14 fevereiro 2011

até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 20110214

2 anos num mar superior

( )

há dias que ficam na memória: estes, em que todos vós, fizeram chegar o que agora poderão aceder, ficam sob a pele.

para: todos os que até hoje por aqui passaram, para os que continuam e, para os que eventualmente o possam fazer a partir de agora.

aos que geraram o que aqui poderá ser vivido, uma palavra: obrigado (por serem)

Manuel Gusmão
De repente a noite rasga-se e surge uma praia
em que os corpos estonteados acordam
a boca encostada ao mar superior que folheia
o ar que a respirar obriga e bate e canta.

Dirty Three ft. Nick Cave - Sea Above, Sky Below


(o mar superior é uma plataforma cósmica que se envolve comutativamente com as correntes tumultuosas do eixo do mundo, sobrepondo-se e acolhendo os movimentos do arrebatamento que o empurram até ser sorvido e erguido até uma distância imperceptível de si mesmo. aí mergulham seres que colhem vida com mãos em alvoroço, por contactarem a reinvenção de uma génese, depois de cultivada com um "amor louco", num percurso interpolar que apenas a voragem do consumo e ignição dos sentidos sabem conter, para estar contida numa forma de assombro: como de um "efeito universal: eterno" se tratasse - que o faz existir "na medida em que este lhe é reversível")

para guardar em MP3



cartografia para conter e nomear as canções: de Liliana Pinto




Rita Faria
Era um oásis que buscava.
Um pedaço de sombra, um retalho de manto verde apaziguador, uma promessa de conforto. Os dias passavam ofuscantes e opressores, forçavam as gotas de sal numa pele já demasiado cansada. As noites traziam o espanto sob a auréola de uma lua sempre cheia e gélida. Movida pelo impulso da imaginável fantasia concretizada, caminhava ainda e nunca mais lentamente.
Num sonho tinha ouvido.
Cânticos, melopeias, sopros, batidas e palmas.
Tinha visto.
Mãos estendidas, corpos cadenciados, cabelos ondulantes e olhos tão profundos como estrelas.
Por isso avançava.
Até ao dia.
O dia em que ao longe um reflexo diferente se revelou. O dia em que a respiração acelerou.
O dia em que um odor novo a invadiu.
Os pés descalços voaram pela areia, os braços afastaram os arbustos recém-surgidos. À sua frente o inominável dominava tudo o resto.
O que havia sido deserto era agora um mar superior de ondas agitadas como cavalos selvagens.
O que havia sido solidão transformara-se em comunhão.
O que havia sido medo era finalmente libertação.
E cânticos.
E mãos estendidas.

Sérgio Seixas (saber mais)


P (saber mais)
24 meses por dentro de um alfabeto
:
Andávamos perdidos na estação
Branca do poema. ninguém perguntou para que lado ficava o mar [ : tu sabes?] e
Como o vento que acende a chama de todas as coisas aéreas
Devolvemos a profecia inversa dos dedos
Entrelaçados [ : nu singular] e os movimentos ficaram a percorrer o
Fogo que adoecia a esperança de uma nova primavera. errante
Gramática meridional [ : pensaste tu] : os meus dedos agora sem marés
Humedecendo o sal de encontro à superfície dos dias. esta sim! é a
Ilha ilegível com que o cartógrafo sonhou.
Julgo que poderia construir aqui a minha cidade [ : secretamente : à vista de todos]a
Língua abandonada que renuncia ao silêncio da claridade
Mar e terra e fogo e ar. tudo a
Nascer com n de existir
Ou a caligrafia presa na antecipação interminável que transcende a
Procura. é sempre o vazio : a essência
Que enche o espaço inscrito na palavra. o vazio [ : essa]
Rendição da cidade humana que se condena ao verbo
Solitário. [ : e disseste] : sou o mapa que ascende ferozmente pelo
Território vocal do poema
Um vocábulo fremindo dedo-a-dedo a largura imposta do ar. e atravessarei o
Voo nocturno da grafia de todas as mãos incompletas [ : sou] o início. o ponto
X onde te despenharás na vertigem da garganta intocada. os meus dedos o
Zénite precipitado:[fincando aqui: uma haste : um som : uma frase : um mar superior]

Vanessa


Vanessa (saber mais)
É preciso fazer de conta. Depois todas as palavras, lágrimas e soluços saíram da minha boca, dos meus olhos e ouvidos, do meu corpo. Até que por fim na minha cabeça já não havia silêncio - nem um pouco – porque alguma coisa o tinha levado de mim, talvez para sempre. A porta abriu-se e depois fechou-se, eu ali, prisioneira de um alvoroço que nunca me pertenceu. Na verdade, gostava de ficar com os olhos todos cheios de céu e de mar e de nuvens mas sinto-me demasiado pequena e quero voltar a pensar num céu menos azul recortado pelos telhados e pelas árvores, um céu onde me sinta mais eu. É assim que quero agarrar todo o céu que nos sobra – antes que ele segure a minha mão e a tape e eu comece a tremer. Juro: ficámos assim por mais tempo do que o tempo que ficámos assim. Quando fechei os olhos, sem dormir, a mão dele ficou na minha mão. Tenho uma dúvida: alguém disse que era impossível roubar os olhos de alguém mas eu ando com os olhos dele para todo o lado, todos os dias penso neles, estão dentro da minha cabeça como por magia. Não acredito. Alguém me disse que não sabia o que era o amor – eu também não sei – mas sonho constantemente com ele. Todos olham para mim em silêncio e já ninguém respira, o barulho é uma música interior só minha, que ninguém ouve. Tudo quanto era plausível perde-se como água nas mãos. Lábios vermelhos são sismos - eu dei-me a todas as pancadas, quis rebentar nas tuas mãos – e tu sem veres o mar que tento ser. És tão meu quanto a noite é dos poetas. A escuridão é gigante como de costume e dentro dos meus ouvidos descem aqueles suspiros sem nome. De olhos fechados o mundo parece menos pesado ou será impressão minha? Fico sempre calada quando ouço o vento ao longe, para o ouvir. Ouvir com a paz que têm as árvores. Sentei-me funda no tamanho do mar e chorei. Para todas as coisas é preciso fazer de conta e, só por isso, aproximei-me ainda mais de olhos fechados. Quando erguer as mãos, é por ti.
Sigo agora em direcção ao mar superior que me afogará. Sabes uma coisa?
Se eu sou uma concha, tu és o barulho do mar.

Ricardo Magalhães (saber mais)


Ricardo Magalhães (saber mais)
Hoje acordei sozinho, a teu lado, ainda vestido com a saudade do que sempre quis ser para ti. Ver-te ali, ainda, transformou o meu dia numa foto antiga e rasgada, que tento guardar na gaveta daquela cómoda velha, onde vivem as recordações que já ninguém quer recordar.
Só me levantei, porque é assim que as pessoas adultas fazem.
Só me levantei porque já não há daqueles cinco minutinhos mágicos na pele dos meus lençóis e, se os tivesse forçado, ter-me-ia agarrado a ti para sempre, mesmo sabendo que os teus abraços já não têm o meu nome. Ainda aqui, porquê?...
Amanhã não vou acordar a teu lado.
Saí e fui ver o Mar. O Mar é como os gatos, não preciso de lhe explicar nada. O Mar é como os gatos, é Superior.
Quis muitas vezes acreditar que não tinha que te explicar absolutamente nada, mas...mas amanhã já não acordarei a teu lado.
Comigo só fica o teu sorriso, meu Amor, e aquela música linda que sempre me fará chorar.

Crissant (saber mais)


Graça Barreto
A verdade é que acordei hoje com vontade de praia. Esperei pela tarde. Está um dia de chuva, mas prefiro assim. Sempre gostei mais do mar em dias escuros. São os dias em que o caminho entre o oceano e o céu se me torna mais visível.
Está a fazer dois anos que não o conhecia, mas era tudo o que um mar deve ser. Gigante.
Entrei e deixei-me perder tal era a imensidão. As ondas volumosas surgiam num compasso musical que eu não conhecia. Que formavam melodias que me eram completamente novas novas mas que tão bem me embalavam... tão bem me dançavam... tão bem me choravam. No meio das ondas revoltas, um sem número de espécies que nas suas viagens se assemelham a milhares de palavras conjugadas harmoniosamente para formar textos do fantástico! Que nos contam histórias. Que falam connosco. Que dizem de nós. E eu queria absorver tudo. Conhecer num mergulho tudo quanto perdi nestes dois anos que passaram. Queria saber de mim, de ti, dele, de todos. Nadar, nadar, nadar. Afogar-me neste mar superior que eu me deixei desconhecer.
Saí. Estava molhada. Encharcada, aliás. Todas as gotas coladas na pele, a preencher-me os poros. Nem me sequei de tanto que quis guardar pelo menos o sal.
Amanhã volto ao mar. Não posso voltar a passar tanto tempo sem sabê-lo.

Cristina Monteiro

(FAZER UM POEMA DADAÍSTA
Tesoura, um artigo com o comprimento que pretende dar ao seu poema.
Recorte cuidadosamente as palavras que compõem o artigo e coloque-as num saco.
Agite suavemente, retire os recortes uns a seguir aos outros.
Transcreva-os escrupulosamente pela ordem que eles saíram do saco.
O poema será DADA.
A ideia surgiu da necessidade de não fazer algo novo, mas algo que transcrevesse os sentidos de todos que deixam por aqui palavras. Aleatoriamente esta sopa de sentimento comum não foi feita com o propósito de fazer sentido mas de provocá-lo.)

Lala da Silva "O Navegante" de Robert & Shana ParkeHarrison.


Lala da Silva
Navegar, num mar superior.
Sentir o frio das nuvens e adivinhar-lhes o sal.
O som da brisa parece um canto que emerge da tristeza,
Envolvente e desorientador.
Não há rumo, dizes tu,
Não há caminho traçado.
E com esta certeza percebes o momento
De libertar as amarras e
Imaginar um mundo onde o caminho é teu.
Navegar.
Corajosamente, subir ao mastro.
Ouvir na brisa um outro som,
que te lembra que há um esteio que segura tudo o resto.
Prestas atenção...
É já uma melodia que te diz onde estás
E te guia pelos caminhos que te afastam da turbulência.
Na memória estão os monstros sagrados
Que guardam os caminhos e os bloqueiam.
Mas é também quando navegas melhor
Feliz por não ter rumo
Aprendendo uma e outra vez
Como construir o teu mundo.

Rosa (saber mais)


Cláudia Pedrosa
Baixinho, num murmúrio quase inaudível chamo por ti!
Tenho medo de te acordar, não quero que vás!
Assim, enquanto dormes eu posso falar-te baixinho…
Dizer que adoro os teus olhos de MAR SUPERIOR… intensos, profundos,
que me embalam nas ondas da tranquilidade do teu sono.
Beijaste-me o ombro esquerdo!
Antes de adormecer, beijaste-o de uma forma carinhosa
E elevaste-me a outra dimensão…
Um beijo teu equivale a um mar de felicidade!
E volto ao teu olhar… intenso e profundo.
Como me perco nesses teus olhos…
Neles revejo a felicidade de te ter, embora não tenha, eu sei!
Não sendo meu, não deixas de o ser. Tenho-te comigo,
no pensamento, na boca, no meu ombro esquerdo.
És o meu presente, e não sei de passado ou futuro.
És o meu sal, o meu azul, os peixes que teimam em nadar no meu corpo e me fazem sentir o rubor da adolescência.
Decidi que és meu! Mesmo que não queiras! Ou que não possas…
Não posso perder essa imensidão… esses lábios de fogo ardente.
Por isso te chamo... baixinho... por isso não quero que acordes.
Sei que ao acordares irei perder esses olhos de MAR SUPERIOR,
Irei perder o meu beijo no ombro esquerdo.
Baixinho… digo que te adoro!
Baixinho… digo que és meu!
Baixinho…. peço que me vejas!
Baixinho... te peço um beijo no ombro esquerdo!
Baixinho… Muito baixinho… e quase sem falar te quero para mim.

Inês Alvarez - imagem de Vania Zouravliov


Tindergirl (saber mais)
Acordo consumida por tudo o que me roubaste.
Acordo cheia do amor que me dás.
Ainda ouço o teu sussurrar no meu ouvido.
A tua voz é meiga e deseja-me.
A tua voz tem mãos que me tocam.
Tocam-me até às profundezas do meu eu que não conheces.
Não fico saciada porque quero tudo.
Misturo-me contigo e perco-me nos teus braços.
Encontro-me contigo e comigo todos os dias.
Espero por esse encontro (num mar superior).
Fazes-me.

Mica (saber mais)


Patricia Siza
Surgiu no panorama globosférico, há exactamente dois anos uma ilha musical recheada de mais-valias, que eleva qualquer lufada de água à categoria de Mar Superior.
Musicalmente globalizante, atordoadamente inebriante, enriquece-nos ainda com imagens e fotografias apetitosas.
Comentários e sugestões das mais variadas áreas e formas musicais; Rock , Post - rock, Indie, etc.
O remember está também , de quando em vez, presente, teletransportando-nos para excelentes bandas que valem a pena rever ou reciclar.
O estilo sóbrio deste blogue contrasta com o conteúdo explosivo de carácter musical que lhe está inerente; desde músicas com chavões à Bloco de Esquerda que lhe conferem uma piada irresistível, até às mais sérias das odes que fariam corar de inveja qualquer poeta morto clássico.
Vale pena continuar a seguir esta maré bloguista e, no seu segundo aniversário, dar-lhe os ParaBéns!!!
Para o que sendo hoje, um Mar Superior, cresça e evolua ainda mais e se venha a tornar um Oceano!!!

Teresa Mendes "Queria de ti um país de ondas e de bruma, queria de ti o mar duma rosa de espuma." Cesariny


Manuel Boga
Servi-me dos meus próprios pés para me arrastar nas areias desse Mar onde me afogava todos os dias e me cravavas um minuto da minha vida para pensar. Até que me servi da insensatez para te compreender por fim, pois bastava dizer-te olá, e tu responderes-me... como vais? Bastou um pouco do nada para te acalmares e me deixares, hoje, aqui estar.


Zi Mateus
Vencido o desafio de iniciar este blog, o Mar Superior é um testemunho real de que há pessoas que fazem a diferença!
Sobrevivendo à primeira impressão sobre a ida a um primeiro concerto em 2009 foram inúmeros os assuntos que por cá passaram.
O entusiasmo foi a tónica e portanto os “aplausos” são merecidos e estimulantes.
Cá estaremos para mais dois anos para ouvir os sons e as palavras!

Nuno (mar superior)
Sobreposta àquele chão de prodígios
- que acedia à sua presença por se desenhar ténue -
desejou o ombro em convulsão até aportar no outro contíguo:
invisível:
violinos tacteando o tempo e o espaço consumidos
no movimento de um olhar clandestino;
permitido em troca,
na noite que fluía.
As cordas soltavam-se agora, prendendo pedras
à respiração suspensa,
perante imagens das viagens que os dias declinaram,
projectadas nas quatro mãos abertas -
limites da desintegração entre elas.
Árvores de dorso do deslumbramento não o censuravam:
ao mar superior;
convocado por pianos que dançavam com a percussão
agora pertencente ao domínio da vertigem.
O rosto, inclinava-se para o espelho contido
na suavidade das palavras,
a tocar a madeira e, sorriam às labaredas cristalinas.
O fogo caminhava sobre ossos até ai entregues
a ventos de abandono e perda.
As quatro mãos aprisionadas,
entoavam a canção atirada ao fundo do que as engolia:
o mar invadido.

16 comentários:

Tindergirl disse...

Parabéns Mar superior! Fez ontem à noite 2 anos, assistimos a um bonito concerto :)

Nuno disse...

ya: e sem saber que assistiamos :)

obrigado.

Anónimo disse...

Ler. Reler. Voltar atrás por achar que não é possível. Parar a meio. Respirar. Ganhar força para continuar nesta viagem de descoberta de sentidos. Brutal.
Parabéns MAR SUPERIOR.
(obrigada)

C.

Nuno disse...

obrigado pela leitura e comentário. muito. de parabéns está toda esta gente espantosa que tornou possivel algo, que permite reacções assim, que agradeço mais uma vez. continua a aparecer: a chave está sempre por cima da porta :D

p disse...

parabéns. está absolutamente incrível: à medida do mar superior.

Vanessa disse...

http://www.youtube.com/watch?v=uoIr60buB1I

a good place to look to the future is when you are sat at the sea
with the salt up to your ankles and a view of the end of the pier
you may look down at your model’s feet and wish that you’d just float away
and the weather here is overcast and the sea is the same shade of grey
so the landscape before you looks just like the edge of the world
but to the left side and the right side
either way is a crazy golf course

the sea is a good place to think of the future

and all you can hear is the sound of your own heart


parabéns! :)

Nuno disse...

p: obrigado. pela palavras. obrigado a ti e a quem contribuiu para que haja sentido no que dizes.

( )

vanessa: esta foi uma das que mais custou a deixar de fora, este processo foi novo para mim: porque nas outras "sessões" as canções são seleccionadas a rasgar: pulsam. aqui: recolher para depois não mostrar foi quase crimonoso, obrigado ( também ) por o fazeres, para além da tua contribuição para o todo que tem recebido manifestações que ( também ) enchem.

( )

rosa disse...

"Quando o velho o viu vir, reconheceu que era um tubarão que nada temia e havia de fazer exactamente o que lhe apetecia."

E.H.

Parabéns.
:)

Nuno disse...

uma obra marcante naquilo que li até hoje ( )

obrigado

pelo comentário e pelo teu contributo para o mar superior :)

p disse...

http://www.youtube.com/watch?v=hdvheuHhF2U

:)

elsafer disse...

as palavras dizem tudo , ou quase tudo ... sejam elas musicais, escritas ou de um pincel solto na tela.

falam de tudo , mesmo da loucura no colectivo ou individualizada ... são um toque da alma, um mar infinito de pensamentos.

passei com o convite de Michaela no seu FC

um trabalho de pensamentos a não esquecer

Nuno disse...

mar para caraças, p.

obrigado pela leitura escuta e comentário, elsfer e obrigado à michaela também. "stay tuned" :)

rosa disse...

Queremos mais, estamos mal habituados.

Nuno disse...

obrigado, rosa.

não é todos os dias que vos consigo reunir a todos :)

durante o fim-de-semana, haverá que ler, ver e escutar: promise.

Anónimo disse...

Do deserto só as cicatrizes do tempo lembram que um mar imenso por ali passou. -Disse o grão de areia com braços.
Falou assim porque não conhecia as palavras: grão a grão tudo muda como o vento.
Obrigado pela viagem(s)

Nuno disse...

obrigado eu por estares na viagem(s)