felicidades!
Abraço.

rosa disse...

plim plim.

Nuno disse...

obrigado, crissant: eu roubo mas digo de onde :)

boa viagem com tudo de bonito

Abraço.


rosa: ( )

p disse...

puff... nem sei o que dizer, estou do tamanho de uma formiga.

gostei muito da viagem sonora. fica perto do sagrado, no sentido da mary douglas: que diz que a realidade é uma linha cheia de buracos incompreensíveis e que o homem sobrepõe-lhe uma outra inversamente suspensa (que encaixa), para que juntas, de alto abaixo possam formar a continuidade necessária à visão humana do todo.
e as canções preenchem magnificamente os espaços deixados pelas palavras. para mim, que sou sempre aos solavancos no que escrevo, uma apneia em desordem, é bonito sentir essa compreensão: como um respirar aberto, ritmico, que transporta todo o ar. muito muito obrigada.

quanto ao blog, não deixei de escrever. só que ali, ali tudo é [o] sagrado. não tardava muito e estava como aqueles ermitões a viver numa só perna e com barba até ao umbigo :D o nirvana não é suposto atingir-se em vida, eu tenho um bocado de dificuldade com a linha temporal das coisas: sempre no lugar errado. de forma que agora escrevo para ter direito a ele e duvido que isso possa acrescentar qualquer coisa de bonito para alguém.
obrigada mais uma vez. beijo


v from q - és sempre a maior cassilda!
mas falta ali um texto em baixo, falta, falta, que eu sei ;) *

rosa - se soubesses o que gosto desse nome! *

Carlos Ramos disse...

Circula-se por essas avenidas, até que se possa, ou até que os anjos nos ordenem que já chega.

Abraço

Nuno disse...

p: (no fuckin' words) apenas um pedido em sinais de fumo, note-se: come back in a some sweet day.

carlos, obrigado pela leitura e comentário. - os anjos não dão ordens empurram-nos para elas :)

Abraço

Vanessa disse...

p: duvidas?

não duvides.

(pronto, era só isto que queria dizer.)

*